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Executiva que aproxima mulheres às áreas de TI e engenharia defende que mudança de cultura, e não cota, é o caminho para reverter o domínio masculino nessas áreas

Bina Chaurasia, chefe da área global de talentos da Ericsson: cota não é natural
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Bina Chaurasia, chefe da área global de talentos da Ericsson: cota não é natural

Não é preciso ter números para concluir que as empresas de tecnologia são dominadas pelo sexo masculino. De Steve Jobs a Mark Zuckerberg, as maiores referências neste universo não deixam dúvidas. Seja pelos salários menores, seja por discriminação, são poucas as mulheres que se aventuram na área de TI.

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Na multinacional sueca Ericsson, onde o quadro de funcionárias em TI e engenharia não chega a 20%, há a meta de aumentar a presença feminina nestas áreas para pelo menos um terço do quadro total de empregados. E sem utilizar o sistema de cotas, adotado em países como a Noruega.

Quem está à frente dessa iniciativa, o ICT Girls, é a chefe da área de talentos da Ericsson global, Bina Chaurasia. Para a executiva, políticas inclusivas de mudança de cultura e conhecimento, e não o sistema de cotas, são o caminho ideal para promover a diversidade de gêneros em empresas estritamente tecnológicas.

A estimativa é que pelo menos 2 milhões de vagas de engenharia e TICs (Tecnologias da Informação e Comunicação) poderiam ser preenchidas imediatamente se houvesse um equilíbrio entre homens e mulheres qualificados para estes postos. O salário pode ser um empecilho.

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No Vale do Silício, nos Estados Unidos, berço das empresas de tecnologia, um recente estudo mostrou que os homens recebem salários 73% que as mulheres nas mesmas funções e com o mesmo nível de escolaridade. Homens com diploma de curso superior ganham 40% mais que as mulheres com as mesmas qualificações.

Uma lei de 2003 na Noruega passou a exigir que as empresas de capital aberto tenham 40% de mulheres nos conselhos de administração. Mas um estudo da Universidade de Chicago, nos EUA, mostrou que esse tipo de medida teve pouco efeito no curto prazo. Não houve redução das diferenças salariais, nem melhora do ambiente corporativo.

iG – Como a Ericsson pretende colocar mais mulheres na área tecnológica?

Bina Chaurasia –  Escolhemos o caminho da inclusão focado na diversidade de gêneros e fazemos diversas ações para promover isso. Uma vez por ano, nos reunimos com garotas que estão em fase de escolher suas carreiras e tentamos derrubar os mitos sobre TI e engenharia, para incentivar o interesse por essas áreas. Nossa estratégia é global desde 2010, com uma forte atuação no Brasil e América Latina, e mais de 500 mulheres já participaram do programa.

O que tem impedido a entrada de mais mulheres na área de tecnologia?

Olhando para as garotas que ainda estão decidindo o rumo de suas carreiras, percebemos que isso acontece por diversas razões. Uma é porque a indústria da tecnologia é dominada por homens e há poucos exemplos de mulheres nestas áreas para perpetuar o exemplo. Outro motivo é que as mulheres parecem menos ativas do que os homens quando se trata de ingressar em redes de contato. Finalmente, acho que há um equívoco das mulheres em relação à engenharia em geral. Penso que as jovens que estão se decidindo sobre quais carreiras escolher parecem não ter modelos femininos a seguir nessas áreas. Nosso trabalho é tentar educá-las para aumentar o interesse.

Você acredita que esse interesse aumentou após o início do projeto?

Acredito que sim. Ao longo dos últimos cinco anos, desde que iniciamos em várias partes do mundo, como na América Latina e no Brasil, notamos um aumento importante na diversidade de gêneros dentro da indústria de tecnologias da informação e comunicação. Não só na Ericsson, mas em outras organizações este quadro está mudando. Ainda não chegamos num cenário ideal, mas certamente evoluímos.

Qual o percentual de mulheres trabalhando na área de TICs dentro da Ericsson?

Em todo o quadro de funcionários de tecnologia, há cerca de 20% de mulheres.

Em quanto é possível aumentar essa proporção nos próximos anos?

Acreditamos nesse potencial, e temos um comprometimento para que isso aconteça. Nossa meta é que até 2020 tenhamos pelo menos 30% de toda nossa força de trabalho composta por mulheres, inclusive em cargos de liderança.

Em países da América Latina como o Brasil, o desafio da inclusão feminina nestas áreas é maior?

Acho dificil comparar, porque cada país tem um impacto cultural diferente quanto ao papel das mulheres no mercado de trabalho. Em nossa cultura talvez seja diferente da Ásia e dos países árabes. Temos de levar isso em conta quando desenvolvemos o projeto em cada país.

Qual sua opinião sobre cotas para mulheres nas empresas?

Sou mais a favor de as mulheres terem aspirações e objetivos ambiciosos, e que possam conquistá-los de forma natural, em vez de por cotas. O sistema de cotas não é orgânico nem natural. Nossos lideres na organização têm iniciativas para estimular as metas pessoais e aptidões, e construir isso dentro do processo de recrutamento dos profissionais. Isso é sustentável, e não a cota. Não é bom incluir mulheres nestes postos se não existir uma cultura inclusiva por trás. Quando trazemos mais mulheres para a empresa, precisamos garantir que a cultura foi transformada.

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