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Para De la Sota, saída para Argentina se desenvolver é integrar produção ao Brasil

Opositor da presidente argentina, Cristina Kirchner, José Manuel de la Sota não poupa críticas a sua correligionária, cujo governo chama de autista. Em conversa com o BRASIL ECONÔMICO, o governador cordobês diz que a saída para seu país é uma integração maior com o Brasil, onde trabalhou como embaixador. Segundo dados coletados pela inteligência de seu estado, os produtos brasileiros estão sendo substituídos por chineses. De toda a redução nas importações do Brasil, três quartos foram repassados para a China, país que a Argentina detém superávit comercial. “Uma relação comercial vai muito além do resultado da balança comercial. Precisamos de investimentos em ambos os países para melhorar a competitividade das empresas”, diz.

Tem gente importante no Brasil que diz ser necessário rever o Mercosul, até mesmo em acabar com o bloco.

Como vê a animosidade atual entre os integrantes?

O problema não é o Mercosul, e sim o governo argentino. Precisamos renovar o Mercosul, começando pela segurança jurídica. Precisamos fazer regras claras e cumpri-las. Isso é a base de uma integração regional. Está acontecendo algo grave na região. Não se pode ter um parceiro regional e sair para comprar os mesmos produtos em outro mercado. Temos que comprar e vender juntos.

As importações do Brasil estão sendo substituídas?

Por chineses e alguns outros. São produtos semelhantes. A diminuição das compras argentinas no Brasil fez o Brasil perder meio ponto percentual no PIB. Isso não é bom. O pior é que da diminuição na compra de manufatura de 14,3%, 11 pontos percentuais disso foram comprados em outros mercados. A importação na verdade caiu pouco mais de 3%. O que se reduziu foi o relacionamento comercial com o Brasil.

O sr. tem trabalhado também pelo acordo de Córdoba com São Paulo, por uma integração produtiva. Como está o andamento deste acordo?

O trabalho está sendo feito com todo o Brasil. Temos uma delegação chamada Cordobra para trocar ofertas de exportação e já começamos a fazer negócios. Ainda não temos números, mas tenho certeza de que em um ano estaremos muito bem. Quase 35% dos investimentos em Córdoba vêm do Brasil. É o único estado, fora Buenos Aires, que possui uma câmara de comércio e um consulado brasileiros. Tenho uma pesquisa, feita há 90 dias no meu estado, que pergunta qual o país que o entrevistado quer que a Argentina se assemelhasse. 72% dos cordobeses responderam Brasil. 20 anos atrás diriam Espanha, ou Itália.

Qual o risco desse programa fracassar devido ao governo?

Sou um otimista. Qualquer empresário tem direito de pensar que a Argentina não irá cumprir com promessas feitas aos investidores. Mas quero que eles saibam que existe uma outra liderança, que busca uma aliança estratégica com o Brasil. Isso não é uma opção a mais, é a única que temos para conseguir desenvolvimento econômico e social. Esta é a única política de estado que integra os partidos políticos. O atual governo está errando nessa questão.

Três membros do governo possuem atuação destacada no comércio bilateral: Débora Giorgi, ministra da Indústria, Guillermo Moreno, secretário de Comércio Interior, e Axel Kicillof, secretário de Política Econômica. Qual seu relacionamento com eles?

Nenhum. Os ministros brigam comigo, pois devem ao meu estado 2,5 bilhões de pesos (cerca de R$ 1,1 bilhão). Não reconhecem a dívida. Eu não escolhi o caminho da justiça, mas não me deixaram outro. Em uma sociedade sem diálogo, como defendo meu povo?

Se Moreno vem ao Brasil vender produtos argentinos e o sr. faz o mesmo, por que não vêm juntos?

O governo está autista. Não vejo nenhum relacionamento para fomentar o comércio bilateral. Fui embaixador aqui na primeira etapa do Mercosul. Festejávamos a cada barreira derrubada. O comércio crescia e a integração também.

Por que o enfrentamento entre o senhor e a presidente Cristina Kirchner se ambos são do mesmo partido?

Somos justicialistas mas não acreditamos nas mesmas coisas. Eu sou um continuador do melhor Perón. Do Perón que voltou ao governo para falar do diálogo entre os argentinos, para unir o país. Já os Kirchners ficaram nos anos 70, quando a violência superou a política. Não concordo com essa teoria do confronto permanente, na qual quem pede diálogo é conservador e quem briga o tempo todo é revolucionário. Eu prefiro uma reforma dentro da democracia, respeitando a liberdade de imprensa e de acordo com o povo argentino. A grande diferença que temos é que eles estão continuando uma ideia que foi superada pelo próprio Perón.

O senhor anda brigando demais com o governo. A mais recente foi com a ministra da Indústria, Débora Giorgi. Por que os desentendimentos?

Eu pedi diálogo, com respeito, como sempre faço. Aproveitei que a ministra visitava meu estado, em uma inauguração de fábrica, e disse: “Poderia levar à presidenta a intenção do povo e do governo de Córdoba de resolver pelo diálogo as diferenças econômicas que estamos tendo?” Se a presidenta me convoca, estaria trabalhando com ela. Mas a Giorgi achou que era um desrespeito. A maioria dos ministros da presidenta Fernandes de Kirchner estão acostumados a que todos batam palmas enquanto estão dentro da casa do governo. Mas quando eles enfrentam a realidade, e quando mais de três mil trabalhadores da Renault expressam sua inconformidade com as políticas do governo, ficam perturbados. Mas a culpa é deles próprios. Eles não estão respeitando os compromissos firmados com o meu estado.

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