Tamanho do texto

Endinheirados correm para tirar suas economias da zona do Euro e preços de imóveis em áreas nobres de Londres atingem valores superiores ao auge da bolha especulativa

A Grã-Bretanha pode estar em recessão, mas os negócios de Rupert des Forges, corretor imobiliário de um dos bairros mais caros da capital, estão em expansão. Pelas suas contas, bastarão algumas semanas para encontrar um comprador estrangeiro para um apartamento de 140 metros quadrados dentro de uma mansão, com serviço de "concierge", em South Kensington, à venda por 3,25 milhões de libras esterlinas (R$ 10,35 milhões).

O corretor de imóveis de Londres Ruper­t des Forge­s no apartamento de Londres que custa R$ 9,5 milhões: dinheiro afluente da Itália, Grécia e Espanha
Andrew Testa/International Herald Tribune
O corretor de imóveis de Londres Ruper­t des Forge­s no apartamento de Londres que custa R$ 9,5 milhões: dinheiro afluente da Itália, Grécia e Espanha

Recentemente, foram vendidas duas propriedades maiores nas redondezas por cerca de 7,5 milhões de libras (R$ 23,89 milhões) cada. O comprador era um investidor ávido por tirar dinheiro da zona do euro – nesse caso, da Itália.

Endinheirados da Itália, Grécia, Espanha e outros países membros da união monetária europeia estão colocando dinheiro em bens fixos cotados em outra moeda que não o euro, cujo valor vem caindo. Apartamentos caros de Londres, cotados em libras, cabem belamente nessa fórmula.

Leia tudo sobre a Crise Econômica Internacional

"O interesse dos compradores está intimamente ligado às políticas da Europa", disse des Forges, sócio da imobiliária Knight Frank, atuando no setor há 23 anos, o qual afirmou "nunca ter trabalhado tanto".

A fuga de capital agora representa um dos grandes riscos financeiros da zona do euro. Segundo o Banco Central da Espanha, 66,2 bilhões de euros saíram do país em março, o maior nível desde que os registros passaram a ser contabilizados, em 1990. Analistas esperam uma saída ainda mais forte quando novos dados se tornarem disponíveis.

Embora o setor imobiliário londrino de luxo seja há tempos um investimento atraente para a riqueza estrangeira, quer sejam rublos russos, iuanes chineses ou riads sauditas, mais compradores do resto da Europa agora parecem ávidos por propriedades avaliadas em libras.

Mulher passa em frente à agência imobiliária Knight Frank, em Londres: nunca corretores trabalharam tanto
Andrew Testa/International Herald Tribune
Mulher passa em frente à agência imobiliária Knight Frank, em Londres: nunca corretores trabalharam tanto

Eles contam com ajuda das garantias da União Europeia de livre movimento de capital entre seus 27 membros, facilitando que os ricos comprem além das fronteiras. Os abastados são encorajados por corretores imobiliários de Londres especializados em investidores estrangeiros.

Não são apenas os locais mais problemáticos da eurozona a enviar dinheiro para Londres. Investidores franceses também buscam refúgio em Kensington e Chelsea, contou des Forges. O mesmo se dá com compradores alemães, cujos bancos e títulos são amplamente considerados portos seguros na zona do euro.

Nesta parte de Londres, perto do Royal Albert Hall, a maioria dos compradores de apartamentos similares é estrangeira e mais da metade provém da eurozona, segundo a Knight Frank.

"A fuga para locais seguros, associada ao temor de um término conturbado da crise das dívidas europeias, elevaram os preços dos imóveis sofisticados no centro da capital nos últimos dois anos", segundo relatório publicado pela Fathom Consulting, encomendado pela Development Securities, incorporadora local.

Os compradores estrangeiros não quiseram conversar sobre as compras para esta reportagem e os corretores falaram sob a condição de os clientes não serem identificados.

Com todos os distúrbios na zona do euro, os compradores da região preocupam-se que, a longo prazo, a saída da união monetária, caso venha a acontecer, termine com seus ativos sendo cotados numa moeda nova e desvalorizada.

Todavia, mesmo a curto prazo, com a cotação do euro enfrentando quase dois anos de queda frente ao dólar e à libra, sem ainda haver chegado ao limite mínimo, eles já percebem uma desvalorização na prática.

Os compradores da eurozona ajudaram a aumentar o preço médio de uma casa nos elegantes bairros de Kensington e Chelsea para acima de um milhão de libras pela primeira vez, em função do acréscimo de 3,6% ocorrido em abril. Em contraste, o valor de uma casa na Inglaterra e no País de Gales caiu 0,3% no mesmo mês, chegando a uma média de 160.417 libras.

Enquanto áreas nobres como Knightsbridge, Kensington e Chelsea se descolam do resto do país, a propriedade de luxo média no centro londrino vale seis vezes mais do que um imóvel médio na Grã-Bretanha, de acordo com o relatório do Fathom Consulting. Segundo o estudo, o valor atingiu um nível recorde.

"Os preços de agora estão bem acima do nível atingido no auge do ciclo especulativo, em 2007, antes do estouro da bolha, e, em contraste, o mercado residencial no resto do Reino Unido vem resistindo a grandes volatilidades e fraqueza dos preços", assegura o estudo da Fathom.

O relatório avalia a reserva de residências de luxo nos endereços mais desejados de Londres em cerca de 130 bilhões de libras. Os preços teriam superado a grande Londres em 30% e a Grã-Bretanha como um todo em 34% nos últimos três anos.

O relatório também dá um alerta: o colapso do euro poderia colocar a tendência de preço londrino em marcha a ré se a libra ganhasse força demais e o preço global dos imóveis caísse.
Por ora, porém, ele parece mais seguro do que as alternativas de compradores da zona do euro.
Para comprar ou alugar, a maioria dos investidores quer apartamentos com pé direito alto, "concierge" e, idealmente, sacada ou terraço, explicou des Forges. "É com isso que as pessoas estão acostumadas em Barcelona, Paris ou Milão."

Georges Verdis, diretor da London Executive, imobiliária de Londres criada há 20 anos por sua família da Grécia, disse que o auge do interesse grego se deu em 2010, quando efetuaram mais de dez vendas num mês.

Segundo ele, a cifra agora gira em torno de cinco transações mensais. Seus principais clientes estão embolsando os ganhos feitos nos últimos dois anos, mantendo os valores apurados na Grã-Bretanha.

Ao mesmo tempo, gregos menos ricos estão comprando apartamentos abaixo de 500 mil libras, também em bairros nobres, visando a alugá-los.

No entanto, Verdis afirmou ter ordens para comprar cinco residências grandes, cotadas em dezenas de milhões de libras, no centro de Londres, caso a Grécia abandone o euro depois das eleições, realizadas no dia 17 de junho.

Seus clientes temem uma grande agitação social caso aconteça o calote da dívida e uma saída tumultuada do euro. "Eles fecharão as casas na Grécia. O dinheiro deles já foi enviado para fora da eurozona."

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.