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SÃO PAULO - Números piores do que o esperado para o Produto Interno Bruto (PIB) do quarto trimestre de 2008 podem convencer o Banco Central (BC) de que é o momento de reforçar o ajuste de baixa da taxa básica de juros na reunião de amanhã do Comitê de Política Monetária (Copom). A avaliação dos economistas é de que a forte retração da economia nos três meses finais de 2008, de 3,6% ante o terceiro trimestre, deve apontar ao Copom que a prioridade será olhar para a atividade neste momento e não para a taxa de inflação, que continua convergindo para a meta.

O destaque negativo mais preocupante dentre as componentes do PIB foi o da Indústria, que tombou 7,4% em relação aos três meses anteriores, bem mais do que Serviços (-0,4%) e Agropecuária (-0,5%). Foi a baixa mais drástica desde o quarto trimestre de 1996 (-7,9%). Flávio Serrano, economista-sênior do BES, destaca que a retração industrial foi generalizada entre os segmentos.

"Toda a economia enfraqueceu", diz, reforçando que pelo lado da demanda, o aumento do consumo do governo, de 0,5% do terceiro para o quarto trimestre, não compensou a queda de 9,8% na Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) e a baixa de 2% no consumo das famílias.

Serrano acredita que ainda é preciso ver como será o nível de recuperação no primeiro trimestre, que pode girar entre 0% e 0,5%, para ajustar a previsão do PIB para 2009, que poderia crescer entre 1% e 1,5%. "O primeiro trimestre é muito importante para definir a base para o resto do ano."

Já para a taxa Selic, o efeito do PIB deve ser imediato. Serrano avalia que o BC deve fazer um corte mais profundo amanhã, de 1,5 ponto percentual e não mais de 1 ponto percentual como vinha sendo aguardado por boa parte do mercado até sexta-feira. "O ajuste total do ciclo deve levar a Selic a 10% no final do ano", estima, já considerando a baixa de 1 ponto, para 12,75% ao ano, feita em janeiro.

Maurício Oreng, economista-sênior da Itaú Corretora, acredita que já havia espaço para uma redução mais significativa antes mesmo da divulgação do PIB e da produção industrial, na sexta-feira. "Não há melhora visível para 2009 e é preciso adotar o remédio o quanto antes. Para nós o índice antecedente mais importante no momento é o aperto do crédito, que continua acentuado, e a demanda externa fraca", explica Oreng.

Segundo ele, já deveria ser considerada inclusive uma baixa de 2 pontos percentuais no juro básico na reunião desta semana. Levando em conta os números de hoje, a corretora informou que espera queda de 0,3% no PIB do primeiro trimestre em relação ao mesmo período de 2008 e alta de 0,6% para o ano todo de 2009.

A atuação do BC estaria defasada também na visão de Pedro Paulo Silveira, economista-chefe da Gradual Corretora. Segundo ele, os dados do PIB mostram que o BC entregou a economia de bandeja nos últimos três meses em nome de um risco inflacionário que não se provou verdadeiro. Ao contrário, a queda da taxa de investimento mostraria, segundo ele, que a tendência da economia continua sendo de retração e que a solução para isso seria incentivar a atividade com juros menores.

Silveira manteve previsão de PIB negativo em 0,3% para este ano e acredita que é possível que o colegiado do Copom reforce o ajuste e corte a taxa de juros para 11,25% amanhã, com redução adicional de outro 1,5 ponto percentual na reunião de abril.

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