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Copom eleva a Selic a 12% ao ano em decisão dividida; Brasil segue no topo de maior pagador de juros

Em meio a pressões por parte do governo e do mercado, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central anunciou nesta quarta-feira a alta de 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros – a Selic – da economia brasileira. Com isso, os juros chegam a 12% ao ano. Foi a terceira alta consecutiva da taxa de juros com o BC sob o comando de Alexandre Tombini. Nas duas reuniões anteriores, a Selic havia sido elevada em 0,5 ponto percentual.

Em comunicado divulgado após o encontro, que começou na terça-feira, a autoridade monetária confirmou que a decisão não foi unânime e deu indícios de que novas altas de juros podem acontecer. "Dando seguimento ao processo de ajuste das condições monetárias, o Copom decidiu elevar a taxa Selic para 12,00% ao ano, sem viés, por cinco votos a favor e dois votos pelo aumento da taxa Selic em 0,50 ponto percentual."

O movimento da Selic

Acompanhe a variação da taxa básica de juros nos últimos 12 meses

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Fonte: Banco Central


A autoridade monetária disse, ainda, que "considerando o balanço de riscos para a inflação, o ritmo ainda incerto de moderação da atividade doméstica, bem como a complexidade que ora envolve o ambiente internacional, o Comitê entende que, neste momento, a implementação de ajustes das condições monetárias por um período suficientemente prolongado é a estratégia mais adequada para garantir a convergência da inflação para a meta em 2012".

Para o Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco, a decisão do Copom está baseada em indícios de moderação no ritmo de expansão da atividade econômica e da contribuição da apreciação cambial superior à observada.

O Bradesco pondera, ainda, que as medidas macroprudenciais - adotadas para conter o crédito e a entrada de capitais estrangeiros - ainda não começaram a surtir efeito. Os economistas do banco acreditam em nova elevação de 0,25 ponto na taxa na próxima reunião, marcada para junho.

A LCA Consultores, por sua vez, projetava alta de 0,5 ponto percentual na Selic, mas disse que a decisão "não surpreendeu", já que "a autoridade vinha adotando um discurso mais moderado nos seus mais recentes documentos de política monetária".

A consultoria espera que o aperto monetário seja prolongado - por meio de uma nova alta de 0,25 ponto na próxima reunião - provavelmente mantendo a política de mesclar a elevação do juro primário com ações macroprudenciais adicionais.

Já o economista-sênior do Banco Espírito Santo, Flávio Serrano, acredita que a Selic permanecerá estável, até, pelo menos, o fim do primeiro semestre de 2012. “Provavelmente, este será o último movimento do Banco Central”, disse.

Ele pondera, no entanto, que o cenário não contempla um novo choque de commodities no mercado internacional. “Caso isso venha a acontecer, o BC provavelmente seria obrigado a subir novamente a taxa de juros”, completou.

A economista-chefe da Rosenberg & Associados, Thaís Zara, aponta que são pequenas as evidências de desaceleração da atividade econômica compatível com o necessário para trazer a inflação para baixo. “Ainda vejo como necessárias mais medidas para esfriamento da economia, que poderiam ser tanto decisões mais fortes de contenção do crescimento do crédito como altas de juros.”

Ela diz, ainda, que uma ajuda no campo fiscal, com contração mais forte no crescimento das despesas, também “seria bem-vinda”.

"No fundo, o comunicado tenta apaziguar possíveis reflexos negativos que uma redução no ritmo de alta da Selic poderia ter sobre as expectativas de inflação, já bastante deterioradas", disse Thaís. "De qualquer forma, fica para a ata o detalhamento da estratégia do Copom", completou.

O analista internacional da Cruzeiro do Sul Corretora, Jason Vieira, diz que o “instrumento monetário no Brasil está sendo mal utilizado”. Ele acredita que movimentos como a alta de juros precisam ser acompanhados de contrapartidas, como o ajuste fiscal.

“O BC deveria usar os juros de maneira mais ponderada para não pecar pelo excesso. É preciso entender, no curto prazo, quais instrumentos adotados têm surtido efeito”, completou.

Juros mais altos do mundo

Com a decisão do Banco Central desta quarta-feira, o Brasil se manteve no topo da lista dos maiores juros reais do mundo. Levantamento realizado por Vieira comparando a taxa real praticada em 40 países – descontadas as projeções de inflação para os próximos 12 meses – apontou que o Brasil é, disparado, o maior pagador de juros do mundo.

O País tem taxa de juros reais de 6,2%, bastante acima dos 2,2% da Turquia, segunda colocada no ranking. Em seguida, aparece a Austrália, com 2%.

Para o Brasil deixar o topo da lista, projeta Jason Vieira, o Copom deveria promover um corte de, pelo menos, 5 pontos percentuais na taxa Selic, cenário improvável enquanto perdurarem as pressões inflacionárias no País e as incertezas nos mercados externos.

Credibilidade

A decisão do Copom desta quarta-feira é anunciada em um momento em que a credibilidade do Banco Central é questionada. A autoridade monetária chegou a ter a atuação classificada como tolerante – e, por vezes, até leniente – com a inflação.

“A comunicação do BC com o mercado não é das melhores”, diz uma economista que prefere não se identificar. “A cada declaração do presidente (Alexandre Tombini), o mercado muda as expectativas.”

As críticas com relação à comunicação da autoridade monetária é atribuída por críticos a ruídos” vindos de outros órgãos do governo, principalmente, do Ministério da Fazenda.

“O Banco Central precisa ter autonomia operacional. Dentro do contexto do regime de metas de inflação, a política monetária tem de ser falada pelo Banco Central, sem ruídos de outros órgãos do governo”, afirmou o ex-presidente da autoridade Monetária Gustavo Loyola, em evento realizado na semana passada, em São Paulo.

O economista cobrou um alinhamento de objetivos entre Banco Central e Fazenda. “Não adianta o BC querer controlar a inflação, se a Fazenda não acredita nesse objetivo.”

Os juros reais mais altos do mundo

Brasil se isola na liderança das maiores taxas

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Fonte: Cruzeiro do Sul Corretora