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Produtores do país vizinho contradizem versão brasileira sobre bloqueio, que diz barrar maçãs por problemas sanitários

Funcionários da Cervi, no Alto Valle: 63% das maçãs importadas que os brasileiros consomem são argentinas
Gabriela Borges
Funcionários da Cervi, no Alto Valle: 63% das maçãs importadas que os brasileiros consomem são argentinas

Uma comissão do governo brasileiro esteve em Buenos Aires na última sexta-feira (8) para uma reunião com o secretario de Comercio Interior da Argentina, Guillermo Moreno. A expectativa era de que fossem solucionados os problemas de importação e exportação entre os dois países – que a Argentina atenuasse as restrições aos produtos brasileiros e o Brasil voltasse atrás com as represálias ao país vizinho. Além de ter terminado sem acordo, o encontro fez surgir informações contraditórias sobre a disputa comercial.

Benedito Rosa, diretor do Ministério de Agricultura, Pesca e Abastecimento (MAPA) brasileiro, afirma que a decisão de barrar a maçã argentina não tem a ver com as polêmicas decisões do governo Kirchner. “Existe um problema fitossanitário. Detectamos a presença de Cydia pomonella , que precisa de inspeção correta, seja qual for o cenário conjuntural do comércio”, diz. A medida que fez a fruta perder a licença automática de importação foi publicada no Diário Oficial da União na sexta-feira, para “reduzir riscos de introdução de praga com potencial de gerar prejuízos econômicos ao Brasil”.

Plantação de maçãs da Kleppe: perdas chegam a US$ 2 milhões por dia, dizem produtores
Gabriela Borges
Plantação de maçãs da Kleppe: perdas chegam a US$ 2 milhões por dia, dizem produtores

Mas a Câmara Argentina de Fruticultores Integrados (CAFI) argentina afirma que não recebeu nenhuma notificação oficial nesse sentido e que, até então, trabalhava com a versão de que a maçã, a pera e o marmelo tiveram as licenças suspensas pelos embates comerciais.

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Há um mês, o Brasil colocou dez produtos perecíveis argentinos sob o sistema de licença prévia de importação: maçã, queijo, azeitona, vinho, farinha de trigo, uva passa, chocolates, azeite, doces e batata pré-cozida. Até agora, nada havia sido dito sobre riscos sanitários, afirmam os agricultores. No caso das maçãs, várias empresas importadoras brasileiras já haviam feito pedidos e os caminhões estavam na estrada. Quando chegaram à fronteira, foram surpreendidos com a notícia de que deveriam ter uma autorização para entrar no país – o que ninguém tinha.

Diversas empresas têm toneladas de maçãs paradas na fronteira há um mês. As perdas chegam a US$ 2 milhões por dia, dizem os produtores. Nos galpões de embalagem, que dependem dos pedidos de compra para que as maçãs saiam da refrigeração e possam ser colocadas nas caixas, há pouca gente trabalhando. Segundo um membro de uma das cooperativas locais, a falta de emprego e as incertezas para os próximos meses geram pânico entre os trabalhadores.

A reportagem do iG foi à região de Alto Valle, na Patagônia argentina, onde são produzidas 100% das maçãs para exportação do país, que tem no Brasil um enorme volume de clientes diretos. Na temporada que antecede a colheita, em março, a região sofreu com o granizo. As geadas danificaram parte da produção e resultaram em queda de 30% nas vendas do primeiro semestre, normalmente destinadas ao hemisfério norte. Era esperada com otimismo a venda da parte armazenada ao Brasil, principal comprador no segundo semestre – 63% das maçãs importadas que os brasileiros consomem são argentinas.

“A restrição nos trouxe problemas, assim como aos nossos clientes no Brasil. Eles vão ter menos tempo para vender o produto, que pode chegar com uma qualidade mais baixa ao consumidor. Há muitas empresas brasileiras que têm as vendas estruturadas contando com as maçãs argentinas”, diz Oscar Martin, presidente da CAFI.

Gabriela Borges
"Seria desastroso se chegasse às peras", diz produtor; um dia depois, frutas são incluídas no bloqueio

Parte das frutas não vendidas ao Brasil será direcionada ao mercado local, que pode ter uma sobreoferta e queda nos preços. O iG esteve na região dois dias antes da publicação no Diário Oficial, quando as peras ainda não haviam sido barradas. “Seria desastroso se isso chegasse às peras. Estamos com a corda no pescoço”, disse Pablo Kleppe, diretor da empresa fundada pelo avô há quase 80 anos. No dia seguinte à declaração, as peras foram incluídas no bloqueio.

As licenças de importação sempre existiram no caso das maçãs argentinas importadas pelo Brasil, mas eram automáticas e em poucas horas um pedido podia ser liberado. Agora, podem levar até 60 dias. Um mês após o bloqueio, nenhuma autorização havia sido concedida, com exceção de dois caminhões puderam passar devido a recursos que importadores brasileiros conseguiram na justiça. “A Argentina e o Brasil tinham que se complementar e não brigar”, diz Jorge Cervi, diretor da Cervi, uma das marcas de maçã mais vendidas ao Brasil.

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Por outro lado, carregamentos de maçãs vindas do Chile, membro indireto do Mercosul, entram no Brasil todos os dias. “Estamos terrivelmente prejudicados e o Chile, absurdamente beneficiado. Éramos sócios e hoje parece que somos inimigos. Enquanto isso, perdemos produtos perecíveis”, completa o presidente da CAFI. “Esse é um dos setores mais atingidos pelas barreiras às importações”, analisa Alejandro Ovando, economista da IES Consultores. Em valores, as perdas já chegam a 24,2% em relação às exportações de 2011.

A Argentina é a maior exportadora de peras do Hemisfério Sul e a quinta maior produtora de maçãs do mundo. São vendidas ao exterior 460 mil toneladas de peras e 230 mil toneladas de maçãs anualmente (100 delas ao Brasil, seu maior comprador), o que gera cerca de US$ 50 milhões ao país. É um dos principais negócios agrícolas argentinos.

A região de Alto Valle, nas províncias de Río Negro e Neuquén, tem 500 mil habitantes e boa parte de sua economia gira em torno da fruticultura, que representa metade das exportações de frutas frescas no país. São 2.500 produtores locais, 300 estabelecimentos de armazenamento e embalagem, 220 frigoríficos e 11 fábricas de suco concentrado. A maioria desses produtores está na terceira geração de famílias de imigrantes italianos e espanhóis, que se organizam em cooperativas e associações para controlar desde a produção até a logística.

Só na região do Valle, frutas geram 50 mil postos de trabalhos diretos e 15 mil indiretos
Gabriela Borges
Só na região do Valle, frutas geram 50 mil postos de trabalhos diretos e 15 mil indiretos

Toda essa estrutura gera cerca de 50 mil postos de trabalhos diretos e 15 mil indiretos. Segundo a CAFI, a fruticultura demanda quarenta postos de trabalho a cada milhão de dólar faturado – com o petróleo produzido na região, esse número cai para cinco. Em cada hectare de cultivo de maçãs, um posto de trabalho direto é gerado, cerca de 70 vezes mais do que a soja. “Esse tipo de cultivo é grande gerador de mão de obra. É uma vergonha que embates políticos prejudiquem esses produtores”, diz Cervi. “Estamos quase implorando para que a situação seja resolvida logo”, afirma.

Alessandro Teixeira, secretário executivo do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, diz que na reunião de sexta-feira não se chegou a um acordo, mas que os dois governos estão analisando cada caso. “Essa foi a primeira reunião que tivemos na nova estrutura do governo argentino”, disse, sobre as negociações agora serem feitas diretamente com o polêmico Guillermo Moreno, a quem definiu como sincero, objetivo, direto e claro. “O que queremos é que essa tendência (de queda do fluxo comercial) diminua e a gente fortaleça o comércio regional”, afirma.

As restrições brasileiras começaram quando governo argentino passou a aplicar um sistema de controle que dificulta as compras no exterior, a DJAI, Declaração Jurada Antecipada de Importação. O objetivo era incentivar a produção local argentina. Entre os principais produtos brasileiros barrados estão calçados, com cerca de dois milhões de pares parados na alfândega, enlatados, autopeças e doces.

A tensão comercial chegou ao auge no começo de maio, quando a Argentina uniu à lista de produtos a carne de porco brasileira. A barreira teve seu fim anunciado pelo governo de Cristina Kirchner, com restrições. Mas a entrada está sendo liberada com lentidão. Como consequência, desde o começo do ano as autoridades brasileiras estão dificultando a entrada de alguns produtos importados e também suspenderem licenças automáticas.

Segundo o jornal Clarín, o total de produtos argentinos que precisam de autorizações prévias já representa 70% das exportações do país ao mercado brasileiro. Por outro lado, de acordo com dados da consultoria econômica Abeceb, as exportações brasileiras à Argentina caíram mais de 16% em maio em comparação ao mesmo período 2011. A Argentina é o terceiro maior parceiro comercial brasileiro, depois da China e dos Estados Unidos. O Brasil é o principal comprador de produtos argentinos. Na imprensa portenha, há quem sugira que os dois países frequentem uma terapia de casal para resolver os problemas da relação.

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