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A recente fusão entre Amil e Medial tem gerado discussões importantes sobre os planos de saúde privados. Na mira está, antes de tudo, a concentração do setor.

A este respeito cabem algumas explicações.

Em primeiro lugar, é preciso se ter claro que, nos países onde existe a saúde privada, o mercado tem um desenho parecido com o que vai se consolidando no Brasil, isto é, poucas grandes operadoras com abrangência nacional, ou forte participação no mercado, e um número maior de operadoras pequenas, com atuação regional ou focadas em nichos específicos.

O problema brasileiro não é a concentração resultante da união da Amil com a Medial, mas o que acontece na outra ponta, onde as pequenas operadoras estão sendo inviabilizadas pela ação da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar), que as vai sufocando, em nome de garantias nem sempre pertinentes e que elas, pelo porte, não conseguem oferecer.

O negócio entre a Amil e a Medial não é uma ameaça ao sistema. Juntas, não terão 11% do mercado de planos de saúde privados, ou seja, não é por este lado que a fusão deve ser analisada. O que deve ser visto, e aí todo cuidado é pouco, são as condições econômicas e financeiras resultantes da unificação. Qual o grau de capitalização e quais as reservas destinadas a garantirem sua massa de clientes. De outro lado, vale lembrar que, neste tipo de operação, escala é indispensável para um determinado tipo de empresa que baseia seus serviços em produtos massificados e que este é o desenho de Amil e Medial.

Enquanto algumas empresas operam em campos específicos, outras atuam no geral, oferecendo planos destinados a todos os segmentos da população. O drama deste desenho é que, no Brasil, por conta da Lei dos Planos de Saúde, da demagogia governamental e de decisões do Judiciário, vários tipos de planos estão se mostrando inviáveis ou gerando distorções graves. É o caso dos planos individuais e familiares, além de vários planos ditos coletivos (no sentido usado para os planos empresariais), que, de verdade, não passam de planos individuais, oferecidos com foco num determinado universo de consumidores e que, por isso, ou custam mais barato ou oferecem algumas vantagens em prazos e padrões de atendimento.

A Lei dos Planos de Saúde Privados brasileira é muito ruim. Em função dela, a maioria das seguradoras não atua neste ramo e as que operam com saúde privada se afastaram dos planos de saúde individuais e familiares. A razão é simples: eles são deficitários para elas.

É aqui que as tipicidades das operadoras começam a fazer diferença. As operadoras de planos de saúde não têm o mesmo desenho e isto faz com que a estrutura de custos seja diferente entre elas. Nem poderia ser diferente, já que as seguradoras são sociedades anônimas, as Unimeds são cooperativas e as assistências médicas obrigatoriamente devem atuar com rede própria, independentemente da figura societária adotada.

Muito mais importante para a sociedade do que a fusão entre a Amil e a Medial é a quase que extinção das pequenas operadoras periféricas, com foco em comunidades específicas, para cujas necessidades seu desenho e estrutura de custos são mais que suficientes.

Elas atendem mais de 90% dos casos que são encaminhados para os hospitais a que estão ligadas. Doenças como sarampo, cirurgias de apendicite, braços quebrados, partos, etc., ficam a seu cargo, enquanto os procedimentos mais complexos são encaminhados para hospitais mais sofisticados. O resultado são planos muito baratos para a população, mas suficientes para manter os hospitais que os comercializam. Com sua inviabilização, estes hospitais devem fechar, já que não há como a remuneração do SUS pagar integralmente seus custos.

Enquanto este segmento não for tratado de forma profissional, levando em conta a realidade brasileira, não há como a conta fechar. E o que é pior, a tendência é todos ficarem insatisfeitos.

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