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SÃO PAULO - A crise financeira americana ainda não pegou por aqui. O contágio que interessa, via câmbio, é diminuto.

Risível se comparado aos terremotos do passado. A balança cambial de setembro (até o dia 19) mostra que, no pior momento da turbulência americana - os três dias entre terça e quinta-feira da semana passada -, a saída líquida de dólares não foi relevante. De acordo com dados divulgados ontem pelo Banco Central, na semana passada a perda líquida foi de US$ 870 milhões. Desse total que saiu, o BC forneceu US$ 500 milhões, por meio dos dois leilões de venda realizados na sexta-feira. Os dados de setembro confirmam a curva declinante traçada pelas intervenções oficiais. Em abril, ápice das compras deste ano, o BC adquiriu US$ 4 bilhões. O enxugamento recuou depois para US$ 2,5 bilhões em maio, US$ 2 bilhões em junho, US$ 1,7 bilhão em julho e US$ 1,2 bilhão em agosto.

Esses números brandos e os relativos ao fluxo cambial do mês - cujo superávit (isso mesmo, superávit) declinou de US$ 4,329 bilhões na parcial até o dia 12 para US$ 3,459 bilhões na preliminar até o dia 19, o que dá aquela saída irrisória de US$ 870 milhões em pleno terror pânico - retiram fundamento macroeconômico da alta do dólar. E confirmam a impressão de que a escalada resulta muito mais da especulação dos " comprados " em dólar nos pregões de derivativos cambiais da BM & F. Apesar da intensa volatilidade da moeda tanto no mercado externo quanto no doméstico, os investidores estrangeiros não alteram quase nada sua aposta principal de valorização da moeda americana frente ao real. Houve um degrau entre as posições " compradas " do dia 18 (US$ 6,8 bilhões) e as relativas ao dia 19 (US$ 5,6 bilhões), mas na segunda-feira elas já subiram para US$ 5,8 bilhões.

O dólar fechou ontem no mercado à vista brasileiro em alta de 2,17%, cotado a R$ 1,8310, apenas para acompanhar a valorização da moeda nas praças internacionais e para aumentar o lucro dos hedge funds " comprados " na BM & F. No acumulado do mês, a alta nominal de 11,98% pode parecer expressiva, para a alegria dos exportadores, mas como há muito sobe-e-desce as empresas não se sentem autorizadas a repassar parte da alta para o preço final dos produtos, enquanto a queda das commodities - o índice CRB de 19 commodities caiu ontem 1,61%, ampliando a baixa no mês para 6,2% - é sentida integralmente. Como prova o IPC-S encerrado em 22 de setembro. Ele acusou deflação de 0,04%, após alta de 0,04% no indicador precedente. As expectativas mais otimistas dos economistas de fato contemplavam a possibilidade de deflação, mas ela não conseguiria ser maior que 0,03%.

O contágio via sucedâneos inflacionários também parece restrito e inconseqüente. Para atualizar-se em relação à turbulência em Wall Street, a taxa básica de juros privada da economia brasileira - a do swap de 360 dias - subiu em setembro de 14,55% para 14,79%. Essa alta não tira o sono de nenhum empresário. O mercado monetário local, comparativamente aos salvamentos de bancos e injeções monstruosas de liquidez feitas pelo Federal Reserve (Fed), parece um paraíso do outro mundo. O BC não está dando dinheiro para ninguém, pelo contrário todo dia ele retira reais do sistema. Ontem, tomou R$ 58,91 bilhões do over pagando 13,68%.

As altas dos contratos futuros de juros são reflexos condicionados, sem nenhuma autonomia, sem ligação com a política monetária e sem despertar maior interesse dos investidores, tanto que o volume de negócios não conseguiu ontem superar os 357 mil contratos na BM & F. O contrato mais negociado, para janeiro de 2010, avançou de 14,80% para 14,84%. O capital externo não rejeita os títulos do Tesouro brasileiro. Ontem, em leilão primário de NTN-B, papéis que, quando adquiridos por estrangeiros, dispensam o recolhimento de impostos, o Tesouro reduziu a oferta de 500 mil para 300 mil títulos, temendo um apetite menor. Toda a oferta foi vendida, pelo valor de R$ 482 milhões, fazendo crer que, se a colocação não fosse limitada, a totalidade anterior poderia ser absorvida sem maiores problemas.

A contaminação brasileira poderá se dar mais pelo lado real, sob a forma de um desaquecimento econômico mais intenso que o buscado pelo ciclo de aperto monetário. Por isso, para contrabalançar a influência de compressão do produto exercida pela crise bancária dos EUA, o Copom deveria exercitar a arte do comedimento. O exagero não cai bem aos banqueiros centrais. Ontem, os mercados americanos pioraram assustadoramente depois que o presidente do Fed, Ben Bernanke, carregou nas tintas como forma de convencer os congressistas a aprovar o pacote de ajuda.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)

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