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BASILÉIA - O Banco Central vai operacionalizar este mês os leilões de reservas internacionais de até US$ 20 bilhões destinados à rolagem de dívida de empresas no exterior. O presidente do BC, Henrique Meirelles, descreveu ontem a outros banqueiros centrais o que está pensando em fazer, durante debate no Banco de Compensações Internacionais (BIS) sobre o uso das reservas internacionais pelas economias emergentes.

As linhas de crédito com as reservas devem cobrir a rolagem de empréstimos vencidos no exterior no final de 2008 ou que vencem durante 2009. Os bancos poderão ter o depósito de reservas de 12 meses, com garantia do contrato que vai fazer com a companhia brasileira.

Isso ocorre porque o crédito secou para as companhias no mercado internacional e elas tiveram que recorrer ao mercado doméstico. A expectativa da autoridade monetária é de que a realização dos leilões de linhas de crédito com as reservas internacionais possa ajudar a preservar o crédito no mercado interno e baixar seu custo. Um participante da reunião no BIS, na Basiléia (Suíça), contou que o modelo brasileiro foi bem-recebido e que outros bancos centrais vão estudar sua adoção.

As companhias brasileiras têm dividas de US$ 27,6 bilhões com vencimento este ano no exterior, pelas projeções da agência de classificação de risco Fitch, um pouco acima do potencial dos leilões previstos pelo BC. São US$ 2,5 bilhões de bônus e US$ 25 bilhões de empréstimos bancários com vencimentos em 2009, representando o sexto maior volume entre os emergentes, depois da Rússia, Taiwan, México, Coréia e Turquia.

O volume de dívida privada com vencimento este ano representava 13,3% do total das reservas internacionais oficiais do país em novembro. A Fitch calcula que na América Latina a deterioração das contas correntes, menor fluxo de capital e intervenção no mercado de câmbio reduzirão as reservas internacionais oficiais da região para US$ 400 bilhões, comparado a US$ 465 bilhões em 2008.

Para a economista-chefe de mercados emergentes do Deutsche Bank, Maria Laura Lanzeni, a crise e a concorrência das grandes empresas internacionais com bom grau de investimento aumentam a dificuldade para os emergentes rolarem suas dívidas, embora ela veja "alguns sinais encorajadores, como colocação de bônus soberanos recentemente". Os bônus soberanos representam, porém, uma fatia pequena do financiamento para as economias em desenvolvimento. O México, Brasil, Turquia, Filipinas e Colômbia voltaram ao mercado com títulos soberanos nas ultimas semanas.

A pressão por refinanciamento pelas empresas será forte globalmente. As companhias européias têm um volume recorde de US$ 800 bilhões para rolar em 2009, o maior valor em décadas. Desse montante, US$ 600 bilhões são débitos de empresas financeiras, segundo a agência Standard & Poor's. Nos Estados Unidos, as companhias têm US$ 500 bilhões para refinanciar de dívidas que vencem num cenário de extrema aversão ao risco.

As economias emergentes como grupo precisarão refinanciar US$ 300 bilhões, encabeçadas pela Rússia, com mais de US$ 50 bilhões. Na América Latina, além do Brasil, tem o México com US$ 32,2 bilhões e o Chile com US$ 5,9 bilhões. A Fitch estima que o cenário de refinanciamento para os emergentes é de "risco significativo". Recentemente, empresa com classificação de crédito "A", como o construtor automotivo Daimler, pagou até 20% mais do que há três anos para refinanciar débitos.

Analistas em Zurique ressalvam que algumas grandes companhias importantes de países como o Brasil e México em todo caso conseguirão levantar recursos, embora com custo bem maior. "As economias emergentes mais sólidas, com grau de investimento e bons históricos de créditos, mesmo com fundamentos fragilizados com a crise, ainda continuam atrativas para os investidores tradicionais nesses mercados", diz um analista.

A escassez de fundos aumenta os riscos de calote, com o fluxo de caixa de companhias fragilizado pela recessão. A agência Moody ? s projeta que nos EUA o calote sobre bônus de empresas com grau especulativo pulará de 4,6% em dezembro de 2008 para 11,4% até o final deste ano. Será praticamente impossível empresas com grau especulativo ou "junk" (de alto risco e nem classificados) se refinanciarem, estimam analistas.

(Assis Moreira | Valor Econômico)

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