Os sinais bastante assustadores do mercado interbancário dos EUA

Oferta diária de recursos pelo FED teve salto de US$ 60 bilhões para US$ 100 bi; falta de liquidez do sistema bancário norte-americano é flagrante

Ando preocupado em ser classificado como um economista pessimista, mas espero sinceramente estar errado. Mas é de se perguntar o que está acontecendo com o mercado de compromissadas ou Repos dos Estados Unidos?

Para os não iniciados, a operação compromissada é aquela em que o vendedor assume o compromisso de recomprar os títulos que alienou em data futura pré-definida e com o pagamento de remuneração pré-estabelecida.

Ocorre que esse mercado interbancário representa praticamente o nosso mercado de reserva doméstico com compromisso de recompra de 1 dia, no qual os bancos trocam recursos oferecendo em troca em garantias títulos do governo do governo norte-americano.

Nas últimas semanas, o mercado interbancário saltou de 2% para 10% ao ano mostrando claramente que faltavam recursos para o sistema financeiro dos Estados Unidos. Explicações do Federal Reserve (FED – banco central dos EUA ) e de alguns otimistas sustentavam que o quadro de falta de liquidez se dava em função da época de pagamento de impostos. Qual a novidade disso, dado que a cada três meses as empresas têm de pagar impostos nos Estados Unidos?

Argumentavam ainda que o vencimento de títulos públicos era maior que a renovação. Ora se essas transações não transitam pelo banco central, então a base monetária não se altera. Argumento frágil e tecnicamente falho.

Mas então por que os bancos pareciam desesperados por recursos monetários? Uma possível e plausível explicação seria a necessidade de se cobrir maiores riscos dada a maior probabilidade de calote (defoult) pelos credores dos bancos.

Esse aumento de probabilidade de default pode ser mensurado pela maior volatilidade dos retornos desses ativos. Volatilidade em finanças, significa risco. Quanto maior o risco, maior a demanda por capital econômico ou recursos monetários do mercado interbancário para cobrir eventuais perdas inesperadas ditadas pelos modelos dos bancos.

Se a vasta maioria dos bancos está exposta a uma probabilidade de perda maior, dada maior volatilidade dos retornos, maior a procura por colchões de liquidez ou maior capital econômico. Daí a maior demanda por recursos no mercado interbancário.

Inicialmente o FED se predispôs a ofertar US$ 60 bilhões diários por 14 dias, mas não foi suficiente, dada a maior demanda por recursos. No último dia 28 de setembro, o FED elevou a oferta diária para US$ 100 bilhões com compromisso recompra de 1 dia (overnight - repo).

Inúmeras poderiam ser as explicações, mas algumas não podem fugir à lógica:

1. O sistema interbancário dos EUA precisa de mais liquidez. Fato!

2. Razão para essa maior demanda: maior pagamento de impostos para o tesouro. Frágil. Não cola. A cada três meses as empresas pagam impostos e por que só agora o interbancário estressou?

3.  Maior vencimento de títulos do tesouro. Pelo meu conhecimento de economia monetária, se os títulos do governo não transitam pela autoridade monetária, a base monetária não é afetada;

4. Maior demanda por recursos via interbancário pelos bancos para enquadrarem o nível de seu capital econômico, dada a maior probabilidade de default testemunhada pela maior volatilidade dos retornos dos ativos em carteira. Bastante provável.  Aparentemente existe uma procura maior por recursos no interbancário pelos bancos para cobrirem riscos maiores esperados ou já observados, daí a falta de liquidez, o aumento do custo da linha de Repo e a intervenção do FED.

Mas quais são os riscos para a economia global e o Brasil? Ora, se os bancos dos EUA parecem realmente estressados em busca de mais capital para cobrir perdas inesperadas, então os ativos a que esses bancos estão expostos também são arriscados e voláteis.

Se uma crise de liquidez ocorrer em algum grande banco dos EUA, como ocorreu em 2008, então correríamos o risco de vivenciar efeitos semelhantes na economia real observados após a quebra do banco Lehman Brothers, com deletérios impactos na economia global, no sistema financeiro internacional e obviamente no nosso câmbio e na nossa recuperação econômica incipiente.

Temos certeza? Claro que não. Mas que o cenário parece estranhamente arriscado. E perigoso.

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