Fernando Mellis

Cartão de débito começa a se adaptar ao e-commerce no Brasil

Solução da Visa, testada em parceria com Banco do Brasil e Stone, leva às lojas online a experiência digital que já é comum no crédito

Click to Pay deve chegar ao mercado ainda em 2026
Foto: Divulgação/Banco do Brasil
Click to Pay deve chegar ao mercado ainda em 2026

A primeira reação mais contundente do cartão de débito  — um dos meios de pagamento mais afetados pela ascensão do Pix  — acaba de acontecer. Banco do Brasil, Visa e Stone realizaram a primeira transação de débito utilizando o Click to Pay no país, ainda em ambiente de produção controlado. A tecnologia da Visa está em fase final de implementação e deve chegar ao mercado ainda neste ano.

Para o consumidor, será possível cadastrar uma credencial de débito e fazer compras online sem precisar digitar os dados do cartão a cada operação. A solução utiliza tokenização e autenticação vinculada ao usuário e ao dispositivo, incluindo biometria por meio do Visa Passkey.

A novidade ataca justamente o ponto em que o débito ficou para trás. O cartão de crédito avançou rapidamente nas compras pela internet; o débito manteve a relevância no comércio físico.

Essa diferença tem relação com a própria evolução do mercado. O comércio eletrônico sempre esteve muito associado ao cartão crédito no Brasil, e a pandemia acelerou ainda mais essa relação. Em poucos anos, as compras online deixaram de ser um hábito restrito a uma parcela dos consumidores e passaram a fazer parte da rotina de milhões de brasileiros.

Foi nesse período de transformação que surgiu o Pix. O sistema de pagamentos instantâneos foi colocado em operação no fim de 2020, quando o setor ainda adaptava suas estruturas ao novo tamanho do comércio eletrônico. O cartão de crédito avançou rapidamente nesse contexto, com tokenização, carteiras digitais e novas formas de autenticação.

Débito pode estar entrando em uma nova fase

O avanço do Click to Pay, da Visa, acontece em um momento particularmente relevante para o débito.

O Pix resolveu boa parte do problema de conveniência dos pagamentos digitais, mas a popularização das transações instantâneas também trouxe novos desafios de segurança. Golpes envolvendo falsas lojas e pagamentos fraudulentos continuam entre as preocupações do sistema financeiro e, sobretudo, dos consumidores.

O Banco Central vem aperfeiçoando mecanismos para aumentar as chances de recuperação dos recursos desviados, mas ainda a passos lentos.

A Visa chega a esse cenário com uma infraestrutura construída ao longo de décadas para autenticar transações, identificar operações suspeitas e distribuir responsabilidades entre diferentes participantes. Essa estrutura sempre esteve presente no débito, mas perdeu relevância enquanto a experiência de pagamento online permaneceu pouco conveniente.

O Click to Pay pode mudar essa equação. Ao combinar o débito com tokenização e autenticação biométrica, a Visa aproxima duas características que o consumidor passou a valorizar simultaneamente: facilidade para pagar e segurança na operação.

A oportunidade para o débito está justamente aí. O consumidor pode utilizar o dinheiro que já possui na conta e, ao mesmo tempo, contar com uma experiência digital sofisticada. Se a nova infraestrutura funcionar como esperado, poderá ter os dois.

Reduzindo a fricção

O Pix também não eliminou a fricção do checkout. A experiência é simples, mas ainda exige uma etapa fora da página em que a compra foi iniciada: o consumidor precisa copiar ou escanear o QR code, abrir o aplicativo do banco, conferir a operação e autenticá-la antes de retornar à loja para concluir o pagamento. Em uma jornada de comércio eletrônico, cada etapa adicional representa uma oportunidade para o consumidor abandonar a compra.

É exatamente neste ponto que o cartão pode voltar a ganhar espaço. Com uma credencial já cadastrada, o consumidor tem mais chances de concluir a compra sem interromper a jornada para abrir o aplicativo do banco. A tecnologia ataca um dos problemas mais antigos do comércio eletrônico: tornar a última etapa da compra o mais simples possível.

O que esperar?

O débito passou os últimos anos perdendo espaço no comércio eletrônico ao passo que o crédito e o Pix ocupavam esse território. O Click to Pay da Visa mostra que esta história pode estar começando a mudar. A combinação de débito, tokenização e autenticação digital tem potencial para devolver ao meio de pagamento uma experiência que demorou a ser construída para a internet.

O teste agora será mais comercial do que tecnológico. A solução precisará estar disponível em bancos e lojas suficientes para se tornar hábito, e o consumidor terá de perceber uma vantagem real diante do Pix.

Para isso, a indústria também terá de explicar bem o que está entregando. Uma tecnologia que reduz etapas, protege os dados e simplifica o pagamento só produz valor se o consumidor entender essa diferença.

O mercado de meios de pagamentos costuma falar muito sobre a tecnologia por trás da transação e pouco sobre o benefício que chega ao cliente. Com a Visa, o débito terá uma nova oportunidade no comércio eletrônico, mas precisará comunicá-la tão bem quanto conseguiu construí-la.

* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal iG