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Governo alemão é acusado de afetar a competitividade da França ao prosseguir com política de redução dos custos trabalhistas

Ao invés de apontar eventuais exageros nos custos trabalhistas da França, os economistas do país preferem colocar a culpa pela perda da competitividade na vizinha Alemanha, que há mais de dez anos adotou políticas de redução de custos do trabalho para aumentar as exportações. A principal acusação dos franceses é a de que, ao baixar os salários, os alemães estão promovendo uma concorrência desleal com os próprios companheiros europeus, já que no mercado internacional não é possível competir com os custos de mão de obra mínimos da China ou da Índia. A atitude não agrada à elite econômica da França, que vê nas medidas uma traição dos alemães aos princípios da União Europeia.


“O verdadeiro problema de competitividade que temos hoje é em relação à Alemanha, que está ganhando rapidamente partes do mercado francês”, explica Eric Heyer, diretor-adjunto do Departamento de Análises e Previsões do Observatório Francês da Conjuntura Econômica (OFCE). Ele destaca que o custo da mão de obra francesa é pouco superior a outras economias importantes da Europa, como a Itália e a Espanha, mas que estão progredindo cada vez mais rapidamente em relação à Alemanha. “Os alemães não estão ocupando apenas o mercado francês: essa prática de baixar os salários está afetando todos os grandes países do bloco com os quais eles têm relações econômicas.”

Claramente insatisfeito com a política econômica germânica, Heyer considera que o país vizinho já deveria ter sido alvo de repressões da Comunidade Europeia, afinal o bloco econômico adotou uma moeda única não para acirrar a competição entre os seus membros, mas para serem parceiros.

Funcionários de siderúrgica protestam contra reforma da previdência da França, em Marselha, há duas semanas
REUTERS/Jean-Paul Pelissier
Funcionários de siderúrgica protestam contra reforma da previdência da França, em Marselha, há duas semanas
A diretora de Estudos Econômicos e Estratégias de Mercado do HSBC França, Mathilde Lemoine, chama a atenção para o fato de que, se o bem-estar social está garantido nos momentos de crise graças à mordida pesada dos encargos trabalhistas, na hora da retomada econômica o mercado tende a responder mais devagar, já que o Estado tem de fazer face a um aumento brutal das despesas públicas. “Na Alemanha, a reforma da proteção social fez com que as despesas públicas ficassem em 43,7% do PIB no pós-crise, contra 52,7% na França”, explica Lemoine. “Em consequência, o consumo é também menos volátil e tende para baixo.”

Outra medida que foi adotada pelos alemães e chegou a ser cogitada pelos franceses é o aumento da TVA, imposto europeu equivalente ao ICMS brasileiro. A ideia seria empurrar para os consumidores uma parte dos gastos com a proteção social, aliviando a carga para os empregadores. Mas a medida foi rechaçada pelos franceses e a oposição e saiu, pelo menos temporariamente, da pauta da equipe econômica do presidente Nicolas Sarkozy. Ao invés de adotar medidas como essa, os economistas franceses preferem insistir no fato de que a França deveria apostar as fichas no aumento da sua produção industrial, motor da economia alemã ao lado das exportações.

"Alemanha, o lobo mau europeu"

“Hoje, a Alemanha é o grande lobo mau da Europa neste quesito”, alega o economista Gilbert Cette, especialista em mercado de trabalho do Centro de Análises Econômicas, responsável por aconselhar o primeiro-ministro, François Fillon. Segundo ele, as comparações internacionais não conseguem provar que o trabalhador francês custa mais que os demais, à exceção da Alemanha. Cette argumenta que, se as taxas são altas, elas incidem sobre os salários, e não sobre os empregadores. Outro argumento usual dos franceses para se defenderem das críticas da perda da competitividade é o de que a produtividade da mão de obra francesa está entre as maiores do mundo, em comparação com outras grandes economias.

O economista concorda, no entanto, que os custos de demissão de um funcionário na França podem ser mais elevados que as dos parceiros europeus, o que estimula uma precariedade indesejada do mercado que há algum tempo o país tenta reverter. A idade média do primeiro contrato por tempo indeterminado de trabalho (CDI) acontece aos 27 anos na França. Antes disso, os jovens acumulam experiências com contratos cujo fim já está determinado.

“É verdade que, ao não querer arcar com os custos envolvidos em uma demissão judicial, as empresas têm contornado o CDI”, reconhece Cette. Heyer, por sua vez, defende que o país caminhe em direção a uma nova reforma trabalhista que facilite os processos de demissão de empregados.

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