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Na campanha, Dilma Rousseff e José Serra não discutem o principal tema da agenda econômica global

Serra e Dilma: frente a frente, câmbio passa longe do debate
Agência Brasil
Serra e Dilma: frente a frente, câmbio passa longe do debate
Mundo afora, o tema do debate econômico do momento é o mesmo: a crescente onda de desvalorização do dólar e a consequente guerra cambial. O assunto foi pauta do último encontro de ministros do G20 – grupo das 20 maiores economias mundiais -, realizado no último fim de semana, e tem despertado diversos governos – inclusive, o brasileiro – a adotar medidas para segurar a valorização de suas moedas em relação à divisa norte-americana. Apesar do movimento global, o tema passou longe do debate entre os candidatos à Presidência da República, Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB).

O tema câmbio não esteve na pauta quando os candidatos estiveram frente a frente nos debates televisivos. Fora deles, umas poucas palavras sobre o tema eram dadas, quando Dilma e Serra eram questionados por jornalistas. Segundo fontes ligadas às campanhas dos presidenciáveis, o tema câmbio é assunto de governo, não de campanha política, por isso a ausência da questão no debate eleitoral.

Nas raras declarações públicas sobre o tema, os dois candidatos divergem sobre a condução do câmbio, mas prometem não mexer em um dos alicerces da atual política econômica: o câmbio flutuante, uma unanimidade em ambos os lados.

Serra: as críticas

Do lado tucano, o tom é de críticas assíduas. A equipe econômica da campanha é liderada diretamente por José Serra e conta com conselheiros como Gesner Oliveira, atual presidente da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), Geraldo Biasoto Jr., diretor executivo da Fundação do Desenvolvimento Administrativo (Fundap) do governo de São Paulo, e do economista José Roberto Afonso.

Em recente declaração à imprensa, José Serra prometeu grandes mudanças na política econômica, caso vença as eleições. Em contato com a reportagem do iG , um colaborador de campanha disse que a principal mudança com relação ao câmbio seria “uma coordenação das ações de governo em torno da moeda”.

“Hoje, temos o Banco Central não fazendo literalmente nada, e a Fazenda inventando mecanismos para tentar intervir, como o IOF, Fundo Soberano e a compra antecipada de títulos do Tesouro”, disse.

Na avaliação da campanha tucana, o Banco Central faz um papel “inativo” na questão cambial, deixando o “mercado definir a expectativa e se autoalimentar dela”. “O Banco Central faz a política mais passiva que se tem notícia na história”, diz o colaborador de José Serra.

O candidato tucano promete, segundo o colaborador, “fazer política no dia a dia”. “Vamos estar presentes na mesa de operações, comprando e vendendo dólar durante o dia e arbitrando no movimento do câmbio. O Banco Central vai definir a taxa com o mercado”, afirma.

Apesar do tom crítico, os tucanos defendem que a atuação do BC no mercado não fará com que o câmbio deixe de ser flutuante e descartam intervenções na moeda. “É lógico que o câmbio flutuante é uma peça crucial e eficiente”, diz. “Mas, o que não pode é não fazer política. A política econômica brasileira se resume à política de juros. O governo existe para governar e não para ficar olhando o que está acontecendo”, completa.

Dilma: contra a especulação

Do lado da candidata Dilma Rousseff, o debate sobre câmbio é mais ameno. Procurados pela reportagem do iG , os assessores econômicos da petista, liderados pelo deputado federal e ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci,  não responderam às solicitações de entrevistas. Publicamente, Dilma disse que as políticas monetária e cambial devem ser tratadas com prudência “para evitar tumulto”.

Na avaliação da petista, que lidera as pesquisas de intenção de voto na disputa do segundo turno, a questão do câmbio não é um problema estritamente brasileiro e está associada à crise profunda que enfrentam os países desenvolvidos, em especial, os Estados Unidos.

Ela defende que, para superar o problema, é preciso aumentar a competitividade da indústria, e reduzir o endividamento público.

Dilma Rousseff também apoia as recentes medidas anunciadas pelo governo, de aumentar o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) cobrado de investidores estrangeiros em aplicações de renda fixa (de 4% para 6%) e no mercado de derivativos (de 0,38% para 6%), para conter o movimento especulativo sobre a moeda.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, reconheceu que as medidas não são suficientes para conter toda a valorização do real em relação ao dólar, mas defende que a iniciativa do governo brasileiro minimiza o movimento, enquanto as principais lideranças mundiais discutem propostas globais para conter a desvalorização da moeda norte-americana.

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