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Com mais dinheiro no bolso, a baixa renda, que tem enormes lacunas no consumo de itens básicos, vai direto às compras, especialmente de alimentos, quando tem R$ 1 extra. Tanto é que o gasto com comida pesa 30% no Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) do IBGE, que mede a inflação das famílias mais pobres, com renda de até cinco mínimos.

Já no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) do IBGE, que apura o custo de vida das famílias com renda de até 40 salários mínimos, o desembolso com alimentação representa 22% do indicador.

"O consumo de bens das classes A e B é mais maduro", observa o economista chefe da LCA Consultores, Bráulio Borges. Isso significa que, quando há ganho de renda nos estratos mais abastados da população que já têm as necessidades básicas supridas, crescem os gastos com serviços. "Essa população viaja mais e come mais fora de casa", exemplifica.

Para o coordenador do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Marcelo Neri, os dados da LatinPanel são consistentes com os resultados da última pesquisa de estratificação das classes sociais no País feita pela FGV. Nos últimos 12 meses encerrados em julho deste ano, a parcela da população com renda mensal superior a 3,5 salários mínimos nas seis regiões metropolitanas cresceu mais no Nordeste do que no Sudeste, sendo mais forte o avanço nas periferias de Recife (PE) e Salvador (BA), em detrimento das capitais. "O Nordeste está melhor que o Sudeste e as periferias que as capitais", afirma Neri.

Ele destaca, porém, que esse avanço na escala social não é só resultado de programas de benefícios do governo. "A renda do trabalho também está crescendo no Nordeste", diz o economista da FGV. Entre 2003 e 2008, a renda do trabalho e a renda total no Nordeste aumentaram coincidentemente 7,3% ao ano, enquanto no mesmo período no País a renda como um todo aumentou 5,3% ao ano e a renda do trabalho, 5,1% ao ano. O fato de esse ganho de renda não ser apenas fruto de benefícios sociais, mas da renda do trabalho, dá sustentabilidade ao processo, observa Neri.

De olho na continuidade desse movimento de ascensão das classes D e E no mercado de consumo, o Walmart, o maior varejista do mundo e que atua no Brasil nas regiões Sul, Sudeste e Nordeste, concentrou neste ano os investimentos no Nordeste. Das cerca de 100 lojas abertas em 2009, a maior parte está localizada nessa região.

"A base da pirâmide social vive hoje um momento especial", afirma o vice-presidente executivo da rede no Brasil, Marcos Ambrosano. Segundo ele, o apetite de consumo das classes D e E não está restrito a alimentos. "Está crescendo expressivamente neste ano a venda de computadores nas lojas Todo Dia." A bandeira Todo Dia são lojas de desconto voltadas para a baixa renda.

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