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SÃO PAULO - Sob o domínio das tesourarias compradas em taxa, o mercado futuro de juros da BM & F ignorou os sinais surgidos ontem de distensão inflacionária e puxou para cima as estimativas de CDI embutidas nos contratos. O mote para a puxada foi o de que a ata do Copom virá amanhã saturada de tintas sombrias para tornar econômica e moralmente justificável a reapertura do garrote monetário. Vitoriosas no último embate travado com os vendidos fundos estrangeiros, as tesourarias ampliam seu cacife. As suas posições compradas subiram de R$ 99,2 bilhões no dia do Copom (dia 23) para R$ 138,3 bilhões anteontem.

As tesourarias, em face da baixa liquidez do DI - o giro ontem rondou 412 mil contratos - , não tiveram muito trabalho para provocar a alta dos juros futuros. Apesar das notícias positivas vindas de várias frentes inflacionárias, os prognósticos avançaram. O contrato mais negociado, para janeiro de 2010, subiu de 14,84% para 14,90%. A taxa para a virada do ano evoluiu de 13,69% para 13,70%. E o CDI transacionado para janeiro de 2012 avançou de 14,19% para 14,28%. Piso referencial das operações de crédito, o swap de 360 dias passou de 14,62% para 14,64%.

Dados divulgados ontem pela FGV mostraram que, enquanto a demanda se desacelera, começam a maturar os investimentos já feitos em ampliação da capacidade de produção. Se a oferta cresce num momento de redução da procura, ocorre justamente o oposto do que estão esperando os comprados em DI. O Índice de Confiança da Indústria (ICI) recuou 0,7% este mês em relação a junho, quando este, comparativamente a maio, havia subido 1,6%.

O resultado geral mostra que a indústria mantém-se aquecida, mas com um ritmo de atividade um pouco menos intenso que o registrado no segundo semestre de 2007 , diz nota da FGV. Até mais importante que esta desaceleração, o ICI do setor de bens de consumo caiu de 134,3 pontos para 129 pontos, enquanto o índice relativo aos bens de capital subiu de 133,2 para 139,4 pontos. A indústria está no limite da capacidade? Nada disso. O NUCI (nível de utilização da capacidade instalada) caiu de 86,4% em junho para 86,1% este mês. Mas o crédito continua bombando? Nada disso.

De acordo com nota emitida ontem pelo BC, os empréstimos para pessoas físicas vêm sinalizando tendência de desaceleração . O crédito total às famílias cresceu apenas 0,7% no mês passado. Mas o IGP-M continua devastador? Nada disso. De acordo com pesquisa realizada pela Reuters com 26 instituições financeiras, o IGP-M de julho, que será divulgado hoje cedo pela FGV, recuará de 1,98% para 1,83%.

De todos os segmentos, o mau humor interesseiro se limitou ontem ao DI futuro. Notícias de que as instituições americanas se mobilizam para limpar suas carteiras de títulos podres, o novo declínio do petróleo e indicadores mais positivos permitiram a recuperação de Wall Street. O índice de confiança do consumidor apurado pelo Conference Board subiu para 51,9 em julho, de 51 em junho, quando os economistas esperavam a repetição do 51. O barril fechou cotado a US$ 122,19 na Nymex, em baixa de US$ 2,54. O dólar caiu 0,33%, a R$ 1,5687.

Após a decisão do Copom de elevar a Selic de 12,25% para 13%, a parte do mercado que esperava a continuidade da estratégia gradualista do 0,50 ponto revisou para cima suas projeções de taxa para o final do ano. Foi o caso da LCA Consultores. A consultoria avalia que, além da inclinação mais conservadora demonstrada na semana passada pelo BC, outros dois fatores deverão contribuir para que ele repita o ritmo de aumento de 75 pontos-base na sua próxima reunião de política monetária, agendada para 10 de setembro , diz estudo da LCA. O primeiro: o fato de que os preços internacionais do petróleo e de diversas commodities, embora tenham recuado de suas máximas recentes, persistem oscilando em patamares bastante elevados, mantendo ainda lenta e irregular a desaceleração da inflação no atacado doméstico. O segundo: o fato de as estatísticas mais recentes terem revelado que, até meados do segundo trimestre, a economia doméstica continuava a se expandir num ambiente de utilização ainda elevada dos fatores de produção.

Esses vetores deverão passar a apresentar uma evolução mais comportada a partir do quarto trimestre do ano, para quando espera-se uma desaceleração mais evidente da atividade, externa e doméstica. Por isso, a LCA entende que o BC deverá retomar um ritmo mais moderado de elevação da Selic, de 0,50 ponto, nas duas últimas reuniões do ano. Dessa forma, a taxa básica projetada para o final do ano foi revisada de 14,25% para 14,75%.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)

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