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Segundo especialistas, liderança agressiva adotada pelo empresário no reality show "O Aprendiz" não é tão ruim e, em alguns casos, é até recomendável

A postura do empresário Roberto Justus à frente do programa “O Aprendiz – O Retorno”, da Rede Record, divide as opiniões de espectadores. Enquanto para alguns o apresentador assume o papel de líder da maneira correta, com firmeza e assertividade durante suas avaliações sobre os candidatos, para outros, Justus se comporta com arrogância e beira a falta de respeito na forma como os trata no momento da eliminação.

O empresário e apresentador Roberto Justus ao lado de Renato Santos (esq.) e Walter Longo (dir.), seus conselheiros no programa
Antonio Chahestian/Record
O empresário e apresentador Roberto Justus ao lado de Renato Santos (esq.) e Walter Longo (dir.), seus conselheiros no programa "O Aprendiz"


Baseado no formato da atração norte-americana “The Apprentice”, comandada pelo bilionário Donald Trump, o reality show mostra a disputa entre 16 candidatos a uma vaga em uma das empresas do grupo de comunicação de Justus, a Newcomm. Durante o programa, o empresário avalia a execução e os resultados obtidos nas tarefas delegadas aos participantes. Ao final de cada episódio, cabe a ele decidir quem deve continuar na atração e quem deve ser demitido.

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Isabel Cristina Arias, fundadora da Satôria Recursos Humanos e ex-conselheira de Justus no programa, começou a trabalhar com o empresário em 1993, no grupo de comunicação Fischer. Na época, ele era responsável pela área administrativa e, segundo Isabel, assim como em “O Aprendiz”, Justus era um chefe bastante exigente, mas com espírito inovador. “Ele é exigente com ele mesmo e com as pessoas que trabalham com ele também. Eu lembro que o Justus falava que eu deveria me vestir adequadamente, porque em uma época eu era gerente, depois passei a ser diretora”, conta Isabel.

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A dona da Satôria, que hoje trabalha com coaching focado em carreiras, foi conselheira no programa de Justus nas duas primeiras edições, ao mesmo tempo em que trabalhava na Newcomm. Segundo ela, Roberto Justus sempre foi muito incentivador, correto e com uma visão precisa, mas que naturalmente é bravo. “Justus é como ele é em ‘O Aprendiz’, não está fazendo um papel”, afirma a empresária. “O trabalho só sai depois que estiver tudo perfeito”, complementa.

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No entanto, a empresária acredita que, nesta edição do programa, a postura de Roberto Justus está muito exagerada. “É como se ele estivesse pedindo trabalhos para pessoas que não têm condições de fazer. Então ele dá uma esculachada. Isso na vida real não aconteceria”, conta Isabel Arias.

Na opinião da professora e coordenadora do curso de Administração da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Elisabete Adami, a postura de Justus não é exagerada. “É uma situação de stress, de competição, então a liderança dele em si é agressiva e tem razão de ser. Ele está precisando fazer com que as pessoas se posicionem e demonstrem aquilo o que ele quer”, observa ela. “Aquela coisa de que o líder tem de dar um feedback de maneira construtiva não funciona em todos os lugares. A liderança boa é aquela que é adequada àquele momento”, comenta Elisabete.

De acordo com Sonia Helena dos Santos, professora de gestão de pessoas do MBA e da Faculdade de Administração da FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado), o líder precisa exercer quatro funções básicas: ser chefe, transmitindo autoridade; ser gerente, coordenando as ações do grupo; ser referência, inspirando a equipe e sendo um exemplo a ser seguido; e ser um mentor, fazendo avaliações sobre os integrantes do grupo e apontando o que deve ser melhorado.

Para Sônia Helena, o perfil de liderança de Justus apresentando “O Aprendiz” contém todas as características. “Ele tem de criar as condições para motivar as pessoas, que é o que ele faz, ele dá os desafios. Depois acompanha por meio do monitoramento o desenvolvimento. E, por último, ele tem de produzir um produto ou serviço. Dentro dessa perspectiva, ele faz tudo direitinho.”, avalia a professora.

Estilo mais agressivo de liderança de Roberto Justus pode ofender quem não está acostumado com este perfil de profissional
Antonio Chahestian/Record
Estilo mais agressivo de liderança de Roberto Justus pode ofender quem não está acostumado com este perfil de profissional

No entanto, se Roberto Justus tem todas as características necessárias a uma boa chefia, por que as pessoas consideram a postura do apresentador arrogante e grosseira? De acordo com Sônia Helena, o erro nestes casos normalmente é de quem acredita no mito da liderança ideal. “Ele não tem de ser amigo. As pessoas confundem liderança com amizade. Mesmo os líderes entre eles [os participantes] são crucificados, porque o líder não está ali para agradar todo mundo, ele está ali para alcançar resultados”, observa ela.

Pedro Zanni, professor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV-EAESP), lembra que os conceitos de arrogância e grosseria são subjetivos e estão ligados à referência pessoal de cada profissional. Isso significa que uma liderança mais agressiva pode sim ofender alguém. “Tudo depende. Tem pessoas que não estão acostumadas com essa maneira de se colocar e tem pessoas que achariam estranho que o líder fosse uma pessoa super amorosa. Um perfil de líder tende a atrair um perfil mais específico de liderado”, observa. O importante é que os perfis da empresa, do líder e dos colaboradores estejam alinhados, justamente para evitar conflitos.

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Já para César Bullara, professor titular do departamento de Gestão De Pessoas do ISE Business School, a postura do empresário de dar mais retornos destrutivos do que construtivos aos comandados só seria aplicável fora do programa de TV em situações muito específicas, como no setor de vendas, no qual os vendedores são incentivados a superar os resultados uns dos outros. “Justus não promove entre as pessoas um sentimento de equipe. Ele está constantemente instigando [a discussão] e isso não constrói uma equipe sólida. Não é um perfil que duraria uma semana, nem sequer um dia, em uma organização com profissionais qualificados”, diz o professor.

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O líder que adotar esse tipo de postura em um ambiente que não pede tanta agressividade prejudicará os resultados da empresa. “Isso acaba minando a própria equipe, porque os [funcionários] que ficam são aqueles que no fundo não lhe interessam. Um bom profissional não se submete a esse tipo de conduta”, comenta Bullara. “Ainda que eu esteja procurando um profissional que tome iniciativa, que seja agressivo, no bom sentido da palavra, eu não posso fomentar um clima como o que existe no programa. Não é bom para ninguém”, completa.

César Bullara, professor titular do departamento de Gestão De Pessoas do ISE Business School
Divulgação
César Bullara, professor titular do departamento de Gestão De Pessoas do ISE Business School

Segundo Pedro Zanni, da FGV, um exemplo de situação em que um chefe deve ter uma conduta mais assertiva e parecida com a de Roberto Justus são os momentos de crise de uma companhia. “Alguém tem de tomar a frente e ser mais incisivo, duro e rápido. Eu tenho pouco tempo para resolver uma situação e preciso de pessoas se mobilizando, então eu serei um líder menos participativo do que eu seria em um momento em que eu tenho tempo para analisar e trazer as pessoas para uma reflexão”, diz o professor.

Mesmo que ao final do programa o prêmio seja uma vaga de emprego em uma das empresas do grupo de comunicação Newcomm, de Roberto Justus, a atração como um todo não deve ser considerada um exemplo de processo de seleção. “A análise de Justus [sobre os candidatos] pesa demais nas questões técnicas e foca pouco nas comportamentais. Ele parece não se incomodar com comportamentos aparentemente inadequados”, aponta Zanni. “É interessante [para o programa] que as discussões sejam acaloradas e que, de vez em quando, haja uma falta de respeito entre os participantes. Isso faz parte do show”, diz o professor da FGV.

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É preciso levar em consideração que “O Aprendiz” é um programa de televisão, que depende de anunciantes e audiência. Portanto, é natural que a dinâmica da atração seja diferente do dia a dia da maioria das empresas, por mais que se assemelhe em alguns pontos aos desafios que algumas pessoas enfrentam no ambiente de trabalho. “O que é mais importante? Ter um bom programa ou ter uma boa pessoa selecionada? No fim, o custo dessa pessoa é muito baixo. Mesmo que ela não seja o melhor profissional, ela vai ficar por um ano, entregar as coisas e para ele [Roberto Justus] está resolvido”, conclui Bullara.