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Muito se fala no meio executivo em galgar degraus e subir na carreira. O que, em tempos passados, se conhecia como promoção por tempo de serviço foi trocado atualmente pela promoção por resultados, e cada vez mais os profissionais se esforçam para ser sempre melhores e um dia ocupar um posto de maior responsabilidade dentro das empresas.

O aumento da competitividade interna, no entanto, mudou algumas relações de trabalho. Para as gerações mais novas - e em especial para os profissionais nas casas dos 25-35 anos, conhecidos como "geração Y" -, o "chefe" tornou-se o ocupante de uma cadeira a ser conquistada o mais rapidamente possível. "Não há um estudo científico que mostre isso, mas é o que se vê nas corporações", diz o jornalista Ricardo Galuppo. "Porém, essa sede de tomar o lugar do seu superior acaba embotando a visão de muitas pessoas, que deixam de ver que à sua frente está uma oportunidade de aprender com essa pessoa."

A experiência em fazer reportagens na área econômica, vivendo próximo ao dia-a-dia das empresas, levou Galuppo a escrever um livro que destaca exatamente esse outro aspecto da relação chefe-funcionário: o aprendizado. Aprendi com meu Chefe (editora Saraiva, 232 páginas), reúne uma série de relatos, coletados por Galuppo, de profissionais reconhecidos em suas áreas de atuação (indústria, finanças, política, esporte) falando sobre os conhecimentos que adquiriram com a convivência com seus superiores. Entre eles, Alcides Tápias, que fala de Amador Aguiar, do Bradesco, Washington Olivetto, que relembra a influência do publicitário Sérgio Graciotti, e o treinador do São Paulo, Muricy Ramalho, que fala da convivência com o técnico Telê Santana.

"Não existe um padrão no que essas pessoas aprenderam, assim como não existe um chefe perfeito", diz Galuppo. "Mas sempre é possível aprender algo, e isso é reconhecível na atuação desses profissionais."

Ele cita como exemplo a entrada agressiva da operadora de telefonia Oi em São Paulo. "Nesse caso, é visível a influência que o comandante Rolim Amaro teve sobre Luiz Eduardo Falco, que começou como estagiário na TAM e lá ficou por 20 anos, antes de se tornar presidente da Oi."

Alguns depoimentos reúnem detalhes bastante curiosos. Alcides Tápias, ex-ministro do Desenvolvimento do governo Fernando Henrique Cardoso e ex-diretor do Bradesco, conta que toda vez que alguém sugeria a Amador Aguiar, presidente do banco, abrir uma nova agência em São Paulo, Aguiar entrava no helicóptero e sobrevoava a área citada.

"Se ele visse telhados novos pelo bairro, mandava construir a agência. Porque telhado novo era sinal de reforma, e reforma é sinal de dinheiro na região", conta Tápias no livro. "E a agência tinha de ficar num lugar que fizesse sombra, porque as pessoas evitam o lado ensolarado das calçadas. Em resumo, ele sabia avaliar as coisas de maneira muito prática, e passava isso para todos que com ele trabalhavam."

Para Carlos Guilherme Nosé, diretor da Fesa, consultoria especializada na seleção de altos executivos, a relação entre os cargos de comando e seus subordinados realmente mudou com o passar do tempo, mas há um lado positivo nessa mudança. "Trocou-se a obediência pura pelo respeito. Tornam-se os verdadeiros líderes aqueles chefes comprometidos com sua equipe, que nela confiam e delegam corretamente as tarefas", diz.

Nas buscas que faz pelos futuros líderes das empresas, Nosé recebe sempre o mesmo pedido: além da competência técnica, as empresas querem alguém que saiba gerir pessoas e fazer aflorar o melhor de cada um. "Algumas pessoas fazem isso muito bem, e são esses os bons chefes."

Galuppo, no entanto, diz que não há chefe tão ruim que não se possa aprender nada com ele. "Pelo menos, você pode aprender como não agir." E que sempre haverá a disputa pela ascensão. "A única geração mais bem preparada que essa é a próxima."

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