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Para especialistas, o problema não é escassez de mão de obra, mas sim a estrutura enxuta e a falta de iniciativa das empresas

A crise no setor aéreo, cujos episódios de atrasos e cancelamentos têm sido mais freqüentes nos últimos meses, tem uma relação muito estreita com a questão da mão de obra.

O problema, entretanto, nada tem a ver com a escassez de profissionais, na visão da diretora do Sindicato Nacional dos Aeronautas Graziella Baggio. Para ela, as dificuldades são causadas pela estratégia agressiva de redução de custos das companhias, que operam com a estrutura muito enxuta. "Enquanto o setor cresceu, em média, 12% ao ano, nos últimos oito anos, as contratações avançaram a taxas anuais de 2%. Isso mostra que os recursos humanos não acompanham o crescimento da área", afirma.

Condições de trabalho pouco favoráveis têm levado profissionais a atuar fora do país
SXC
Condições de trabalho pouco favoráveis têm levado profissionais a atuar fora do país
Dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) comprovam o rápido avanço da aviação civil no país. A demanda por voos domésticos cresceu mais de 58% entre 2005 e 2009, passando de 35,4 milhões para 56,2 milhões de passageiros. 

A perspectiva é que essa indústria continue crescendo, por isso Graziella afirma que as empresas devem se preparar, o que envolve participação no processo de formação da mão de obra. "Antes as companhias aéreas contratavam o profissional e investiam na sua qualificação. Em função disso, quando as novas empresas começaram a operar se depararam com um mercado cheio de profissionais experientes e bem formados", explica Graziella.

O coordenador do curso de ciências aeronáutica da PUC - Rio Grande do Sul, Hildebrando Hoffmann, concorda que falta investimento das corporações. "Na Europa as empresas são envolvidas na capacitação. A Lufthansa, por exemplo, forma seus profissionais", diz.

Graduação é diferencial

Na opinião do professor, apesar de haver muitos profissionais, há carência de pessoas qualificadas. "A questão é a qualidade. Hoje, o piloto deve ser um gestor de sistema e de recursos humanos, por isso não basta a formação no nível médio, é preciso investir na graduação."

Para Graziella, a busca por profissionais graduados em ciências aeronáuticas é uma tendência. "Na Europa e em algumas outras regiões o nível universitário é exigido", afirma.

A diretora do Sindicato defende, por isso, a criação de um curso em universidade pública para facilitar o acesso à graduação. "É preciso que haja investimentos públicos na formação da mão de obra", diz.

Segundo Hoffmann, as companhias aéreas já percebem o diferencial da formação universitária, cuja duração é de três anos, e têm até reduzido a exigência de números de horas de voo em função disso. "Na faculdade o aluno precisa ter, no mínimo, 160 horas de voo. Essas horas são de voo orientado e, portanto, mais eficientes na capacitação", afirma. "Não adianta o profissional ter milhares de horas se não houve orientação adequada."

O custo da hora de voo também representa um obstáculo. Graziella conta que a hora chega a custar U$S 200. "Um curso de piloto não sai por menos de R$ 300 mil", diz. Já Hildebrando alega que a formação fica em torno de R$ 100 mil. "Temos convênios com aeroclubes para garantir a aplicação de nosso programa", explica.

Remuneração e condições de trabalho

Ao longo dos últimos anos houve a degradação das condições de trabalho no setor, na opinião dos especialista. "As novas companhias criaram novos parâmetros de salário, escalas etc. Essa é uma das razões pelas quais há muitos pilotos brasileiros atuando no exterior", destaca Graziella.

Quanto à remuneração os especialistas apresentam dados gerais, comentando que pode haver variação em função das horas voadas:

Copiloto: de R$ 5 mil a R$ 6 mil
Piloto: de R$ 8 mil a R$ 14 mil
Piloto no auge da carreira: R$ 20 mil a R$ 30 mil
Comissários: de R$ 1,5 mil a R$ 1,8 mil

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