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Conheça histórias de pessoas que tentam encontrar o equilíbrio entre a vida pessoal e a vida profissional sem prejudicar as equipes com as quais trabalham

Kelly Azevedo costumava trabalhar mais de 70 horas por semana. Ela não fazia isso pelo dinheiro extra. O problema é que ela não tem filhos e quando seus colegas precisavam sair mais cedo para cuidar dos seus, era ela quem entrava em ação.

Kelly Azevedo trabalha em casa, com seu cachorro: ela deixou o trabalho em uma empresa de marketing porque tinha de fazer o trabalho dos colegas com filhos
Jim Wilson/The New York Times
Kelly Azevedo trabalha em casa, com seu cachorro: ela deixou o trabalho em uma empresa de marketing porque tinha de fazer o trabalho dos colegas com filhos

"Os pais são uma classe diferente, eles recebem tratamento especial", afirmou Azevedo, de 27 anos, que saiu de uma empresa de marketing online para abrir o She's Got Systems, um site para empresários com sede em Sacramento. Segundo ela, enquanto cobria as faltas dos ex-colegas, sacrificava as próprias obrigações, deixando de cuidar de seus avós doentes.

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Nestes últimos dias do verão do Hemisfério Norte, Azevedo está dando voz ao que muitas pessoas sentem intimamente: a busca pelo "equilíbrio entre trabalho e vida pessoal", que parece tão íntegra e razoável, pode ser um tiro n'água no ambiente do escritório.

Em teoria, o horário de trabalho flexível parece uma proposta em que todos saem ganhando. Mas o equilíbrio entre o trabalho e a vida de uma pessoa pode se transformar no desequilíbrio da vida de outra. Afinal de contas, alguém precisa fazer aquela reunião, ou cumprir aquele prazo.

Lily Starling, da Downtown Davis Massagem e Bem Estar: turnos extras por conta de funcionários que tinham compromissos com os filhos pequenos
Jim Wilson/The New York Times
Lily Starling, da Downtown Davis Massagem e Bem Estar: turnos extras por conta de funcionários que tinham compromissos com os filhos pequenos

Por essa razão, muitos americanos que trabalham em empresas com horários flexíveis estão em meio a uma batalha de classes no escritório. Alguns funcionários esperam que as demandas de seus filhos sejam respeitadas – mas nem todos os colegas estão satisfeitos com isso.

Esse tipo de tensão não é novidade. Mas, em uma época na qual muitos americanos batalham para encontrar ou para manter o emprego – e enquanto muitos precisam fazer mais por menos –, esse problema se tornou evidente.

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O cuidado dos filhos sempre foi um ponto delicado nessa conversa, mas o assunto ganhou atenção renovada desde que Anne-Marie Slaughter publicou um artigo no The Atlantic. Ela comentou sobre o momento em que percebeu que não era capaz de manter um emprego no alto escalão do Departamento de Estado e cuidar de dois filhos adolescentes. Ao mesmo tempo em que defendia a flexibilidade para todos, Slaughter destacava os problemas enfrentados pelas mulheres na tentativa de equilibrar a carreira e os filhos.

Slaughter, de 53 anos, afirma que mães e pais devem ficar "orgulhosos" de sair mais cedo do trabalho em favor de seus filhos e não concorda com a ideia de que passar mais tempo no escritório resulta em uma maior produtividade. Entretanto, o trabalho presencial nem sempre pode ser evitado.

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Não são apenas as mães que têm dificuldades.

Aziz Gilani, diretor de uma empresa de venture capital com seu filho, Ziyad: no escritório de Gilani é comum pais deixarem o trabalho mais cedo para ficar com os filhos
Michael Stravato/The New York Times
Aziz Gilani, diretor de uma empresa de venture capital com seu filho, Ziyad: no escritório de Gilani é comum pais deixarem o trabalho mais cedo para ficar com os filhos

"Meus filhos têm aulas de natação que começam às 17h00", afirmou Aziz Gilani, de 32 anos, diretor da DFJ Mercury, empresa de capital de risco com sede em Houston. "Como consequência, há momentos em que meus sócios certamente esperam que eu esteja no escritório, mas minha sala está vazia porque estou envolvido nesses compromissos familiares. Tenho certeza de que isso os deixa sobrecarregados."

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Gilani afirma que, por sorte, dois de seus quatro sócios também têm filhos pequenos, mas isso também significa que ele está frequentemente do outro lado da moeda. "Às vezes preciso de uma resposta imediata, porque nosso trabalho tem prazos apertados, mas meu sócio está no treino de futebol da filha e isso já causou uma série de inconvenientes."

"É complicado", afirmou, mas a tecnologia atual permite que eles contornem esse problema.
Gilani afirma que nunca houve uma grande discussão em sua empresa por conta disso. Mas Deborah Epstein Henry, fundadora da Flex-Time Lawyers, descobriu que o ressentimento dos colegas é muito comum.

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"É por isso que muitos programas desenvolvidos para equilibrar a vida profissional e pessoal dão errado", afirmou Henry, cuja empresa, com sede em Ardmore, Pensilvânia, presta consultoria para escritórios de advocacia e outras empresas a respeito de políticas de flexibilidade. "Em um mundo ideal, ninguém fica sobrecarregado com mais trabalho caso seus colegas trabalhem menos horas."

Entretanto, a realidade é muito diferente do plano ideal.

Nossa equipe está em constante comunicação. Basicamente, todos sabem onde todo mundo está o tempo todo

Megan, de 31 anos, é sócia em um grande escritório de advocacia de Washington e pediu que seu sobrenome não fosse revelado, em função da delicadeza da questão. Ela afirmou que cuidou sozinha de um caso que dividiu com uma advogada de nível hierárquico superior, cuja jornada de trabalho era reduzida porque tinha três filhos. "Ela entrou no último minuto e ficou com todo o crédito. Ganhar experiência foi o lado positivo", afirmou Megan, que é casada, mas não tem filhos.

Assim, chegamos ao cerne da questão. Quem tem prioridade na hora de equilibrar a vida pessoal e a profissional: a mãe de três filhos, o filho que cuida dos pais doentes, ou o jovem de 20 e poucos anos que faz aulas de mandarim uma vez por semana? As razões realmente importam e devem ser colocadas em questão?

"Meu conselho é tirar as razões da mesa de negociação", afirmou Cali Williams Yost, diretora executiva da Flex and Strategy Group/Work and Life Fit, empresa de pesquisa e consultoria sediada em Madison, Nova Jersey. "As pessoas não devem dizer: 'Vou sair às 15h00 para levar meu filho a um jogo de futebol'", afirmou. "Afinal de contas, e a pessoa que tem que levar o pai à quimioterapia, ou que precisa ir à terapia de casais com o cônjuge?"

O que um funcionário deve dizer a seu patrão quando a vida começa a atrapalhar seu trabalho?

"Normalmente, as pessoas se concentram na questão: 'Para onde vou?'", afirmou Williams Yost, que já prestou consultoria sobre estratégias de trabalho flexível para as Nações Unidas, Microsoft e Johnson & Johnson, entre outros. "Ao invés disso, os funcionários deveriam se concentrar em 'Como posso fazer meu trabalho?'."

Problemas com a sobrecarga de trabalho frequentemente são causados pela implementação precária do sistema de trabalho flexível, afirmou Henry. As empresas deveriam deixar uma pessoa a cargo da supervisão de todos os funcionários que trabalham com horários flexíveis, monitorando suas horas e observando as tarefas e as equipes designadas, afirmou.

"Um programa desenvolvido para equilibrar a vida profissional e pessoal que seja eficaz é aquele que permite que o funcionário ganhe flexibilidade, mas continue acessível para colegas e clientes, cumprindo suas tarefas", afirmou.

Frequentemente, o culpado por essas situações é a falta de comunicação, afirmou Williams Yost, autor do livro "Tweak It: Make What Matters to You Happen Every Day" (Ajuste-se: faça o importante acontecer todos os dias, em tradução livre), ainda no prelo.

Pergunte a Megan, a advogada júnior. "Se a mulher com quem eu estava trabalhando me dissesse: 'Vou ficar de fora, você pode cuidar de tudo sozinha?', eu não iria me importar", afirmou.

Contudo, esse tipo de conversa não acontece tanto quanto deveria. Em uma pesquisa envolvendo mais de 600 funcionários a respeito do equilíbrio entre vida pessoal, vida profissional e flexibilidade, realizada em março de 2011, apenas 52% dos participantes disseram que conversavam com seus colegas a respeito de como, quando e onde eles haviam trabalhado. Em outras palavras, muitos colegas de trabalho ficam na mão porque seus companheiros não avisam que sairão mais cedo, que trabalharão em casa naquele dia ou que vão folgar toda sexta-feira no mês de agosto.

Em geral, a maior parte dos funcionários se comunica melhor com supervisores do que com subordinados e colegas, de acordo com Williams Yost, cuja firma contrata a pesquisa que é realizada a cada dois anos.

"Sem comunicação, o programa de flexibilidade não pode funcionar", afirmou Blair S. Murphy, de 40 anos, sócio na área fiscal da empresa de contabilidade global Ernst & Young em Boston. Murphy trabalha de perto com uma colega que sai todos os dias às 17h00 para buscar o filho na creche. Ele, por sua vez, sai mais cedo duas vezes por semana na primavera para treinar o time de beisebol do filho.

"Nossa equipe está em constante comunicação", afirmou. "Basicamente, todos sabem onde todo mundo está o tempo todo."

Portanto, qual é a solução?

Williams Yost afirma que precisamos deixar de dialogar em termos familiares ou de gênero. "Você cobre minha ausência quando eu precisar ir ao jogo de futebol do meu filho, mas eu cubro a sua quando você levar sua mãe ao médico", afirmou. "É assim que podemos evitar que as pessoas fiquem sobrecarregadas", acrescentou. "Não existe uma boa política de flexibilidade que só funcione para funcionários que tenham filhos."

Entretanto, nem mesmo as políticas bem projetadas são capazes de se adaptar à realidade de diversos setores que lidam com prazos apertados ou que não abrem muito espaço para o equilíbrio.

Na Ernst & Young a política exige que todos, não importa a idade ou circunstância, tenham os mesmos direitos à flexibilidade – não existe um trunfo que permita um maior equilíbrio entre vida profissional e pessoal, afirmou Karyn L. Twaronite, chefe de inclusão da Ernst & Young dos Estados Unidos, em Nova York. Mesmo que existam diferenças de implementação em função da área de atividade e do grupo, os funcionários podem estabelecer seus horários – seja para jogar basquete ou porque precisam buscar seus filhos na escola – até certo ponto, adaptando-os à vida pessoal.

"Quanto tentamos fazer isso pela primeira vez nos anos 1990, o sistema costumava gerar ressentimentos dentro de algumas equipes. Por essa razão, nosso objetivo deixou de ser o de 'cuidar de problemas femininos', para gerar um ambiente melhor", afirmou Twaronite. "Também não queríamos que os pais se sentissem mal por tirar folgas."

Entretanto, quem tem prioridade quando o último dia de férias do filho de um funcionário coincide com a partida de pôquer de outro?

"As pessoas se revezam e há uma grande transparência no processo", afirmou Twaronite.