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Período de estagflação nos EUA nos anos 1970 e a ruína do hiperplanejamento estatal soviético nos anos 1980 puseram fim ao convencionalismo keynesiano

Hoje, 21 de dezembro, é o dia do fim do mundo no calendário maia. Figurativamente, a tese sobre o fim do mundo pode ser rica de significado e ensinamento. O homem precisa ser constantemente lembrado de que se parece com Deus, porém continua atado à finitude. Tudo que nasce, morre. E não poderia ser diferente com as teorias científicas, que não morrem mas se transformam, vão perdendo as bases originais de sua operacionalidade, para virar apenas uma referência no quadro geral do pensamento humano, como as ruínas admiráveis e inabitadas de civilizações passadas.

Alguns desses ciclos vitais são mais breves do que outros. Na economia, por exemplo, o keynesianismo, corrente importante do século 20, ancorada na “Teoria Geral do Emprego” (1936) do inglês John Maynard Keynes, nasceu como explicação imaginativa aos esforços de superação da Grande Depressão iniciada em 1929, defendendo a superioridade da política fiscal ativa e contracíclica — ou seja, corajosos gastos de governo, mesmo que fortemente deficitários — criando empregos e, portanto, mais renda salarial, para encorajar a retomada dos investimentos privados numa séria recessão. Esta teoria emergiu vitoriosa do segundo pós-guerra e se tornou convencional até os anos 70. Todos estudavam Keynes e pregavam sua verdade. A partir daí, a tese do “governo grande e interferente”, mesmo operando no sistema de mercado, com que o Ocidente democrático tentava contrapor a proposta de um governo maior ainda, tese do socialismo praticado na outra metade do mundo, foi começando a perder seu caráter de obviedade acadêmica. Começou a ser ouvida a crítica liberal conduzida solitariamente por algumas escolas do fim do mundo keynesiano, como a austríaca (Mises, Hayek) e de Chicago (Knight, Friedman, Stigler, Schultz). O período de estagflação nos EUA nos anos 1970 e a ruína do hiperplanejamento estatal soviético nos anos 1980 puseram fim ao convencionalismo keynesiano do apelo aos déficits fiscais como remédio genérico para saída de recessões. O mundo passou a confiar mais nos poderes autorreguladores dos mercados livres. Redescobriu-se as virtudes sociais do talento empreendedor schumpeteriano, por trás do lucro vil, tão condenado na contra-proposta estatizante do socialismo.

Keynes andava aposentado, mas vivo. E ressurgiu com toda força nos EUA e na Europa como resposta ao colapso, em 2008, do castelo de créditos fáceis e mega-alavancados que se havia erigido por conta da suposta garantia de “livre funcionamento dos mercados”. Curiosamente, a corrente “anti-keynesiana” liderada pelo ex-presidente do Fed, Alan Greenspan, nunca passou de réplica do keynesianismo, transposto pela mão interferente do gestor público, com a diferença de ser conduzida, no campo monetário, por injeções maciças de liquidez, idêntico mutatis mutandis ao suposto efeito anabolizante sobre economias debilitadas, antes defendida por Keynes, com seus orçamentos fiscais deficitários. Keynes voltou a ser empregado como remédio, e suas teorias badaladas por Krugman, Summers e outros. Passados cinco anos, porém, o endividamento galopante do governo americano, a estagnação da renda salarial e a queda do emprego revelam o fracasso final da fórmula keynesiana/greenspaniana/bernankiana.

(*Presidente do conselho de economia da Fecomercio e do Lide Economia)

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