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Presidente do Banco Central vê situação atual como desdobramento dos abalos de 2008

BRASÍLIA - A crise global que levou a fortes quedas nas bolsas de valores no início da semana será prolongada e com novos momentos de sobressalto. A opinião é do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, que participou há pouco de um seminário sobre justiça fiscal em Brasília.

Ele vê o atual cenário mundial como uma continuidade e desdobramento da crise de 2008. As próprias soluções dadas para as dificuldades daquele momento, que eram essencialmente de falta de liquidez, geraram o atual quadro, na sua avaliação. "Estamos vendo as consequências fiscais das respostas à crise de 2008", acrescentou, citando a galopante trajetória da dívida pública dos Estados Unidos e de países da Europa, que agora preocupa os mercados.

As dívidas subiram em função do relaxamento das respectivas políticas fiscais naquele momento, que envolveram injeção de dinheiro público nos sistemas financeiros, renúncias fiscais e aumento de gastos. Tombini acredita que a crise será prolongada porque não vê perspectiva de retomada rápida do ritmo de crescimento das economias dos países desenvolvidos. "A recuperação tem sido hesitante.(...) O mundo vai crescer menos do que se previa", disse.

Em relação ao Brasil, no entanto, Tombini manifestou otimismo. "Temos uma primeira frente de defesa que é o regime de câmbio flutuante", afirmou, referindo-se ao fato de que isso permite ajuste do balanço de pagamentos externos do país. O aumento da classe média brasileira, com consequente expansão do mercado interno de consumo, é outra "fortaleza que serviu na crise de 2008" e que permitirá ao Brasil manter um crescimento econômico acima da média mundial, com inflação baixa.

O presidente do BC citou ainda o efeito das medidas de controle do crédito. Os financiamentos e empréstimos não deixarão de crescer, assegurou, mas se expandirão de forma mais segura para o sistema financeiro. Para ele, o ajuste fiscal brasileiro, por sua vez, também foi e continuará sendo fundamental. Os países emergentes, destacou, sofreram menos com a crise de 2008 e sofrerão menos agora justamente porque já tinham feito seu "dever de casa" sob o ponto de vista fiscal.

Ao contrário do que ocorreu em 2008, quando faltou financiamento externo para as exportações brasileiras, hoje não há problemas de liquidez no mundo, avaliou ainda Alexandre Tombini. As intervenções dos governos dos países ricos naquela ocasião surtiram efeito duradouro nas condições de liquidez mundial. Um dos sintomas disso é que o ingresso de moeda estrangeira no país tem sido expressivo e até exigido medidas do governo para contê-lo e reduzir impactos indesejados sobre a taxa de câmbio. O presidente do BC lembrou que o sinal dado pelo Banco Central dos Estados Unidos, no sentido de manter a taxa básica de juros em baixo patamar até 2013, contribui para que a liquidez continue alta.

(Mônica Izaguirre | Valor)