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Com EUA tentando reerguer a economia e estimular seus empresários, produtor de cerâmica que havia sido atropelado pela concorrência global vira fornecedor da rede de cafés

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East Liverpool, Ohio – Não muito tempo atrás, esta pequena cidade às margens do rio Ohio podia se chamar de capital da cerâmica dos Estados Unidos. Cerca de 50 olarias daqui "punham a mesa do país", como os moradores gostavam de se gabar, produzindo de tudo, de porcelana fina a urinóis, empregando boa parte da mão de obra local.

Mas isso acabou. A competição global e o colapso econômico despedaçaram o setor como um truque de puxada da toalha de mesa mal executado, transformando East Liverpool num ponto de desespero do país. A renda média local é cerca de um terço mais baixa do que a estadual e mais de 10% da mão de obra ativa está desempregada.

Funcionário termina uma caneca na American Mug and Stein, que conseguiu manter portas abertas com venda para a Starbucks
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Funcionário termina uma caneca na American Mug and Stein, que conseguiu manter portas abertas com venda para a Starbucks

Apenas duas olarias continuam abertas e uma, a American Mug and Stein Company, quase fechou as portas no segundo semestre do ano passado.

Então Ulrich Honighausen ligou. Honighausen, dono de uma empresa de utensílios para mesa, Hausenware, do condado de Sonoma, Califórnia, a qual fornece peças de cerâmica e artigos de vidro do mundo inteiro a varejistas como Crate & Barrel, Pottery Barn e Fred Meyer, tinha um plano para revitalizar a American Mug e criar empregos num setor virtualmente morto. E se a American Mug produzisse canecas para a Starbucks?

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"Quase não atendi o telefonema porque achei que fosse trote ou coisa assim", disse Clyde M. McClellan, proprietário da American Mug.

Contudo, em 12 de junho, as canecas da companhia começaram a ser vendidas em lojas da Starbucks de todo o país como parte de uma nova linha de produtos feitos nos EUA, sob a marca Indivisible.

A produção da American Mug manteve quatro pessoas empregadas e criou mais oito postos de trabalho aqui. O dinheiro da venda das canecas e outras mercadorias da Indivisible será empregado para apoiar o fundo Crie Empregos para os EUA, da Starbucks, o qual auxilia pequenas empresas. "Você precisa começar por alguma coisa", afirmou Honighausen.

A parceria improvável entre a Starbucks, com 200 mil funcionários, e a minúscula American Mug nasceu do debate sobre a terceirização feita pelas empresas norte-americanas e que responsabilidade lhes cabe ao lidar com o declínio do mercado de trabalho do país.

Algumas empresas realizaram pequenas ações para trazer de volta ao território norte-americano os empregos perdidos no setor industrial, às vezes estimuladas pelo declínio dos custos trabalhistas no país, às vezes pela insatisfação com a qualidade dos produtos feitos no estrangeiro.

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A General Electric, por exemplo, criou quase 800 empregos construindo fábricas em Schenectady, Nova York, e Louisville, Kentucky, para fazer baterias sofisticadas, algumas das quais produzidas anteriormente na China. A NCR está fabricando caixas automáticos na Geórgia, que também vinham do exterior.

Em maio, a Starbucks anunciou a construção de uma nova fábrica em Augusta, Geórgia, a qual empregaria 140 pessoas para produzir o café solúvel Via, da empresa, e os ingredientes para suas populares bebidas Frappuccino. Quase metade do total de novos empregos da Starbucks virá dos EUA e o resto, do exterior.

"Estamos à caça de outras oportunidades domésticas para produtos que vendemos e outras coisas que fazemos", declarou Howard D. Schultz, CEO da Starbucks. "É preciso haver uma sensação de urgência em relação à ação, e como provavelmente não a encontraremos em Washington entre agora e a eleição, está na hora de as empresas arregaçarem as mangas e encontrarem um equilíbrio entre a rentabilidade e a responsabilidade."

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A iniciativa não é puramente altruísta. A mão de obra chinesa se tornou mais cara e a Starbucks e outras companhias encaram as cadeias de abastecimento de forma mais holística. A American Mug pode entregar pedidos à Starbucks em quatro dias, enquanto os fornecedores chineses podem demorar três meses.

Além disso, um fornecedor chinês provavelmente exigirá um pedido de centenas de milhares de unidades, aumentando o risco de a Starbucks se ver presa com o estoque. Sem mencionar a diferença no frete. "Sem dúvida o custo de produzir em East Liverpool, pelo menos no começo, será mais caro para a Starbucks, mas o investimento que estamos fazendo tem a ver com a consciência de nossa empresa e do reconhecimento de que o sucesso tem de ser compartilhado", afirmou Schultz.

Até agora, porém, os indícios de que as empresas estão trazendo empregos de volta aos EUA são, no máximo, irregulares. "Não sei se estamos vendo uma mudança drástica", disse Gary P. Pisano, professor da Escola de Negócios de Harvard. "Nós precisamos é ver uma fabricação que crie novas capacidades antes inexistentes e sobre as quais possamos evoluir, mas ainda não estamos vendo isso."

A escola de negócios colocou seu enorme prestígio e recursos por trás do que chama de "reinventando os EUA", uma iniciativa para convencer empresas norte-americanas, muitas das quais tocadas por antigos alunos, a examinarem com atenção o impacto da terceirização na competitividade da nação.

"Um de nossos temores é o de que se perdermos certas capacidades industriais, também perderemos processos altamente inovadores", disse Pisano. "Se uma empresa traz sua manufatura da China, seus fornecedores vão se instalar lá e, assim, boa parte da inovação surgida dessa companhia e a criação de novos postos de trabalho vai acontecer em solo chinês e não aqui."

É claro, a fabricação de cerâmica não é o tipo de negócio de alta octanagem em que Pisano pensa ao falar em restaurar a competitividade norte-americana. A American Mug and Stein emprega basicamente as mesmas técnicas de 90 anos atrás, usando moldes e fundição, finalização e vitrificação realizadas à mão.

A olaria, onde a temperatura fica acima dos 30 graus para garantir que os produtos sequem adequadamente, parece saída de uma obra de Dickens. Fragmentos de cerâmica quebrada e argila se acumulam no chão, e os produtos são empurrados pelos empregados através de um monotrilho às várias estações na fábrica de quatro andares.

"Fiquei surpreso ao entrar nesta cidade sem passaporte", confessou Honighausen. "Parecia um país do terceiro mundo."

Desde que ele abriu a empresa em 1987, a maioria da fabricação é realizada no estrangeiro, na Europa e, mais recentemente, na China, onde a produção de cerâmica é um processo altamente automatizado.

Por exemplo, uma fabriqueta de Gifu, Japão, consegue produzir sete mil canecas por dia com apenas oito funcionários, dois dos quais encarregados de colocar as asas, fornecidas por outro fabricante. É um número dez vezes maior do que a American Mug pode produzir usando o mesmo número de empregados.

Ele descobriu a American Mug no ano passado após ter ouvido uma entrevista de Schultz, na qual o CEO da Starbucks, desgostoso com o impasse político em Washington em relação à elevação do teto da dívida, convocou os líderes empresariais a parar de fazer doações a políticos e começar a fazer algo eles mesmos para resolver os problemas do país.

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"Foi um belo grito de alerta para mim", contou Honighausen. "Eu pensei: 'Vamos logo com isso'."
Primeiro, ele cogitou construir uma fábrica no norte californiano, perto de sua base de operações, mas um contato comercial que faz decalques usados para aplicar decoração à cerâmica sugeriu examinar o que East Liverpool poderia oferecer.

Agora, não apenas a American Mug está produzindo a segunda encomenda da Starbucks, como também McClellan fez negócios com Honighausen e um de seus antigos associados, Kazuharu Kato, que produz cerâmica no Japão e na China. Eles compraram uma fábrica de cerâmica fechada em East Liverpool e pretendem contratar de 10 a 15 pessoas depois de colocá-la em condições de funcionamento, ainda neste ano.

Cerâmica à venda em East Liverpool, Ohio: empresas como a Starbucksajudam a trazer empregos industriais ao solo americano
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Cerâmica à venda em East Liverpool, Ohio: empresas como a Starbucksajudam a trazer empregos industriais ao solo americano

Chamada Red Barn, ela utilizará maquinário de ponta, como o das fábricas de Kato no Japão e na China, produzindo milhares de canecas e, no futuro, outros produtos diariamente.

Christina Bishop é uma das poucas novas contratações da American Mug. Segundo ela, a economia local estava "complicada" e "não existem muitos empregos por aqui que paguem o suficiente para você ter condições de ter uma família". Seu marido, Eric, passou seis meses desempregado antes de também vir trabalhar na olaria.

Muitos dos 11 mil moradores de East Liverpool trabalham nos cassinos do outro lado do rio Ohio, na Virgínia Ocidental, ou no aeroporto de Pittsburgh, a cerca de 40 minutos dali. O distrito escolar de East Liverpool é o maior empregador da cidade. A Homer Laughlin China Company, a outra olaria em operação na cidade, emprega de 200 a 300 trabalhadores.

"Ver a criação de empregos, ainda que poucos, é empolgante", disse Ryan Estell, prefeito de East Liverpool. "É importante que tenham percebido que aqui não existe apenas maquinário, mas também conhecimentos e know-how."

(Por Stephanie Strom)

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