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Ao longo da MG-161, uma estrada de terra no sertão mineiro, o gás brota nos rios e a água dos poços artesianos se incendeia com um simples palito de fósforo

No Remanso do Fogo, gás exalado do poço artesiano forma labaredas de até um metro
Yan Boechat
No Remanso do Fogo, gás exalado do poço artesiano forma labaredas de até um metro
A MG-161 é uma estrada de terra bastante esburacada bem típica do interior de Minas Gerais. Com pouco movimento, seus 120 quilômetros iniciais ligam a cidade de Buritizeiro ao distrito de Cachoeira do Manteiga, uma comunidade rural às margens do Rio São Francisco onde vivem cerca de 3 mil pessoas.

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Nesse trecho, com as plantações de eucalipto tomando conta do cerrado à sua volta, a MG-161 seria apenas mais uma estradinha maltratada não fosse o fato ser o caminho para se chegar aos únicos lugares do sertão mineiro onde o gás brota da terra e as águas pegam fogo.

Conhecida como Caminho do Fogo, a MG-161 espalhou fama no sertão e as histórias dos estranhos fenômenos que ocorrem à sua volta ganharam estatus de lendas. Mesmo bem longe dali, há quem diga que em dias muito secos, sabe-se lá como, a água entra em combustão e que de vez em quando algum sertanejo morre ao cavar uma fossa ou um poço, intoxicado pelo gás.Não à toa, essa região que fica entre o Rios Paracatu e São Francisco tem o nome de Remanso do Fogo.

Ainda não existem registros oficiais de mortes ou rios incandescentes por ali, mas foi por causa de uma série registros de exsudação de gás (o nome técnico de quando o gás “vaza” da terra) em diferente localidades ao longo da MG-161 que a Petrobrás iniciou as pesquisas em busca do combustível na região na década de 70. Foi com base nessas pesquisas que foram identificados indícios de hidrocarbonetos na Bacia do São Francisco e a consequente licitação dos blocos para exploração, que estão ocorrendo agora.

Na fazenda Pé do Morro, uma propriedade de seis mil hectares localizada na beira da MG-161, o gás apareceu quando se perfurava um simples poço artesiano de 60 metros de profundidade. “A máquina estava furando quando de repente pegou fogo, ninguém entendeu nada”, conta Juvercino Ferreira, o administrador da propriedade. Assim que a água brotou do solo, percebeu-se que algo não estava certo. “Tinha um gosto de enxofre, cheirava igual ovo podre”, lembra o capataz.

Veja o vídeo do fogo no poço artesiano

Hoje o pequeno poço artesiano alimenta um reservatório que serve para dar água ao gado e entreter os visitantes. O fluxo de água que vem do poço artesiano é sempre cortado pelo gás. Basta um simples palito de fósforo próximo à agua para que uma labareda de quase um metro se forme. “Tivemos que isolar essa área porque caçadores passam a noite aqui assando as caças com o gás”, conta Juvercino. "Ficamos com medo de incendiar tudo".

Bem perto dali, um assentamento do Movimento Sem Terra com 70 famílias sofre com o que parece ser excesso de gás. Cinco poços artesianos já foram perfurados em busca de água para abastecer os acampados, mas nenhum deles vingou. “É água com gás, não da pra beber”, conta César Pereira, acampado há cinco anos ali. “Nossa salvação é o exército, que a cada três dias abastece nossas caixas e latões com água potável”.

Por ironia do destino, o bloco licitado pela ANP na cidade de Buritizeiro não tem data para começar a ser explorado. De acordo com a Petrobrás, as pesquisas iniciais por ali indicam que o acúmulo de gás é muito disperso, o que explicaria, até, os “vazamentos” nos rios e poços.

Com as poços artesianos contaminados com gás e enxofre, moradores de assentamento dos Sem Terra em Buritizeiro dependem do exército para ter água potável
Yan Boechat
Com as poços artesianos contaminados com gás e enxofre, moradores de assentamento dos Sem Terra em Buritizeiro dependem do exército para ter água potável