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Mesmo admitindo que o País enfrenta a interrupção do ciclo de expansão industrial, a produção de bens de capital perdeu dinamismo, a criação de empregos formais também desacelerou e a balança comercial perdeu vigor, o Banco Central manteve a taxa Selic em 13,75% na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) da semana passada por não sentir segurança quanto à trajetória da inflação. A ata do Copom, divulgada ontem, mostra que o BC não aceitou se desviar da estratégia preventiva e não desistiu de trabalhar para que a inflação não estoure o teto da meta deste ano, 6,5% - o centro da meta é 4,5%, batalha já perdida.

Depois de admitir que "a maioria" dos membros do Copom chegou a discutir o corte dos juros em 0,25 ponto porcentual, a ata mostra a opção pela "postura cautelosa" para manter a inflação "na trajetória das metas". Ao ficar claro que a manutenção da Selic foi uma decisão construída numa reunião de quatro horas, na semana passada, o Copom disse que prevaleceu a idéia de que "o ambiente macroeconômico continua cercado de grande incerteza".

Um dos argumentos desenvolvidos com mais detalhes na ata do Copom é uma comparação entre as "economias maduras" e as "economias emergentes", como a do Brasil. "Nas economias maduras, onde a ancoragem das expectativas da inflação é mais forte", a recessão "reduz rapidamente" as pressões inflacionárias, diz a ata. "Já nas economias emergentes, onde os efeitos secundários da elevação dos preços de matérias-primas sobre os preços ao consumidor e as pressões da demanda aquecida sobre a capacidade de expansão da oferta vinham sendo mais intensos, as pressões inflacionárias têm maior persistência."

A argumentação funciona como uma resposta a quem cobra queda na Selic, uma vez que "o mundo todo está cortando juros" - ontem, foi a vez da Turquia reduzir a taxa básica para 15% ao ano, fazendo um corte de 1,25 ponto. Os economistas do BC têm dito, em reuniões para avaliar as pressões políticas sobre o Copom, que "não dá para fazer política monetária por analogia".

O tom da preocupação com a inflação e com as especificadades da economia brasileira foi dado logo na abertura da ata com o retrato sobre o comportamento do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), referência da meta da inflação do País. Ao se "deslocar" de 0,26% em setembro para 0,45% em outubro e 0,36% em novembro, o IPCA "alcançou 5,61% nos primeiros 11 meses de 2008 - a maior variação nesses meses desde 2004", alerta o Copom. "Em 12 meses, saiu de 6,25% em setembro para 6,41% em outubro e 6,39% em novembro."

Diante desse cenário do IPCA, o Copom é categórico ao dizer que "ainda não se consolidou o processo de reversão de tendência de afastamento da inflação em relação à trajetória de metas, que vem se verificando desde o final de 2007." O BC admite, porém, que "o risco de uma deterioração ainda maior da dinâmica inflacionária (vem) se reduzindo".

O ritmo de forte crescimento no terceiro trimestre (6,8%) é usado também para mostrar que ainda pode haver um embalo dos efeitos do PIB alto no quarto trimestre. "O crescimento do consumo das famílias alcançou 7,3%, na mesma base de comparação (trimestre)".

Continua igualmente alto, diz a ata do Comitê de Política Monetária, "o volume de vendas do comércio varejista ampliado, que, de acordo com os dados dessazonalizados pelo IBGE, teve elevação de 4% em setembro, após recuo de 1,3% em agosto. Na comparação com o mesmo mês do ano anterior, houve crescimento de 15,9%, acumulando 13,8% no ano."

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