Tamanho do texto

A crise financeira internacional é tão rápida e violenta que os perdedores de ontem são os vencedores de hoje, diz Gustavo Marin, presidente do Citi no Brasil. Há um ano, o Citi era um dos mais fragilizados pelas perdas com as hipotecas de alto risco.

Desde então, vendeu ativos e viu concorrentes desaparecerem. Agora, quer comprar rivais enfraquecidos. "Wall Street sumiu", diz Marin, referindo-se aos bancos de investimentos, que não tinham depósitos e não eram regulados pelo BC americano. Marin deu a seguinte entrevista:
O sr. diz que sem o pacote americano haveria um desastre...

Se a cavalaria não tivesse entrado em ação ninguém sobreviveria. Um monte morria antes da gente (Citi), mas que o leão pegava, pegava. Existia pânico, desconfiança absoluta no sistema, em níveis nunca vistos. A economia como um todo ia pagar. Você viu o que aconteceu com os exportadores no Brasil, com a redução das linhas de crédito e o dólar a R$ 1,96? Ninguém ia fugir.

Qual o cenário agora?

Hoje, pelo menos, o pânico parou. Mas a situação ainda não voltou ao normal. O processo de desalavancagem (redução das dívidas) vai continuar. Só que de forma organizada. Nesse processo, a liquidez do mercado vai diminuir, o preço do dinheiro vai subir e os ativos serão reprecificados. Esse processo vai se estender ao longo de 2009. Agora vêm os reflexos sobre a economia real.

Quais serão esses efeitos?

Nossa estimativa é que o impacto na riqueza patrimonial do consumidor americano deve estar em torno de US$ 3 trilhões em relação ao que foi o pico. As famílias já começam a adiar a compra de bens. E as empresas que tinham plano de investir US$ 3 bilhões podem baixar para US$ 1 bilhão.

A recessão nos Estados Unidos será forte?

Não vai ser forte. Mas o ritmo de crescimento será menor.

Qual será o impacto no Brasil?

A chacoalhadada da semana passada serviu pra mostrar que ninguém está a salvo. O Brasil está em condições como nunca teve na sua história. Mas isso não significa ficar imune. O País ainda depende de poupança externa. Hoje, estimamos que o Brasil vai crescer 3,5% em 2009.

Seus clientes já estão falando em rever investimentos no Brasil?

Não digo que os projetos tenham sido engavetados, mas todo mundo está esperando para ver o que vai acontecer. Está todo mundo atordoado.

O crédito vai ficar mais caro e escasso?

Não sabemos por quanto tempo. No Citi, nos sentimos muito bem. O mundo está indo na direção do modelo de negócios que o Citi pregou e ninguém dava bola. O Fed (Banco Central dos EUA) deu permissão para que os últimos bancos de investimentos se convertessem em companhias bancárias. Ou seja, Wall Street sumiu. Fomos pioneiros nesse modelo de banco universal, quando juntamos o Smith Barney e o Citi. Na época, todo mundo riu. Diziam que tinha de maximizar valor e dividir investimentos, separar a área de cartões. Agora estão achando esse modelo uma beleza e querem ter depósito de pessoas físicas, que dêem garantia e estabilidade de fundos. Não quer dizer que não erramos. Erramos como qualquer um.

O fim dos bancos de investimentos é bom para o mercado?

Não sei se é melhor. O mercado está dizendo que não tem mais espaço para esse modelo. Não tem espaço para você ter estruturas de capital baseados com alavancagem de 25 vezes (emprestar 25 vezes o patrimônio). Em outros cenários você conseguia. Agora você não consegue porque ninguém mais te dá dinheiro.

Como os bancos entraram numa fria como essa?

Errou-se na administração e na concentração dos riscos. Os bancos também não olharam a somatória da indústria e o risco sistêmico. Todos cometeram o mesmo erro.

Houve falta de controle?

Agora virá uma onda regulatória. Tudo vai ser repensado.

Qual o impacto das perdas para o Citi?

No turbilhão da semana passada, ficou clara a importância do Citi como um dos principais operadores do sistema de pagamento dos EUA. As corporações transferiram dinheiro para nós. Houve filas nas agências em Nova York para depositar. Ficou evidente que muitos competidores estão enfraquecidos. Isso cria para nós uma grande oportunidade.

Mas o Citi perdeu bilhões com as hipotecas de alto risco...

Fomos os primeiros a perceber a dimensão da crise. Em novembro do ano passado começamos um programa de capitalização, com venda de ativos, que permitiu, quando ainda havia capital farto, levantar US$ 50 bilhões. Além disso, levantamos US$ 27 bilhões de dívida de longo prazo. Isso nos pôs numa situação muito boa para nos beneficiarmos do processo de consolidação. As oportunidades serão impressionantes. Alguém poderia imaginar que o Bank of America iria comprar o Merrill Lynch a preços muito razoáveis? Ou que o Lloyds ia ficar com o HBOs? Ninguém. Quem era ganhador seis meses atrás hoje não é mais ganhador. E quem sentia que estava perdendo, agora não sente mais. Sente-se ao contrário: Graças a Deus não comprei fulano. Graças a Deus não paguei esse preço porque agora estou livre.

O Citi pode fazer alguma grande aquisição, como a do ABN pelo Santander?

Sim. Mas pergunte ao pessoal que comprou o ABN se hoje eles pagariam US$ 100 bilhões pelo banco (risos). Não sei, pode ser que sim. As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.