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Empresas e investidores oferecem crédito a estudantes e, em troca, embolsam os salários que receberão quando entrarem no mercado de trabalho

NYT

Daniel Toole, arquiteto de 28 anos de Seattle, pretende fazer mestrado em urbanismo em Harvard. Porém, em vez de bancar os estudos com empréstimos estudantis, Toole tenta levantar dinheiro com a venda de uma fatia dos ganhos futuros a investidores.

Toole necessita de US$ 80 mil, mesmo com bolsa de estudos e subsídios. O estudante planeja financiar uma boa parcela desse valor por meio de uma nova empresa chamada Pave, que conecta gente como ele a financiadores. Caso atinja o objetivo e consiga US$ 30 mil com os investidores da Pave, Toole pagará à empresa 7% do salário anual projetado durante dez anos.

Os críticos dizem que a novidade entre os estudantes é uma espécie de semi-escravidão
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Os críticos dizem que a novidade entre os estudantes é uma espécie de semi-escravidão

"Se eu decidir entrar no Corpo de Paz ou trabalhar para uma empresa grande que não pague bem nos primeiros anos depois da faculdade, a porcentagem da renda total seria muito mais baixa do que em dez anos pagando os empréstimos", afirma Toole, que por enquanto já conseguiu aproximadamente US$ 11 mil.

O programa também tem mordomias. Os investidores, que claramente querem ver os investimentos humanos darem certo, costumam atuar como mentores. "Estou entrando em contato e tentando ver se consigo ter acesso a pessoas que possam me guiar pela carreira e me apresentar suas redes de contatos. Eu preciso de orientação financeira sólida. Não sou bom com dinheiro, e meus pais não podem me ajudar."

Essa forma alternativa de financiamento não deve causar o menor estrago no amplo mercado de empréstimos estudantis privados e públicos nos Estados Unidos. Contudo, com a dívida estudantil chegando perto de US$ 1,2 trilhão, ainda mais em um momento em que os recém-formados enfrentam desemprego elevado, não causa surpresa que exista quem considere a ideia atraente. Visto por outra perspectiva, críticos classificam o programa como servidão por contrato.

Defesa

Os candidatos do programa ouvidos acharam a ideia libertadora. Eles afirmaram preferir pagar a um ser vivo que correu o risco em vez de para uma instituição anônima; para os inscritos, tinha menos cara de empréstimo e mais de oportunidade. Se, por exemplo, um tomador de empréstimo quiser tirar um ano para criar uma empresa nova, ou a renda cair abaixo do nível de pobreza, eles não precisam fazer pagamentos. O risco é bancado pelo investidor.

A noção de usar parte da renda futura para pagar pelo ensino superior ganhou destaque recentemente no Oregon. A Assembleia Legislativa aprovou uma lei criando um programa-piloto. Em vez de taxas, todos os alunos matriculados nas faculdades estaduais pagariam, por exemplo, 3% da renda futura durante 20 anos para um fundo administrado pelo Estado. Ou seja, alguns pagariam mais pela educação do que outros; para os defensores do programa, as pessoas deveriam pensar no projeto como um programa de seguridade social, feito a previdência social.

A Pave e seus concorrentes, incluindo a empresa Upstart, operam de forma diferente. A Upstart, por exemplo, tenta estimar quanto você viria a ganhar, baseada em fatores como a faculdade cursada, o campo de estudo e a nota média, entre outros fatores. "Quem fez MBA em Harvard tem um potencial de ganho muito alto, o que significa que podem levantar mais dinheiro para uma porção menor de renda", diz Dave Girouard, fundador da Upstart e ex-executivo do Google.

Entre os poucos primeiros usuários, os indivíduos conseguiram, em média, cerca de US$ 25 mil, embora Rachel Honeth Kim, formada por Harvard e com MBA, tenha obtido US$ 100 mil de 37 investidores, incluindo Girouard.

Boa parte das pessoas inscritas em empresas como Pave e Upstart utiliza o dinheiro para financiar empresas e ideias ou, a exemplo de Toole, aprimorar os estudos ou quitar a dívida estudantil. Um calouro querendo bancar o curso inteiro não é o tipo de candidato que os sites estão procurando, pelo menos não por enquanto.

As empresas também têm anunciado os candidatos mais promissores de seus programas, muitas vezes com grandes planos empresariais ou causas com probabilidade de chamar a atenção dos investidores. Entretanto, ninguém tem garantia de levantar dinheiro suficiente para atingir suas metas.

Riscos

Também existem outros riscos. Se uma pessoa tiver muito sucesso, ou até mesmo um êxito moderado, ela pode terminar pagando muito mais do que recorrendo ao empréstimo tradicional. E pessoas com sonhos grandes em profissões com salários baixos podem não conseguir o suficiente para bancar os custos da formação.

Se o estudante não conseguir um bom salário, terá dificuldade para pagar o empréstimo
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Se o estudante não conseguir um bom salário, terá dificuldade para pagar o empréstimo


Logicamente, se os tomadores de empréstimo tiverem renda suficiente para bancar o compromisso, mas se não pagarem, a experiência como um todo vai terminar parecendo um empréstimo tradicional. Os crimes serão relatados às grandes agências de crédito. Empresas de cobrança também serão acionadas. (Os tomadores de empréstimo ficarão presos aos contratos. Pave e Upstart se reuniram com a agência federal que supervisiona serviços e produtos financeiros.)

Os participantes desses programas também precisam chegar a uma conclusão se se sairiam melhor recorrendo a programas e empréstimos estudantis federais. Alguns formados com uma dívida relativa elevada em relação à renda podem reduzir os pagamentos com a utilização de um dos programas de liquidação de dívidas do governo americano, que limitam os pagamentos a 10% a 15%  da renda e quitam o débito depois de 20 ou 25 anos. Funcionários de entidades sem fins lucrativos ou do serviço público podem ter direito a quitar as dívidas remanescentes após dez anos de pagamentos.

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