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Vítimas da reestruturação do setor bancário, pequenos empresários lutam para manter suas portas abertas; mais de 50 mil fecharam nos últimos anos

Zaragoza, Espanha – Já houve um tempo em que Ivan Moreno, de 34 anos, acreditava estar prestes a realizar um grande feito – quando parecia uma boa ideia transferir sua empresa de skates para um moderno galpão na periferia da cidade e quando os pedidos se acumulavam, vindos de lojas de todo o planeta.

Mas esses dias ficaram no passado.

Assim como os proprietários de muitas empresas de pequeno e médio porte na Espanha, ele está lutando para manter suas portas abertas, tornando-se vítima, segundo ele, da vasta reestruturação do setor bancário espanhol após o estouro da bolha imobiliária em 2008. Moreno afirmou que seu banco encerrou sua linha de crédito de US$ 250 mil pouco a pouco, exigindo difíceis planos de pagamento e estrangulando seu jovem negócio.

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 Loja de skates de Ivan Moreno, de 34 anos, vendia mais de US$ 1,3 milhão para mais de 20 países. Agora ele não encontra compradores e já teve que reduzir sua linha de produtos
NYT
Loja de skates de Ivan Moreno, de 34 anos, vendia mais de US$ 1,3 milhão para mais de 20 países. Agora ele não encontra compradores e já teve que reduzir sua linha de produtos




"Tantas vezes eu fui ao banco e disse: 'O que eu fiz de errado?'", afirmou Moreno, que recentemente precisou mandar a maior parte de seus funcionários embora, incluindo um amigo de infância. "Mas o banco só diz que quer seu dinheiro de volta."

Os especialistas afirmam que o que ocorreu com Moreno está acontecendo com muitas pequenas empresas por toda a Espanha, à medida que muitos dos bancos regionais dos quais elas dependiam estão sendo eliminados ou engolidos em uma série de medidas destinadas a lidar com as centenas de bilhões de dólares dos empréstimos podres gerados pela crise imobiliária.

Ainda não se sabe se essa estratégia está funcionando. A Moody's recentemente rebaixou mais de uma dúzia de bancos espanhóis, incluindo os dois maiores e, no dia 25 de maio, um importante banco informou que precisaria de mais US$ 23,9 bilhões em ajuda financeira, muito mais do que o governo estimava quando passou a controlá-lo no começo do mês.

Contudo, os especialistas acreditam que o corte nos créditos esteja prejudicando as menores empresas, contribuindo para os problemas da Espanha ao aumentar o desemprego e diminuir a arrecadação fiscal, tornando ainda mais difícil diminuir o déficit orçamentário para níveis controláveis.

A perda de crédito é particularmente intensa na Espanha, onde mais de 60% da economia e 80% dos empregos vêm de empresas de pequeno e médio porte.

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Mais de 50.000 pequenas empresas fecharam as portas nos últimos anos. Moreno afirmou que houve um ano em que sua empresa, a Nomad Skateboards, vendeu mais de US$ 1,3 milhão em skates e acessórios para mais de 20 países. Mas agora ele está procurando um comprador para seu galpão e cortando sua linha de produtos apenas para skates e camisetas. "Se você não pode comprar, também não pode vender", afirmou. "E se não pode vender, é impossível lucrar."

Muitas empresas estão quebrando porque são incapazes de obter o crédito necessário para manter suas atividades diárias. "Os bancos onde as pessoas faziam empréstimos já nem existem mais", afirmou Alfonso Garcia Mora, diretor geral da AFI, empresa de consultoria financeira com sede em Madri. "Esses bancos foram incorporados por outros maiores, e que não estão interessados nesse tipo de empréstimo. Ou então, eles foram incorporados por bancos de outras regiões, onde os empresários locais não são conhecidos."

Tais mudanças terão efeito por muitos anos.

"Nós perdemos o conhecimento regional", afirmou Mora, "e ele é fundamental para decidir se um empréstimo será ou não concedido. Esse é um problema que persistirá por muito tempo ainda".
Há alguns anos, a Espanha possuía 45 bancos regionais. Atualmente, restam apenas 13 bancos e seu futuro continua incerto. Alguns deles se fundiram a outros bancos, ao passo que outros foram incorporados por bancos maiores e mais robustos, como parte das ações para tranquilizar os mercados globais.

Muitos donos de empresas afirmam que os gerentes com os quais trabalharam, muitas vezes durante décadas, talvez ainda estejam ocupando seus lugares nos escritórios regionais. Contudo, eles perderam o poder de aprovar empréstimos, ainda que quisessem fazê-lo, e normalmente seu trabalho consiste em dar noticias ruins. Isso significa mais problemas para um país com uma taxa de desemprego de 25 por cento e que não dá sinais de recuperação econômica.

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O bairro dos galpões que abriga a empresa de Moreno está praticamente deserto nos dias de hoje. Charo Albas Vives, proprietária da fábrica de calçados infantis Colores, vive uma situação parecida. Seu banco cancelou seu crédito de US$ 65.000 há dois anos.

Segundo ela, no começo o banco exigiu que ela devolvesse metade do dinheiro. Mas depois que ela fez isso, o banco a informou de que ela deveria pagar o resto, começando imediatamente.

Albas, que tem seis filhos, afirmou que os pagamentos forçaram sua família a fazer muitos sacrifícios. "Nós deixamos de frequentar o supermercado bom", afirmou. "Cortamos tudo, até mesmo o aquecimento."

Isso também significou que ela não podia mais manter o estoque de cores vivas que tornou suas lojas famosas. "Nós nos concentramos em branco e azul, agora."

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Segundo ela, a empresa sobreviveu graças a empréstimos feitos por sua família, ainda que 13 de suas 25 lojas tenham fechado.

Segundo os especialistas, antes da crise era fácil demais conseguir um empréstimo; os bancos funcionavam com pouco capital próprio e emprestavam dinheiro demais. Na verdade, os bancos regionais fizeram boa parte dos empréstimos problemáticos para os empreendedores imobiliários.

Mas agora que o setor bancário está lutando por sua sobrevivência, os empréstimos para empresas e famílias caíram vertiginosamente.

"Os cortes no crédito foram tão abruptos que algumas empresas não só perderam os projetos nos quais estavam trabalhando", afirmou Carlos Ruiz Fonseca, diretor de economia e inovação da Cepyme, a associação espanhola de pequenas e médias empresas. "Algumas delas simplesmente foram à falência."

Apesar das fusões e da injeção de capital dos pacotes de ajuda bancária e do programa de reconstrução iniciado pelo governo em 2009, não houve qualquer aumento no volume de empréstimos. De acordo com o Banco da Espanha, o crédito dado ao setor privado diminuiu em março, assim como em praticamente todos os meses desde o outono de 2009. Algumas empresas afirmam que já nem se incomodam mais em pedir empréstimos.

Conseguir um empréstimo para abrir uma empresa pode ser ainda mais complicado. "De que forma poderemos abrir novos negócios, se ninguém está disposto a se arriscar e nos emprestar dinheiro?", questionou Edward Hugh, guru econômico que escreve um blog a respeito da economia espanhola. "O problema se torna cíclico e se perpetua."

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Representantes dos bancos concordam que a reestruturação tornou a obtenção de crédito ainda mais difícil, mas afirmam que podem fazer muito pouco a esse respeito.

"Os bancos daqui são obrigados a reservar mais capital para se proteger contra o não pagamento dos empréstimos", afirmou um funcionário da CECA, a associação dos bancos espanhóis. "E quando exigem que eles tenham mais capital, as possibilidades de se conceder um empréstimo se tornam limitadas."

Algumas empresas encontraram formas inovadoras de fazer negócios sem crédito. Emilio Diaz, que fundou uma fábrica de janelas para ônibus e trens em Zaragoza em 1969, afirmou que, ao invés de pedir dinheiro emprestado para cobrir os custos com o vidro em um contrato grande, ele recentemente fez um acordo com seu fornecedor, segundo o qual pagaria apenas quando recebesse pelas janelas.

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Outras empresas descobriram que fazer negócios com diversos bancos pode ser algo interessante. Olga Rioja Navarro, diretora financeira da Lacasa, uma fabricante de chocolates que perdeu 20 por cento de sua linha de crédito, afirma que mantém seu negócio com a ajuda de quase uma dúzia de bancos. Atualmente, ela afirma que os bancos estão mais propensos a fazer empréstimos para cobrir contas atrasadas, por exemplo, do que para garantir os custos de operação do dia a dia.

Moreno e seu sócio, Chus Castejon, esperam poder contar com um investidor privado. Mas eles temem que sua marca perca um embalo difícil de recuperar no mundo do skate, que é tão ditado pela moda. "Às vezes você tem o seu momento, e não pode mais recuperá-lo", afirmou Castejon. "É isso que me deixa furioso."

Recentemente, Moreno e sua esposa chamaram alguns amigos para jantar. O encontro foi difícil para Sergio Eltoro, de 34 anos, que cresceu com Moreno e trabalhou com ele por quase 10 anos até que, recentemente, foi demitido. Ele amava seu trabalho e agora precisa encarar questões que acreditava estarem respondidas, como: "O que irei fazer a partir de agora?".

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(Por Suzane Daley)

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