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À medida que a recessão espanhola aumenta, mais trabalhadores encontram refúgio em uma crescente economia informal, que responde por até um quinto do PIB espanhol. Veja histórias

Sevilha, Espanha – Quando um trabalhador de 37 anos chamado Juan foi demitido de seu emprego como entregador e montador de móveis para a Ikea, há vários meses, ele se juntou a legiões de espanhóis desempregados.

Mas, assim como muitos outros, Juan continuou a fazer mais ou menos o mesmo trabalho. Ao invés de permanecer na folha de pagamentos da Pantoja, a transportadora terceirizada da Ikea, ele fica passeando pelo estacionamento da megastore, recrutando seus próprios clientes e se oferecendo não apenas para entregar os móveis, mas também para fazer "serviços gerais", como pinturas e reparos, tudo pela barganha de cerca de US$ 50 por dia.

Patricia Aragon Llamas, vende roupas de segunda mão em um mercado de pulgas, em Sevilha, na Espanha
Laura Leon/International Herald Tribune
Patricia Aragon Llamas, vende roupas de segunda mão em um mercado de pulgas, em Sevilha, na Espanha
"Eu faço tudo, menos a parte elétrica e de encanamento, nas quais eu realmente não tenho conhecimento bastante para garantir a segurança e um trabalho bem feito", afirmou Juan, que não quis que seu nome completo fosse publicado, uma vez que ele não declara sua renda e não queria entrar em conflito com as autoridades fiscais.

À medida que a recessão espanhola se intensifica, mais trabalhadores como Juan estão encontrando refúgio em uma crescente economia informal, que responde por até um quinto do PIB espanhol, de acordo com algumas estimativas. Isso traz grandes implicações para a Espanha, à medida que o país tenta se recuperar da crise, tornar seu mercado de trabalho mais competitivo e corresponder às exigências cada vez mais rigorosas dos credores europeus.

A boa notícia é que o tamanho da economia informal demonstra que um número aparentemente maior de espanhóis está trabalhando, e que as taxas oficiais de desemprego, de 24,4% – as maiores da Europa – podem estar de 5 a 9 pontos percentuais mais altas que a realidade, segundo economistas. Isso deu ao governo espanhol uma importante válvula de segurança para preservar a estabilidade.

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"Sem a economia informal, nós provavelmente estaríamos em uma situação de violenta agitação social", afirmou Robert Tornabell, professor e antigo reitor da faculdade de administração Esade, em Barcelona.

Mas o lado negativo é que os trabalhadores informais não pagam impostos e podem receber ao mesmo tempo os benefícios de desemprego e da assistência social. Vistas em conjunto, essas forças estão colocando o governo espanhol em uma situação apertada, com a diminuição de receitas e o aumento dos gastos. A perda de arrecadação pode chegar a US$ 60 bilhões, segundo a estimativa dos economistas.

Essa dinâmica está acelerando a deflação e o arroxo salarial, uma vez que os trabalhadores executam os mesmos serviços por menos dinheiro, cortando os custos dos serviços, mas reduzindo também o dinheiro que podem devolver a essa economia cambaleante, bem como aos cofres do governo.

Muitos desses trabalhadores não declarados concorrem diretamente com seus antigos empregadores, diminuindo em até 50% os valores oficiais para serviços como entregas e reparos de produtos eletrônicos. Juan, por exemplo, afirmou que agora ganha cerca de metade do salário de US$ 1.000 que já ganhou.

Muitas das pessoas entrevistadas afirmaram que não tinham qualquer escrúpulo em deixar de contribuir com a seguridade social e pagar outros impostos, dizendo que essa era a única forma de pagar suas contas.

Belen, designer gráfica, trabalha em seu próprio estúdio, depois de sua empresa ter fechado no ano passado
(Laura Leon/International Herald Tribune
Belen, designer gráfica, trabalha em seu próprio estúdio, depois de sua empresa ter fechado no ano passado
"Algumas pessoas podem pensar que estou me aproveitando do sistema, mas eu realmente me vejo como uma vítima de um modelo econômico falido", afirmou Belen, uma designer gráfica de 34 anos, cuja empresa, com sede em Sevilha, fechou as portas no ano passado. Desde então, ela continuou a desenhar logomarcas para uma empresa de artigos esportivos e para outros clientes, mas sem declarar sua renda. Ela também não quis que seu nome completo fosse publicado, temendo ser perseguida pelas autoridades.

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Se existe alguém que está se aproveitando da crise, afirmou, é "o cliente, que sabe que pode conseguir uma logomarca por uma fração do que ela costumava custar, e que não parece estar particularmente preocupado com a situação pessoal do designer".

Na Espanha, muitos trabalhadores, especialmente no setor público, têm contratos de longo prazo virtualmente irrescindíveis. Mas boa parte da mão de obra – mais que nos demais países europeus – tem empregos temporários com poucas proteções. Em épocas difíceis como esta, são essas pessoas que absorvem o choque da economia, aumentando a taxa dolorosamente alta de desemprego da Espanha.

Desde que assumiu o poder em dezembro do ano passado, o governo conservador do primeiro-ministro Mariano Rajoy tentou encorajar os empregadores a contratar funcionários com contratos de longa duração, mas também tornou mais fácil demiti-los. Ainda que a ação de Rajoy tenha sido mais radical do que as tentativas do governo anterior para enfrentar o problema, alguns críticos afirmam que as mudanças não foram profundas o bastante, deixando muitas pessoas protegidas demais e outras vulneráveis demais.

Enquanto isso, o mercado informal espanhol cresce e pode corresponder a cerca de 19,2% do PIB do país, de acordo com Friedrich Schneider, professor na Universidade Johannes Kepler, em Linz, na Áustria, que acaba de terminar um estudo em 35 países ocidentais.

Ainda que pouco tenha mudado em relação à estimativa de 19,3% feita por Schneider em 2007, no início da crise financeira internacional, o mercado informal espanhol atraiu um número maior de trabalhadores individuais e pequenos empresários, gerando um aumento significativo nas rendas não declaradas.

A economia informal seria ainda maior, segundo alguns economistas, não fosse pelo grande impacto sofrido pela construção civil na Espanha, onde grandes negócios não declarados eram realizados em dinheiro durante os anos do boom. Além disso, muitos dos operários que trabalharam na construção civil eram de países estrangeiros e estavam trabalhando ilegalmente, mas já foram desligados desde então.

Aqui na Andaluzia, onde a taxa oficial de desemprego é de 33%, o mercado informal está prosperando. Os muros e postes de sua maior cidade, Sevilha, estão repletos de anúncios pessoais, oferecendo todos os tipos de serviço, de jardinagem a reparos de computador.

Os mercados de pulgas também estão florescendo. Patricia Aragon Llamas, de 31 anos, aparece todos os fins de semana no mercado de Charco de la Pava, para ganhar cerca de US$ 64 vendendo roupas e sapatos de segunda mão.

"Esse mercado dobrou de tamanho desde o ano passado", afirmou. "Eu tenho um filho de três anos e um marido desempregado, portanto, não estou realmente pensando no que é legal e no que é ilegal, desde que isso nos traga um pouquinho mais de dinheiro."

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(Por Raphael Minder)