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O Conselho de Administração da Aracruz decidiu processar o ex-diretor financeiro da companhia, Izac Zagury, pelas perdas bilionárias com operações de derivativos. Ontem, o conselho convocou uma assembléia geral extraordinária dos acionistas para discutir o assunto, no dia 24 de novembro, na sede da empresa, em Aracruz, no Espírito Santo.

O processo contra Zagury tem implicações não só pessoais, como para o destino da Aracruz e da VCP (Votorantim Celulose e Papel), do Grupo Votorantim. As duas empresas haviam acertado uma fusão, quando vieram a público as perdas com derivativos, que chegaram a US$ 2,13 bilhões.

Ao jogar sobre Zagury a responsabilidade sobre as perdas, o processo abre uma brecha legal para que a VCP cancele a fusão com a Aracruz, sem ter de pagar uma multa de R$ 1 bilhão para a família Lorentzen, prevista no contrato da fusão. Os Lorentzen estão entre os principais acionistas da Aracruz e venderiam sua participação em meio à reestruturação societária das duas empresas.

A decisão de processar Zagury foi tomada depois que os controladores da Aracruz contrataram três escritórios de advocacia e uma empresa de investigações para analisar as perdas com derivativos.

Segundo pessoas ligadas às empresas, os investigadores descobriram que Zagury fez todas as operações em valores que estavam dentro dos limites de risco estabelecidos pelos controladores da empresa.

O problema, porém, não estaria no valor nominal das operações, mas em algumas cláusulas do contrato. Na prática, as operações eram uma forma de obter empréstimos baratos, assumindo, em contrapartida, o risco de ter de fazer grandes pagamentos caso a cotação do dólar subisse. A armadilha estava nos detalhes: cada vez que o dólar atingisse determinado patamar, era disparado um gatilho que multiplicava as perdas.

Ainda segundo pessoas ligadas às empresas, os investigadores analisaram e-mails enviados por Zagury a integrantes de sua equipe. Os e-mails revelariam como Zagury entrou em desespero ao perceber que o dólar havia disparado repentinamente. Ainda segundo as mesmas fontes, os e-mails mostram que os controladores da Aracruz não sabiam das operações. Procurado pelo Estado, Zagury não retornou as ligações da reportagem.

Caso os controladores consigam provar que não sabiam das operações, abre-se o caminho legal para o cancelamento da fusão. Antes da investigação, não seria possível cancelar a operação sem o pagamento da multa aos Lorentzen.

A razão é a seguinte: o Grupo Votorantim só poderia anular o contrato de fusão sem pagar a multa caso pudesse alegar que ocorreu um evento extraordinário, que ele não tinha conhecimento. Tecnicamente, trata-se de uma cláusula de MAC (mudanças materiais adversas, na sigla em inglês).

O problema é que o grupo também é um dos controladores da Aracruz e, em tese, não poderia alegar que não tinha conhecimentos das operações. Mas, se for provado que Zagury agiu sozinho, a VCP poderá recorrer à cláusula de MAC e anular o negócio, sem ônus.

O pagamento de R$ 2,7 bilhões aos Lorentzen por suas ações estava previsto para o dia 6 de outubro, mas foi suspenso. A fusão foi adiada, e não cancelada. Segundo pessoas ligadas às investigações, não há suspeita de desvio de recursos. Zagury teria agido sob pressão para obter resultados financeiros, apesar da cotação baixa do dólar à época.

A Aracruz é conhecida por ser inovadora e ousada nas finanças. Saíram de lá algumas estrelas do mercado financeiro, como o ex-presidente do BC Francisco Gros, o diretor-financeiro da CSN, Otávio Lazcano, e o vice-presidente financeiro da InBev, Felipe Dutra.

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