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A oferta abundante de grãos no Centro-Oeste tem atraído investimentos de grandes indústrias do setor de carnes, que veem na proximidade com a principal matéria-prima para produção de aves e suínos - os grãos - uma oportunidade para reduzir custos e, como consequência, elevar sua competitividade. Nos últimos anos, praticamente todos os investimentos em capacidade adicional de produção anunciados pelas principais processadoras de proteína animal do País foram destinados ao Centro-Oeste.

A oferta abundante de grãos no Centro-Oeste tem atraído investimentos de grandes indústrias do setor de carnes, que veem na proximidade com a principal matéria-prima para produção de aves e suínos - os grãos - uma oportunidade para reduzir custos e, como consequência, elevar sua competitividade. Nos últimos anos, praticamente todos os investimentos em capacidade adicional de produção anunciados pelas principais processadoras de proteína animal do País foram destinados ao Centro-Oeste. A pioneira nessa estratégia foi a antiga Perdigão, há cerca de dez anos. "Quem deu o primeiro passo foi a Perdigão, com a fábrica de Rio Verde", lembra o presidente da Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frango (Abef), Francisco Turra. Além da falta de espaço para expansões significativas na Região Sul, a proximidade da produção dos grãos motivou a instalação de um complexo industrial em Goiás. "A estratégia básica é estar próximo do grão. Nós temos hoje cerca de 230 milhões de frangos vivos, sempre. E esses bichinhos comem todos os dias. E comem grãos. Então, quanto mais perto estivermos dos grãos, melhor é para produzir o frango", diz o presidente da BRF-Brasil Foods, empresa resultante da fusão entre Sadia e Perdigão, José Antonio do Prado Fay. Somente os grãos - soja, milho e outros utilizados na produção da ração - equivalem a pelo menos 50% do custo de produção de um frango. Considerando outros elementos da ração dos animais, a alimentação corresponderia a cerca de 70% dos custos. No caso dos suínos, a ração chega a 80% do custo de produção. Economias no transporte dos grãos até as granjas, portanto, são mais do que bem-vindas. "Para ter um frango pronto, são necessários cerca de cinco quilos de ração. Ou você transporta cinco quilos de ração até São Paulo ou leva um ou dois quilos de frango do Centro-Oeste aos portos. Tem uma relação de transporte que incentiva a produção mais próxima do grão, além da necessidade de espaço", comenta o presidente da BRF. O presidente da Associação Brasileira da Indústria Produtora e Exportadora de Carne Suína (Abipecs), Pedro de Camargo Neto, pondera que, no caso do Centro-Oeste, o frete da carne é mais caro, por causa da distância dos portos onde é embarcado esse tipo de produto - Santos (SP) e Itajaí (SC). "Milho e soja são mais baratos no Centro-Oeste, mas por outro lado tem o transporte da carne, o que faz com que as empresas percam parte dessa vantagem." "Se forem resolvidos os problemas de logística, que ainda são um gargalo para o Centro-Oeste, a tendência é de que ele se torne uma região auspiciosa, de grande crescimento na produção de frangos", diz Turra. No ano passado, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Distrito Federal responderam por 13,5% do abate de frangos do País, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) que consideram apenas estabelecimentos inspecionados. A região, portanto, ainda está atrás do Sul, com 58,7% de participação, e Sudeste, com 23% da produção nacional. O quadro é semelhante no segmento de suínos. Atualmente, o Centro-Oeste é responsável por cerca de 11,5% da produção industrial de suínos brasileira, enquanto a Região Sul tem 63,2% e a Sudeste, 19,6%, de acordo com levantamento da Abipecs. Mas é grande o potencial de expansão. Apenas a BRF, considerando instalações de Sadia e Perdigão, tem 11 unidades industriais e três centros de distribuição no Centro-Oeste. A Marfrig Alimentos, segunda maior produtora de aves do País, opera uma unidade de abate de frangos e duas de suínos. Em março, o grupo assinou protocolo de intenções com o governo de Mato Grosso para construir uma unidade da Seara, adquirida pela Marfrig no ano passado, no município de Jaciara, com capacidade para abater 200 mil aves por dia e investimentos estimados em R$ 150 milhões. A empresa confirmou, por meio de sua assessoria de imprensa, que a proximidade da produção de grãos é, sim, um fator decisivo para o investimento do grupo no Centro-Oeste, considerando a redução de custos de produção, além da sinergia dos negócios entre aves, suínos e bovinos. A Marfrig também tem três unidades de abate de bovinos no Centro-Oeste. Futuro. Em um momento marcado pela retomada da demanda externa por carnes, depois de meses de forte retração causada pela crise global, investimentos adicionais em ampliação da capacidade ainda não estão nos planos - com exceção da Marfrig. A BRF, por sua vez, concentrará os seus esforços para aumentar o nível de utilização da capacidade da unidade da Sadia em Lucas do Rio Verde (MT), ainda em curva de aprendizado. Mas, assim que a demanda externa der sinais de que retomará a tendência de crescimento de antes da crise, a construção de capacidade de produção adicional deve ser destinada à região central do País. "Quando tivermos ampliação de demanda, com abertura de mercados importantes como Japão e Coreia para a carne suína brasileira, e, assim, tivermos possibilidade de vender mais, a ampliação de capacidade deve ocorrer nessas regiões novas", diz Camargo Neto, da Abipecs. Seja de frangos, suínos ou até bovinos - nesse último caso por causa da quantidade abundante de terras para pastagens -, a tendência é de que o centro do Brasil, cada vez mais, se transforme em polo produtor de proteína animal.

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