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Novo plano, que eleva teto da dívida em pelo menos US$ 2,1 trilhões, deve entrar em votação hoje na Câmara dos Deputados

O governo brasileiro reagiu com cautela ao anúncio de que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, chegou a um acordo com o Congresso para a renovação do teto da dívida norte-americana.

Fontes da equipe econômica afirmaram que o plano em construção em Washington não afasta preocupações de mais longo prazo com a questão do endividamento dos EUA e que seu efeito sobre a economia real, e sobre o Brasil, ainda é incerto.

"O tipo de acordo que temos ainda deixa muita margem (de dúvida) do que vai acontecer", disse Cozendey a jornalistas ao chegar ao Ministério da Fazenda. "Ele afasta incertezas de curto prazo, mas não resolve definitivamente o problema de sustentabilidade de longo prazo da dívida. Portanto, o debate político vai continuar."

Uma outra fonte do governo destacou que o cenário de crescimento dos Estados Unidos segue envolto em dúvida.

"O mundo não acabou, mas os desafios são grandes. O mundo já estava pisando em ovos mesmo não acreditando em default (dos Estados Unidos), mas ainda há incertezas sobre a recuperação (norte-americana), além da economia na Europa", afirmou a fonte à Reuters, sob a condição de anonimato.

Obama anunciou no domingo à noite ter chegado a um entendimento com lideranças republicanas e democratas no Congresso para a elevação do teto da dívida, o que evitaria que a maior economia do mundo decretasse calote de suas obrigações.

Alexandre Tombini
AE
Alexandre Tombini
O acordo, que precisa ser aprovado pelos parlamentares até terça-feira, permitiria a Obama elevar o teto da dívida em pelo menos US$ 2,1 trilhões em três passos. Ele prevê, ainda, cortes de cerca de US$ 2,4 trilhões em 10 anos, que seriam aprovados pelo Congresso em duas etapas - um corte inicial de US$ 917 bilhões na aprovação do acordo e mais US$ 1,4 trilhão até o final do ano.

Em rápida entrevista à Reuters, o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini , afirmou que seria "catastrófico" para o Brasil e para o mundo se os Estados Unidos eventualmente entrassem em default.

"Mas acredito que eles (norte-americanos) terão juízo e vão votar esse acordo porque os reflexos de um calote serão catastróficos não só para o Brasil e para o mundo, mas principalmente para eles próprios", afirmou.

Questionado sobre o efeito do acordo sobre o real, Tombini afirmou que "são muitas as pressões que se exercem sobre a moeda brasileira".

Rebaixamento

Cozendey afirmou que a economia brasileira pode ser afetada em duas frentes pela questão norte-americana --de um lado, por um eventual rebaixamento inédito da nota de risco concedida por agências de classificação à dívida dos Estados Unidos e, de outro, pelos impactos sobre a economia real.

O Brasil tem US$ 211,4 bilhões aplicados em Treasuries, segundo dados de maio do governo norte-americano.

Um técnico da equipe econômica pondera que um rebaixamento da meta não tende a tirar o brilho dos títulos norte-americanos para os investidores, já que, mesmo com uma nota menor, eles tendem a permanecer como os papéis mais bem avaliados do mercado global.

O fato de o prazo das aplicações brasileiras ser relativamente baixo também protege as reservas, já que os papéis de mais curto prazo são menos suscetíveis a volatilidades do mercado, afirmou a fonte.

O BC não divulga dados detalhados sobre o prazo aplicações das reservas. Relatório relativo a 2009, último dados disponível, mostra que, no final daquele ano, o prazo médio dos investimentos totais das reservas era de 1,63 ano.

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