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Vice-presidente de internacionalização do Banco do Brasil afirma ter revisado foco para crescer no varejo da América Latina

Paulo Caffarelli, vice-presidente da área internacional do Banco do Brasil: aquisições estão no horizonte para competir com Itaú e Bradesco
Tricia Vieira / Fotoarena
Paulo Caffarelli, vice-presidente da área internacional do Banco do Brasil: aquisições estão no horizonte para competir com Itaú e Bradesco
Há apenas três meses como vice-presidente da área internacional do Banco do Brasil, Paulo Rogério Caffarelli diz ter avançado na revisão no plano estratégico do BB para acompanhar o passo dos concorrentes brasileiros Bradesco e Itaú pela América Latina. “O BB quer ser um banco de atuação internacional, mas não temos condições de abraçar o mundo”, afirma o executivo em entrevista ao iG . “Obviamente se surgir oportunidade de [comprar] um banco global vamos analisar. Mas enquanto isso não acontece, nossa prioridade número um é a atuação na América Latina”, diz.

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O foco regional passa, segundo o executivo com quase 31 anos de BB, por uma mudança no perfil da internacionalização. A meta agora é não apenas acompanhar brasileiros e empresas nacionais com passaporte carimbado, mas entrar em mercados para ter base externa capaz de competir em preço de serviços com bancos estrangeiros presentes no Brasil.

“Ficarmos só no Brasil pode ser cômodo nesse momento, mas no futuro podemos ter dificuldade de preço de competitividade com bancos internacionais que venham com escala melhor que a nossa”, avalia o vice-presidente. “É quase que uma obrigação do BB ser um banco com atuação no exterior”, afirma Caffarelli.

Mas enquanto a Europa em crise fica distante no retrovisor de internacionalização do BB, África e membros dos Brics (grupo de economias emergentes formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul)  aproximam-se do banco estatal. “Não tenho dúvida que o BB, com toda a sua experiência no desenvolvimento do varejo brasileiro, pode ser um grande player no desenvolvimento dos países africanos”, diz Caffarelli na entrevista ao iG .

iG: O senhor completa três meses como vice-presidente de atacado, negócios Internacionais e private bank do BB , acumulando agora a área de mercado de capitais. Qual tem sido o trabalho feito para pensar a estratégia internacional do banco?

Paulo Rogério Caffarelli: A concepção da minha vice-presidência é diferente da anterior, porque acoplamos a área de mercado de capitais. Estamos fazendo uma adaptação que nos iguala ao que a concorrência trabalha hoje, aproximando mercado de capitais tanto da área de atacado quanto de mercados internacionais. É muito melhor ter uma solução de large corporate não só tradicional [para administrar a conta de grandes clientes corporativos], mas também de mercado de capitais no momento atual [de instabilidade financeira internacional]. Se não tomarmos um cuidado adequado, em determinado momento pode haver uma concorrência entre as operações de atacado com a de capitais ou internacional. O que estamos fazendo é criar uma maior sinergia. O banco se adequou a uma realidade que todo mundo pratica.

iG: Essa adequação ao modelo privado passa por crescimento com aquisições no exterior?

Caffarelli: Devemos ter o devido cuidado de saber exatamente aonde queremos chegar. Há várias opções de ter uma atuação no exterior, mas se não tivermos cuidado corremos o risco de ficar refém das oportunidades sem focar a questão da estratégia. O Banco do Brasil quer ser um banco de atuação internacional, mas não temos condições de abraçar o mundo. Obviamente, se surgir oportunidade de um banco global [à venda] vamos analisar. Mas enquanto isso não acontece, nossa prioridade número um é a atuação na América Latina. Notadamente Colômbia, Chile, Peru, Argentina, Paraguai e Uruguai. Além de um movimento bastante arrojado nos Estados Unidos para atuarmos no varejo americano. O BB é o primeiro banco público a ter autorização para atuar nos EUA. A autoridade americana nunca havia autorizado um banco público de outro país a se instalar lá.

iG: Isso ocorreu com a compra do Eurobank em 2011 por US$ 6 milhões, o que deu capilaridade para o BB numa região com muitos brasileiros, Miami. Quais os passos para ampliar presença nos EUA?

Caffarelli: Estamos fazendo uma adequação do banco a produtos na área de varejo para a comunidade brasileira nos Estados Unidos. Estamos falando de 1,5 milhão de pessoas. O Eurobank foi comprado com o objetivo de atender os brasileiros nesse primeiro momento e, numa segunda etapa, a comunidade latino-americana em geral. Até 2017, vamos abrir 15 agências nos Estados Unidos.

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iG: O mercado avalia a compra do argentino Banco da Patagônia como passo importante para consolidar presença externa e acompanhar Bradesco e Itaú na América do Sul. Quais os próximos passos para a região?

Caffarelli: O Banco do Brasil está escolhendo países onde quer ter atuação na economia local. A Argentina é um grande exemplo, mas tem Colômbia, Peru, Chile, Uruguai e Paraguai. Queremos ter um banco com as mesmas ferramentas dos concorrentes de lá, tanto para os clientes locais como os do Brasil, especialmente as empresas.

iG: Interessa mais ir com a marca BB ou comprar alguém nesses países?

Caffarelli: Temos de estruturar uma operação que nos dê as mesmas condições que nossos concorrentes. Isso pode ser por meio de aquisições como por crescimento orgânico. Mas é importante respeitar o manager [líder] local. A questão do nome do banco é uma consequência. Veja que hoje na Argentina, com o Banco da Patagônia, faz sentido manter o nome por uma questão de identificação dos clientes.

iG: O foco então deixa de ser apenas os brasileiros no exterior para brigar por fatias de mercados locais?

Caffarelli: O que leva o BB a atuar lá fora são alguns fatores, como dar um suporte para clientes brasileiros que atuam no exterior, dentro do processo de globalização. Ter sinergia com a presença de brasileiros em mercados locais, como EUA, Japão e outros. Mas é preciso também ter escala de operação internacional para fazer uma proteção de competitividade no mercado interno [no Brasil]. Ficarmos só no Brasil pode ser cômodo nesse momento, mas no futuro podemos ter dificuldade de preço de competitividade com bancos internacionais que venham operar no Brasil com escala melhor que a nossa. É quase que uma obrigação do BB ser um banco com atuação no exterior. O importante é definir como o BB quer atuar nesses países e ver qual potencial de bancos vendedores [para aquisição] se encaixa nessa estratégia.

iG: Uma presença internacional mais consistente é estratégica para compensar as reduções nas taxas de juros aqui no Brasil?

Caffarelli: Não. Se pensássemos só em nível de taxa de juros estar no Brasil permitiria a prática de taxa melhor que em alguns países. Só com isso ficaríamos apenas no Brasil tocando a vida por aqui. O importante é ter escala em nível internacional para ter volume, de maneira que na hora de competir internamente [no Brasil] com bancos internacionais você possa praticar o mesmo tipo de precificação [nos serviços] que eles no mercado externo. Se fosse pensar numa atitude imediatista seria muito mais fácil ficar e concentrar os esforços aqui. Mas isso não traz para nós uma condição de competitividade no futuro melhor do que se avançarmos lá fora e, acima de tudo, tendo soluções para nossos clientes no exterior.

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iG: Há uma liquidação de empresas na Europa, incluindo bancos. Há interesse?

Caffarelli: Tudo depende de oportunidade. Como o BB tem por objetivo a internacionalização, havendo oportunidade vamos analisar.

iG: Como foi o flerte com o mercado africano, tendo como possíveis sócios o Bradesco e o português Espírito Santo?

Caffarelli: É estratégico atuar na África. Estamos vendo alguma parceria lá, mas não confirmamos avanço de negociações com nenhum banco neste momento. Lá atrás fizemos um protocolo com Bradesco e BES [Banco Espírito Santo], mas o Bradesco resolveu suspender o encaminhamento [do negócio]. Nosso radar continua a considerar uma participação na África. Mas dentro de um propósito de planejamento e estratégia desenvolvida. Exatamente neste momento estamos vendo as alternativas que temos.

iG: Quais alternativas para o mercado africano são essas?

Caffarelli: A África é um investimento de médio e longo prazo. Mas não tenho dúvida que o BB, com toda a sua experiência no desenvolvimento do varejo brasileiro, pode ser um grande player no desenvolvimento dos países africanos. Estamos falando inicialmente em países de língua portuguesa [Angola e Moçambique].

iG: A presidenta Dilma Rousseff voltou da Índia neste fim de semana, após sugerir a criação de um banco de investimentos para os Brics. Interessa ao BB intensificar a relação financeira entre os membros do bloco de países emergentes?

Caffarelli: Não tenha dúvida. Isso é uma consequência de quando o governo brasileiro fala nesse sentido. O Brasil é um potencial parceiro no processo de desenvolvimento [emergente] e certamente o BB como um banco grande e com atuação no mercado internacional pode ser um parceiro também.

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