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Remuneração de uma vaga para recém-formados no ensino médio caiu para uma média de US$11,68 por hora no ano passado, de US$15,64 por hora em 1979, segundo dados do Instituto de Política Econômica

Durante a recessão e a fraca recuperação econômica americana, o desemprego tem sido comumente usado para medir o nível de miséria do país. Mas muitas pessoas da classe média e da classe trabalhadora que têm a sorte de estarem empregadas também estão tendo seus próprios problemas, razão pela qual Sherry Woods, de 59 anos, uma motorista de Atlanta, encontrava-se em pé numa fila na feira de empregos com seu currículo escondido dentro de uma Bíblia.

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O atual emprego de Sherry não está sendo o suficiente para pagar suas contas. Quando ela começou a dirigir uma van de passageiros no ano passado, ela ganhava US$ 9 a hora e trabalhava 40 horas por semana. Depois, seu salário foi cortado para US$ 8 por hora e as horas foram drasticamente reduzidas. No mês passado ela recebeu apenas US$ 233. Então Sherry, que disse ter sido ameaçada de ser despejada por falta de pagamento de seu aluguel e que estava adiando uma consulta ao oftalmologista por não ter plano de saúde, saiu em busca de outro emprego. Mas não tem sido uma busca fácil.

"Eu estou procurando outra coisa, qualquer outra coisa", disse ela. "Com mais horas, que pague melhor e que tenha bons benefícios."

Sherry Woods, de 59 anos, motorista da van, aguarda por uma entrevista de trabalho em Atlanta, nos EUA
Stephen Morton/The New York Times
Sherry Woods, de 59 anos, motorista da van, aguarda por uma entrevista de trabalho em Atlanta, nos EUA

Os trabalhadores americanos andam bastante apreensivos atualmente. Muitos, como Sherry, estão subempregados. Para outros, o salário simplesmente não é suficiente para pagar as contas.

Ajustado pela inflação, o salário médio por hora foi menor em 2011 do que há uma década atrás, de acordo com dados de um livro que será publicado pelo Instituto de Política Econômica, o “The State of Working America" ( A Condição Trabalhista dos Estados Unidos, em tradução livre).

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Bons benefícios são mais difíceis de se encontrar e as pessoas estão passando cada vez mais tempo em trabalhos dos quais não gostam, com medo de que não serão capazes de encontrar algo melhor. Apenas 2,1 milhões de pessoas deixaram seus empregos em março, um número muito menor do que os 2,9 milhões de pessoas que se demitiram em dezembro de 2007, o primeiro mês de recessão.

Agora, à medida que a economia se torna a questão central da eleição presidencial, tanto o presidente Barack Obama quanto Mitt Romney estão se esforçando para apresentar plataformas que ofereçam uma recuperação da prosperidade da nação.

O desconforto por parte dos eleitores é impressionante: uma pesquisa The New York Times / CBS News constatou em abril que metade dos entrevistados acreditam que a próxima geração de americanos irá viver em piores condições, enquanto apenas cerca de um quarto afirmou que ela terá um futuro melhor.

E a riqueza das famílias está diminuindo. O Federal Reserve informou na semana passada que a crise econômica deixou a família americana média com uma riqueza não muito maior em 2010 do que no início de 1990, reduzindo as duas décadas de ganhos. Com o mercado de ações muito arriscado para os pequenos investidores e as contas de poupança pagando pouco em rendimento, construir uma base sólida ultimamente é um desafio até mesmo para aqueles que podem se dar ao luxo de guardar algum dinheiro.

Candidatos a emprego em feira nos EUA: salário simplesmente não é mais suficiente para pagar as contas
Stephen Morton/The New York Times
Candidatos a emprego em feira nos EUA: salário simplesmente não é mais suficiente para pagar as contas

Despesas como a de pagar pela faculdade de um filho - já que o custo do ensino tem aumentado mais rapidamente do que a inflação ou os salários - pode ser uma tarefa assustadora.

Quando Morgan Woodward, de 21 anos, começou seu primeiro ano na Universidade da Califórnia, em Berkeley, há três anos atrás, seus pais pagaram cerca de US$ 9.000 por ano em mensalidade e outros encargos. Agora eles pagam cerca de US$ 13.000 e estão se preparando para um possível aumento no ano que vem.

Mas com a situação de ter os seus rendimentos estagnados, recentemente seus pais tiveram que pedir dinheiro emprestado para pagar o último ano de seu curso, e agora estão se preparando para pagar as mensalidades de seu filho, que pretende começar a faculdade no outono.

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Pessoas com diplomas universitários ainda conseguem empregos com melhores salários e benefícios do que aqueles sem, mas muitos recém-formados estão encontrando dificuldades para conseguir o tipo de emprego que haviam imaginado.

David Thande, de 27 anos, que se formou na Universidade da Califórnia em Los Angeles, há cinco anos trabalha meio período como balconista em uma loja da Apple. "Eu sequer trabalho período integral, então eu passo cerca de 45 minutos todos os dias pedindo às pessoas para fazer hora extra, verificando se alguém não veio, me esforçando para conseguir ganhar mais", disse Thande, acrescentando que já atrasou o pagamento de seus empréstimos estudantis.

Mas a situação é muito pior para as pessoas sem formação universitária. O salário de uma vaga iniciante para homens recém-formados no ensino médio caiu para uma média de US$11,68 por hora no ano passado, de US$15,64 por hora em 1979, segundo dados do Instituto de Política Econômica. E a porcentagem de empregos que oferecem plano de saúde caiu para de 63,3% em 1979 para 22,8%.

Embora a inflação tenha permanecido relativamente baixa nos últimos anos, ela tem se mantido elavada para algumas das coisas mais importantes: a faculdade, cuidados de saúde, e até, recentemente, os alimentos. O preço dos alimentos no lar aumentou em 4,8 % no ano passado, um dos maiores saltos nas últimas duas décadas.

Sam Chea, de 38 anos, que vive em Oakland e trabalha à noite entregando pizzas para a rede Domino’s, disse que havia notado o aumento no preço dos alimentos no mercado e que estava preocupado com o fato de não ter uma educação universitária o prejudicar cada vez mais na hora de encontrar um trabalho digno. No outro dia ele foi para a cidade vizinha de El Cerrito se candidatar a um segundo emprego no Nation’s Giant Hamburgers, uma rede regional de restaurantes de fast-food.

"Eu vou ter mais segurança com um segundo emprego", disse. "É assustador. Eu não tenho uma formação e eu estou preocupado em pagar o meu aluguel."

"Tudo aumentou", disse Chea. "O aluguel, o gás, os alimentos e até mesmo o preço dos cigarros aumentou", disse ele, que parou em um barbeiro para cortar seu cabelo até antes de sua entrevista de emprego. "Estou habituado a fazer um corte de cabelo por US$ 6 ou U $ 7, mas eles me cobraram US$ 9. Até mesmo cortar o cabelo ficou mais caro.”

(Por Michael Cooper)


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