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Por piores que tenham sido os números do relatório sobre emprego na sexta-feira, eles ainda fizeram o mercado de trabalho parecer melhor do que realmente está. A taxa de desemprego atingiu seu ponto mais alto desde 1993, e o emprego em geral perdeu mais de meio milhão de postos de trabalho.

Isso, porém, foi apenas o começo. Graças à maneira errática como as estatísticas de emprego mais conhecidas do governo são calculadas, elas ignoraram muitos trabalhadores profundamente atingidos pela atual recessão.

O número de pessoas fora da força de trabalho - que não estavam nem trabalhando, nem procurando trabalho, e que o governo não considerou desempregadas - cresceu 637 mil no mês passado, segundo o Departamento do Trabalho. O número de trabalhadores em tempo parcial que disse que queria trabalhar em tempo integral - todos contados como plenamente empregados - cresceu 621 mil.

Levando em conta essas pessoas, o mercado de trabalho está na pior condição desde o início dos anos 1980 e se deteriorando rapidamente. A parte dos homens com mais de 20 anos empregados já estava, no mês passado, no ponto mais baixo desde 1983, e próxima do ponto mais baixo dos últimos 60 anos. A parte das mulheres empregadas é mais baixa do que há oito anos, o que nunca ocorreu em décadas anteriores.

Liz Perkins, de 24 anos e mãe de quatro filhos em Colorado Springs, Colorado, começou a procurar trabalho em outubro após saber que o marido, James, estava prestes a perder o emprego. Mas os empregos que encontrou, ou não pagavam o suficiente para cobrir a creche, ou requeriam que ela trabalhasse de noite. Perkins disse que a menos que seu marido encontre emprego nos próximos três meses, temia que ficar sem teto. "Esgotaremos a poupança rapidamente."

Mesmo economistas de Wall Street, cujas análises são em geral atenuadas, pareceram surpresos com o relatório. O Goldman Sacks chamou os novos números de "horrendos". Economistas do Morgan Stanley escreveram, "Simplesmente não há nada de bom nesse relatório." Analistas do HSBC agora esperam que o Federal Reserve (Fed, banco central americano) reduza sua taxa de juros benchmark (de referência) a zero.

Essa linguagem pode parecer em descompasso com uma taxa de desemprego que, apesar de aumento recente, continua em 6,7%. A taxa superou 10% no início dos anos 1980. Mas, nas últimas décadas, a taxa de desemprego se tornou uma medida menos útil da saúde econômica do país.

Isso porque hoje muito mais pessoas caem na zona cinzenta do mercado de trabalho - sem emprego e sem estar procurando por um, mas interessadas em trabalhar. Esse grupo inclui muitos ex-trabalhadores fabris que não conseguiram encontrar um novo trabalho que pague bem e não estão dispostos a aceitar um emprego que pague muito menos que o anterior.

Durante a maior parte do ano passado, as fileiras desses egressos da força de trabalho não estavam mudando rapidamente, disse Thomas Nardone, um economista do Departamento do Trabalho que supervisiona a coleta de dados sobre desemprego. As pessoas que haviam perdido seus empregos em geral começavam a procurar um novo trabalho. Mas isso mudou em novembro.

Os que procuravam empregos pareceram ficar profundamente pessimistas com a economia americana em novembro. A menos que os números se revelem um solavanco de um mês, muitas pessoas parecem ter decidido que é inútil buscar emprego agora.

"Não é só que não existe nada por aí", disse Lorena Garcia, organizadora em Denver da 9to5, National Association Working Women, associação que ajuda mulheres mal remuneradas que buscam trabalho. "Procurar emprego também custa dinheiro." Qual é a gravidade da situação do mercado de trabalho? Chegar a uma medida que seja comparável ao longo das décadas não é fácil.

A taxa de desemprego se tornou menos significativa pelo aumento no longo prazo dos egressos do mercado de trabalho. A simples porcentagem de pessoas sem emprego também pode ser enganosa, porém. Ela caiu nas últimas décadas principalmente por causa da entrada de mulheres na força de trabalho e não porque o mercado de trabalho esteja mais saudável do que estava.

O Departamento do Trabalho publica uma medida alternativa para o desemprego, que conta trabalhadores em tempo parcial que querem trabalhar em tempo integral, bem como qualquer um que tenha procurado emprego no último ano. Essa medida cresceu 12,5% em novembro - nível mais alto desde 1994 quando o governo começou a calcular a taxa.

Talvez a melhor medida histórica do mercado de emprego seja a criada pelo mercado, o salário. Durante a expansão econômica que durou de 2001 a dezembro de 2007, as rendas da maioria das famílias mal superaram o crescimento da inflação. Foi o crescimento da renda mais fraco de qualquer expansão desde a 2ª Guerra Mundial.

A única boa notícia do relatório, segundo economistas, foi que o salário ainda não começou a cair acentuadamente. Os salários semanais médios para operários subiram 2,8 % em relação ao ano passado, pouca coisa menos que a inflação. Mas os avanços podem encolher no próximo ano, se não nas próximas semanas, dada a queda na demanda por trabalhadores.

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