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Sem acordo na Rodada Doha, o chanceler Celso Amorim adverte que a principal conseqüência negativa para o Brasil é o aumento dos subsídios agrícolas americanos nos próximos anos, já que ficarão sem novas regras. O diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Pascal Lamy, alerta que o Brasil será um dos países que sairão perdendo com o fracasso da OMC.

Em declaração ao Estado, o francês reconheceu que o colapso do processo será sentido por todos os países emergentes. "O Brasil também perde muito com o fracasso."

Cálculos apontavam o Brasil como um dos principais ganhadores com a abertura de mercados e a redução de subsídios que poderia resultar do acordo. Para Amorim, o principal problema do fracasso será a manutenção dos altos subsídios agrícolas dos Estados Unidos. Mas, segundo ele, não será o Brasil que mais sofrerá.

"Teremos de abrir disputas legais contra esses subsídios", disse o ministro. O Congresso americano aprovou recentemente uma nova lei que manterá um volume bilionário de subsídios aos produtores. Sem um acordo, esse volume não terá um limite e, pela lei, o aumento poderia ocorrer sem ser questionado. Hoje, o volume está baixo diante dos preços altos das commodities. Mas, se o mercado mudar, a distribuição de subsídios ao algodão, soja, leite, carne e milho podem explodir sem as novas regras. Para o comissário de Comércio da Europa, Peter Mandelson, a nova lei é "a mais reacionária na história dos Estados Unidos".

Marcha lenta

Várias disputas podem ser levadas aos tribunais nos próximos anos, para tentar solucionar entraves no comércio. "O Brasil tem como pagar essas disputas e advogados caros. Mas outros países não têm essas condições. Esses vão de fato perder com o colapso da Rodada", disse Amorim. "São os pequenos países, principalmente os africanos, quem mais sofrerão com o colapso."

Ontem, o chanceler confirmou mais uma vez que o Brasil vai abrir um processo nos tribunais da OMC contra a sobretaxa aplicada ao etanol no mercado americano. A esperança do País era conseguir que o tema entrasse num pacote de acordo. Mas, com o adiamento da conclusão da Rodada por alguns anos, a saída será o litígio. "Vamos adiante com o caso."

Para Amorim, a chance de se retomar o processo nos próximos meses, como sugeriram alguns, é remota. Em sua avaliação, não haveria mais como tentar um acordo durante a administração de George W. Bush. "Eu diria que a retomada nos próximos meses tem apenas 1% de chance de ocorrer. O mais certo é de que se leve dois ou três anos para que o processo volte a ser considerado seriamente. Não digo que não se trabalhará. Mas sem pressão. Vamos ter um processo em marcha lenta."

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