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Economistas chineses cobram estímulo à iniciativa privada e ao consumo

À medida que a China se prepara para mudar os líderes de seu país pela primeira vez nessa década, a abertura econômica que catapultou o país da pobreza para a conquista de seu lugar como uma potência global de exportação também está prestes a mudar.

Após quase uma década de esforços realizados pelo presidente Hu Jintao para reforçar o poder do Estado, um grupo de economistas chineses afirmou que o país está atrasado na implementação de outro grande esforço para estimular a iniciativa privada e promover uma mudança em direção a uma economia mais voltada ao consumidor. O desafio, dizem, é o de recuperar a força do setor estatal da China.

Mas isso parece cada vez mais improvável. Empresas públicas se tornaram cada vez mais lucrativas, gerando riquezas e privilégios para centenas de milhares de membros do Partido Comunista e suas famílias. Além disso, em um claro sinal de sua posição, o governo tomou medidas para limitar o debate público sobre a política econômica, ignorando as solicitações de mudanças. Embora a reforma política tenha sempre sido um tabu na China, na economia, do final dos anos 1970 até o início dos anos 2000, quase tudo era válido, com vozes poderosas apoiando medidas extremas que desafiavam o status quo. Mas agora, apesar do crescimento das mídias sociais, cada vez menos vozes dentro da China são capazes de realizar algum tipo revisão que poderia preparar a nação para prosperar a longo prazo com base em princípios mais sólidos.

"Hoje não é um bom momento para se falar de reformas, mas é um bom momento para se falar contra elas", disse Li Shuguang, um professor de Política e Direito da Universidade da China. "O governo não incetiva o debate."

Poucas pessoas conseguem ilustrar este dilema melhor do que Zhang Weiying, um professor de 53 anos de idade da Universidade de Pequim, que é provavelmente o que a China tem de mais próximo a um especialista acadêmico em economia.

Muito conhecido nos círculos da economia chinesa, Zhang foi demitido um ano e meio atrás de seu cargo de reitor da Escola de Administração da Universidade de Guanghua. Desde então, ele passou por um longo período sabático, viajando muito e dando palestras sobre os problemas econômicos que estão surgindo no país, entre eles o abrandamento do crescimento doméstico e um colapso no financiamento da iniciativa privada.

O problema é que grande parte da sua obra é de difícil acesso ou foi remetida a publicações secundárias.

No ano passado, ele concedeu uma entrevista em vídeo que durou mais de uma hora ao site Sina. Embora pertença a uma empresa de capital aberto listada na Nasdaq, o Sina trabalha em estreita colaboração com o governo chinês. Depois de ter sido disponibilizada por uma semana no site, a entrevista foi removida. Um porta-voz do Sina, que se recusou a dar seu nome, disse que o vídeo foi removido como parte da manutenção diária do site. Entrevistas semelhantes de especialistas mais reconhecidos, no entanto, ainda estão disponíveis.

O discurso de Zhang este ano no Fórum Yabuli para Empresários da China parece ter tido um destino semelhante. O discurso, que criticou a falta de mudanças orientadas para o mercado, não pode ser encontrado na maioria dos grandes sites de jornais chineses, um sinal de desaprovação de seus pontos de vista por parte do governo. O vídeo deste discurso está disponível apenas em sites estrangeiros que são bloqueados na China.

"Ele não pode aparecer nos grandes jornais, pois diz coisas que não se deve dizer", disse um editor sênior de um jornal administrado pelo Partido Comunista. "Não se pode desafiar o sistema dessa maneira."

Um homem com um visual um tanto quanto comum, Zhang não se parece com um radical. Mas seus pronunciamentos são precisos, refletindo o seu apoio a uma economia neoclássica nos moldes de Milton Friedman, o ganhador do Prêmio Nobel e defensor do livre mercado que deu aulas na Universidade de Chicago durante décadas.

"Antes de 2003, a ideia da reforma era encontrada por toda a parte [na China]", disse Zhang. "Hoje em dia é muito mais difícil falar a respeito dela."

Desafiar o sistema, afirma Zhang, tem sido a chave para o sucesso econômico da China. Hoje, disse ele, isso significaria reduzir o controle do partido sobre setores importantes da economia. Durante a última década, as empresas estatais têm mantido e ampliado seu controle sobre o setor automobilístico, de aviação, de produtos químicos, de energia, de tecnologia da informação, maquinaria, metais, aço e telecomunicações.

As críticas feitas à essa tendência, no entanto, são limitadas. Uma diretriz realizada pelo Ministério da Propaganda neste ano, por exemplo, explicitamente proibiu o uso de "monopólio" para descrever as ações das empresas estatais. Jornalistas disseram que é muito comum que artigos que abordam o efeito mortal do controle estatal sobre muitas indústrias nem chegam a ser publicados.

Isto contrasta com as primeiras duas décadas da abertura econômica da China, quando a tendência geral era a de diminuir o controle estatal e os economistas pró-mercado tinham uma voz bastante ativa no país.

Apesar de seus contratempos, Zhang está convencido de que seus pontos de vista eventualmente serão favorecidos. A desaceleração recente da economia da China mostra que o enorme pacote de estímulos realizados no país de 2008-09 foi apenas um paliativo, disse ele. A maneira que Xi Jinping e Li Keqiang administraram o país logo em sua chegada ao poder pode não ter feito muito para que a China seguisse evoluindo, mas ele diz que acredita que eventualmente esta tendência irá ter que mudar inevitavelmente.

"Quando nós passamos pela reforma, as pessoas pensavam que nós tínhamos problemas", disse. "Mas agora que não a temos, elas enxergam o quanto precisamos dela."

Por Ian Johnson

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