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De cada dez executivos, um tem insônia, diz pesquisa: terapia, respiração e ‘personal do sono’ podem ajudar

A economista Flávia David, 34 anos, conquistou antes dos 30 um emprego que proporcionava reconhecimento no mercado, alto salário e um apartamento na beira da praia com aluguel pago pela empresa. Mas este é apenas um lado da história. Com a pressão por metas, passava a maior parte das noites em claro e, nas que dormia, o período durava três horas, insuficientes para descansar.

“Acordava acabada, com dor de cabeça e enjoo. Ficava muito irritada e as relações interpessoais se tornaram difíceis”, conta. A única providência foi começar a tomar remédio e, mesmo assim, o problema persistia, rotina que durou dois anos.

Foi só ao ser demitida, quando a empresa foi vendida, que decidiu buscar ajuda. Neste período, o estresse já tinha deixado suas marcas: teve de retirar a tireoide pela presença de nódulos e detectou duas doenças autoimunes.

“Quando fui demitida, um colega me indicou um curso de gerenciamento de estresse e fui aprendendo a lidar com as emoções pela técnica de respiração e meditação, trazendo a mente para o momento presente. Faz três anos que durmo todas as noites”, comemora. O curso citado pela executiva custa em torno de R$ 350, dura quatro dias e marcou o início de uma vida mais leve para ela.

Alienados do próprio bem-estar pela pesada rotina de trabalho, grande parte dos executivos não procura resolver problemas do sono. Pesquisa da operadora de saúde Omint, feita com 15 mil profissionais entre média gerência e alto escalão, mostra que um em cada dez tem insônia. Outros 16,5% tem dor de cabeça, que pode ser derivada de problema do sono, enquanto 18,2% tem ansiedade, que pode causar os distúrbios.

São problemas cada vez mais presentes em pessoas com até 30 anos de idade. “Com o ritmo de vida corrido e muitas horas de trabalho, estamos dando preferência por resolver os problemas de imediato, e isso invade a hora do sono”, diz Luís Fabiano Marin, neurologista do Hospital São Camilo.

A indicação é que a pessoa que sinta excessivo cansaço durante o dia, dificuldades para dormir e dores de cabeça frequentes investigue o sono e procure um médico. A mudança de hábitos, porém, já é um grande passo. A pesquisa da Omint revela que 95,5% dos executivos não mantêm alimentação equilibrada, 44% são sedentários e 31,7% têm elevado estresse.

A mudança da alimentação e prática de exercícios foi o que ajudou João Márcio Souza, 35 anos, diretor de uma empresa de recrutamento, a superar os períodos de noites em claro quando estava sobre alta pressão no trabalho. Ele conseguiu contornar a situação antes que a insônia se tornasse permanente. “Nunca deixará de haver pressão, então é uma questão de saber administrar isso”, destaca. Em cargos de maior confiança o problema é mais contundente, dada a responsabilidade e as decisões a serem tomadas. “Mas não estar disposto para analisar situações é prejudicial para os negócios. É uma bola de neve.”

Os médicos também têm indicado terapia para resolver os problemas com sono. “Muitas vezes o indivíduo não associa o distúrbio com a vida profissional, familiar ou afetiva. Uma pessoa com grau elevado de ansiedade se mantém em estado de alerta e não relaxa, apesar do cansaço. Com acompanhamento terapêutico, será mais fácil mudar alguns hábitos, administrar estados emocionais e aprender a relaxar”, diz a psicoterapeuta Clarice Barbosa.

Prestar atenção ao momento de dormir também é fundamental. Álvaro Pentagna, neurologista do Hospital São Luiz, recomenda a chamada higiene do sono: ter horário para deitar e levantar, evitar bebidas com cafeína depois das cinco da tarde, evitar dietas pesadas à noite, usar o quarto apenas para dormir — e não para estudo, leitura ou assistir TV —, praticar exercícios pela manhã e criar um ambiente agradável. “Essas regras devem ser seguidas por quem tem transtornos”, ressalta.

O momento de dormir era o vilão para as dores cervicais de Alessandra Figueiredo, 42 anos. Por sete anos, ela seguiu orientações médicas em busca de tratamentos para a dor, mas não via resultados. Só resolveu quando encontrou um personal do sono, que corrigiu a forma como ela dormia. “Vivia à base de remédio para dor de cabeça e isso afetava meu humor no trabalho. Há três anos, sinto dores raramente.”

A fisioterapeuta Silmara Rodrigues Bueno se tornou ‘personal do sono’ porque percebeu que os tratamentos para dores que fazia no consultório eram paliativos. Agora, ela vai até a casa dos clientes e analisa como dormem, a R$ 70 por consulta mais deslocamento. “O sono serve para recuperar energias e, se estou desconfortável, mudo de posição à noite toda e não relaxo”, diz. “As pessoas dormem muito de bruços ou de lado e encolhidas. O certo é dormir de lado, usando um travesseiro que preencha o espaço entre ombro e cabeça e evitando atrito de joelhos e calcanhares”.

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