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É a maior taxa dos últimos 24 anos, desde o Plano Cruzado. Investimentos disparam 21,8% para dar conta do consumo das famílias

O Brasil virou a página da crise financeira mundial com crescimento de 7,5% em 2010. Embalado pelo setor de serviços e pela recuperação da indústria, o Produto Interno Bruto (PIB) ficou longe da estagnação de 2009 e recuperou o ritmo perdido em setembro de 2008, quando o estouro da bolha imobiliária americana secou fontes de crédito e derrubou o consumo mundial de matérias-primas e produtos finais. A taxa é a maior dos últimos 24 anos - superando ligeiramente a do Plano Cruzado, em 1986, quando o PIB avançara 7,49%.

Os investimentos dispararam 21,8%, enquanto o consumo das famílias avançou 7% e os gastos do governo, 3,3%. Para dar conta da demanda aquecida, a indústria cresceu 10,1%, os serviços, responsáveis por mais de 60% do PIB, atingiram taxa de 5,4%. A agropecuária, por sua vez, avançou 6,5%. Com tamanho desempenho, a soma das riquezas produzidas no País chegou a R$ 3,6 trilhões no ano passado.

"Este resultado do PIB reflete o tamanho da demanda. É o 29º trimestre consecutivo de aumento no consumo das famílias", observa Roberto Olinto, coordenador de Contas Nacionais Trimestrais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

No quarto trimestre, o PIB cresceu 0,7% em relação ao terceiro. Em comparação ao mesmo período do ano passado, o avanço é de 5%. O IBGE divulga nesta manhã as Contas Nacionais Trimestrais do período de outubro a dezembro de 2010.

Evolução da economia do Brasil

Desempenho anual do Produto Interno Bruto

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Fonte: IBGE

Especialistas projetavam um crescimento da ordem de 7% no ano passado, podendo chegar a 7,5% segundo as projeções mais otimistas. As medidas do governo de estímulo ao consumo de bens duráveis e automóveis, aliadas ao aumento do salário mínimo e do emprego, levaram ao ritmo chinês que mostra o PIB. Tamanho aquecimento culminou em pressões inflacionárias que levaram o governo a aumentar os juros e a promover cortes no orçamento.

O PIB é cálculado sob duas óticas: da oferta e da demanda. Pelo lado de quem compra, o PIB é formado pelo consumo das famílias, por gastos do governo e pelos investimentos das empresas, medidos pela Formação Bruta de Capital Fixo. Nesta conta são acrescentadas as exportações e as importações são descontadas. A compra de bens e serviços no exterior, portanto, pesa negativamente no cálculo do PIB. Já pela ótica de quem vende, o PIB é composto pelos setores da indústria, agropecuária e de serviços.

Em 2010, as importações cresceram 36%, percentual maior que o aumento de 11,5% das vendas ao exterior. O resultado foi uma contribuição negativa do exterior. Sem considerar as transações com o resto do mundo, o Brasil teria um crescimento de 10,3% - que representa o salto da demanda interna. O impacto negativo do setor externo foi de 2,8 pontos percentuais, num resultado final de 7,5%.

Indústria extrativa lidera crescimento

A indústria extrativa liderou o crescimento da economia em 2010, com avanço de 15,7%. Composta basicamente pelos segmentos de minério de ferro e petróleo, a indústria extrativa foi beneficiada pela expansão da demanda por commodities no mundo. De acordo com o IBGE, a maior parte deste crescimento reflete as exportações de minério de ferro. A Vale produziu no ano passado cerca de 300 milhões de toneladas de minério de ferro. A Petrobras, por sua vez, extraiu por dia cerca de 2,1 milhões de barris de óleo no período.

A construção civil foi a segunda maior alta em 2010, com crescimento de 11,6% no ano passado. De acordo com o coordenador das Contas Nacionais, Roberto Olinto, a expansão foi impulsionada pelo aumento do crédito, de 31%. O emprego no setor, por sua vez, aumentou 5,8%. O comércio apresentou a terceira maior taxa (10,7%) do PIB, favorecido pela demanda aquecida das famílias. O consumo dos brasileiros voltou a crescer com mais força no final do ano, segundo mostra o detalhamento do PIB divulgado nesta quinta-feira. O gasto das famílias cresceu 2,5% entre o terceiro e quarto trimestre. No ano, a demanda avançou 7%.

Também na faixa de dois dígitos, o crescimento dos serviços de intermediação financeira foi um dos destaques do PIB em 2010. Motivado pelo crédito e outras atividades bancárias, o segmento cresceu 10,7%. Todos os subsetores investigados pelo IBGE cresceram no ano passado.

Na década, média anual do PIB é maior desde os anos 70

A média anual do crescimento econômico na década passada é a maior desde os anos 70, quando o Brasil vivia os tempos de Milagre Ecônomico. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o País cresceu 3,6% ao ano de 2001 a 2010. Nos anos 90, a taxa era de 2,6%. E na década de 80, o PIB aumentou 1,7% anualmente. Na década de 70, o Brasil crescia 8,7% anualmente, acima da taxa anual de 6,2% verificada nos anos 60 e dos 7,4% praticada entre 1951 e 1960.

O avanço da renda per capita praticamente dobrou nas duas últimas décadas. O crescimento de 1,1% ao ano nos anos 90 deu lugar ao salto de 2,4% ao ano de 2001 a 2010.

Brasil perde apenas para China e Índia

O crescimento de 7,5% da economia brasileira em 2010 só perde para China e Índia, segundo ranking apresentado pelo IBGE com base em dados do Fundo Monetário Internacional (FMI). Os chineses elevaram em 10,3% o PIB, e os indianos, em 8,6%. De acordo com IBGE, a economia mundial cresceu em média 5% no ano passado. O desempenho do PIB brasileiro superou o da Noruega (6,1%), México (5,5%), Japão (3,9%), Rússia (3,8%), Alemanha (3,6%) e Estados Unidos (2,9%), entre outros. A União Européia avançou 1,7% no período, enquanto Espanha e Grécia reduziram o PIB em 0,1% e 4,5%.

O IBGE pondera que o PIB per capita do Brasil é bem maior que a da China e da Índia. Em 2009, a renda por habitante no Brasil chegou a US$ 10,1 mil, enquanto entre chineses e indianos, o valor é de US$ 6,6 mil e 3,1 mil.