Ócio criativo é receita para o desenvolvimento do Brasil

Defensor do modelo que equilibra trabalho e tempo livre diz que empresas precisam mudar o pensamento

Brasil Econômico - Rafael Palmeiras |

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Domenico de Masi, sociólogo e autor do livro ‘O ócio criativo’ é um italiano com coração brasileiro. Defensor do potencial criativo no país, Masi acredita que o Brasil tem boas chances de crescer se adotar o modelo do ócio criativo, que prega um equilíbrio entre trabalho e tempo livre.

Afiado com as palavras, o autor não esconde seu profundo descontentamento com um modelo criado que idolatra o trabalho. E estudos mostram que o sociólogo tem certa razão e seu modelo agradaria os trabalhadores. Um levantamento elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea) mostrou que se a jornada de trabalho fosse reduzida, mais de 60% dos trabalhadores dedicariam o tempo livre a outras atividades.

Além de comprometer a qualidade de vida, os trabalhadores reclamam que tem dificuldade para se desligar do trabalho (45,4%). Já entre os que usariam o tempo livre para outras atividades, 24,9% se dedicariam à família, enquanto 12,3% daria prioridade aos estudos.

No Brasil à convite da Associação Paulista Viva, Masi fala ao BRASIL ECONÔMICO sobre economia criativa e o ócio criativo.

Qual sua visão sobre a economia criativa no Brasil em relação a Europa?

Nós temos uma situação muito diferente entre Brasil e Europa. Passamos por uma temporada onde o Brasil estava em depressão e a Europa eufórica. Hoje está o oposto. A Europa está com uma economia em depressão e o Brasil em uma situação de euforia criativa.

Como deve ser a economia criativa no Brasil?

A economia criativa na Europa serve para encontrar uma maneira original de crescer sem traumas evitando o desperdício e incrementando a distribuição da riqueza. No Brasil a situação é diferente. Uma economia criativa aqui serve para evitar os erros do desenvolvimento da Europa e podemos resolver isso através de uma criatividade capaz de redistribuir trabalho, riqueza, saber, poder e as oportunidades. A economia criativa tem que conseguir completar o desenvolvimento, porém respeitando as distribuições.

O senhor já esteve no Brasil diversas vezes. Quais foram as principais mudanças que o senhor percebeu na economia criativa do país?

O Brasil tem apresentado vantagens na economia criativa. Desde a mecânica, na criação de aviões, no design, como, por exemplo, os irmãos Campana, até a arquitetura e a música. Existe toda uma parte forte que contribui para o desenvolvimento do Brasil dentro do setor.

De que forma o caminho para uma sociedade pós-industrial afetou o desenvolvimento da economia criativa?

Algumas sociedades são pós-industriais na produção e outras no consumo. Quando falamos inglês, por exemplo, somos pós-industriais como consumidores. A pós-indústria é baseada na inovação e a inovação é baseada na criatividade. Nesse caso não se pode ter inovação sem criatividade.

As empresas estão cada vez mais investindo em Pesquisa e Desenvolvimento e olhando para os retornos da inovação. Esse é um sinal de que o ócio criativo está ganhando espaço?

As empresas são um paradoxo. Elas produzem produtos novos, mas organizam seus funcionários de maneira antiga. As organizações produzem produtos pós-industrial, como informática, mas os funcionários trabalham de forma industrial, como em uma cadeia de montagem onde tudo é feito sobre pressão dos preços sem se preocupar com a estética. Elas são pós-industrial na fabricação do produto e industriais na organização dos funcionários.

Na sua opinião o ócio do trabalho já é um protagonista no Brasil?

Ele ainda não virou o protagonista. É seguro que isso vai acontecer, mas por enquanto ainda é complicado. As produções das empresas são novas, mas ainda não ocorreu uma mudanças nas organizações. A cadeia de trabalho ainda bate ponto, já que o tempo é importante para a produção material. Mas isso é aplicado também para trabalhadores intelectuais. E para eles não tem o mesmo valor.

Quais são as barreiras para desenvolver o ócio criativo?

São duas as barreiras. Uma é o habito e outro é o poder. Quando se muda as organizações, mudam as pessoas que tem poder. Portanto as pessoas não querem mudar as empresas para não perderem o poder que elas têm. Todas as nossas sociedades, inclusive o Brasil, acabam tendo, em níveis alto, pessoas muitos velhas na gestão, bloqueando a entrada de lideranças mais jovens.

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