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Depois de viverem um longo período de bonança, as empresas de siderurgia e mineração brasileiras começam a se preparar para novos tempos. Nas últimas semanas, companhias como Vale, ArcelorMittal Tubarão e Usiminas anunciaram a suspensão ou redução da produção para se adequarem à demanda mais fraca, em razão da crise financeira global.

Ontem, foi a vez de a Gerdau antecipar a manutenção programada de suas operações nas subsidiárias Açominas, em Minas Gerais, e Siderperú, no Peru. A companhia prevê um volume de vendas 24% menor já neste quarto trimestre, em relação ao mesmo período do ano passado.

Para o economista Fábio Silveira, da RC Consultores, o movimento mostra que as empresas se preparam para uma desaceleração do crescimento doméstico. "O setor siderúrgico abastece indústrias de diferentes segmentos de consumo, como construção civil e bens duráveis, que já mostram indícios de esfriamento." Segundo dados do Instituto Brasileiro de Siderurgia (IBS), construção civil, automotivo e de bens de capital consomem 70% da produção nacional de aço.

A Vale foi uma das primeiras a anunciar que diminuirá o ritmo. Vai reduzir 30 milhões de toneladas anuais na produção de minério de ferro - cerca de 9,2% do total previsto para 2008. Entre as siderúrgicas, o maior corte ocorreu na ArcelorMittal, que vai diminuir em 35% sua produção na unidade do Espírito Santo. A Usiminas paralisou as operações de um alto-forno na Usina Intendente Câmara, em Ipatinga (MG). A medida deve reduzir em 3% a capacidade de produção. As duas empresas abastecem principalmente o mercado interno.

Segundo o vice-presidente do IBS, Marco Polo de Mello Lopes, as siderúrgicas aproveitaram a crise para antecipar as manutenções de equipamentos, que já estavam previstas. "Todo o setor vinha operando num nível muito intenso. Quando começou a ocorrer desaceleração, aproveitaram o momento para fazer as paradas com calma", afirma.

Para os analistas, porém, um dos principais motivos dos cortes na produção foram as férias coletivas anunciadas por montadoras como Volkswagen, GM e Fiat, que atingiram em cheio o setor. "O revés foi tão violento e rápido que pegou as empresas com estoque elevado. Isso fez com que as encomendas fossem totalmente paralisadas", diz o analista-chefe da Gradual Corretora, Paulo Esteves.

Nesse caso, a empresa mais atingida é a Usiminas, responsável por 40% da produção nacional de aços planos - matéria-prima que atende, principalmente, a indústria automobilística. Já a atual retração na demanda por aços longos, utilizados na construção civil, vem do exterior. A Açominas, da Gerdau, produtora de aços longos que diminuirá em 16% sua capacidade anual de produção, por exemplo, exporta 80% da sua produção.

No País, segundo os especialistas, as construtoras ainda não reduziram os pedidos. "Há muitas obras em andamento. A redução vai ser sentida mais à frente, com a diminuição do número de lançamentos", diz o analista da corretora Geração Futuro, Carlos Kochenborger.

O impacto da desaceleração do setor de mineração e siderurgia deve afetar também a balança comercial brasileira. Segundo Fábio Silveira, o segmento siderúrgico tem um peso importante na pauta de exportação. "Com o horizonte de desaquecimento da demanda internacional e queda de preços, não resta dúvida de que a receita com exportação em 2009 será menor", diz Silveira.

A desaceleração da indústria também vai contribuir para um crescimento menor da indústria nacional. Segundo estimativa do economista, a indústria deve crescer 3% no próximo ano, metade do porcentual previsto para 2008.

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