
Celulares antigos, cabos, carregadores, computadores e até eletrodomésticos fazem parte da rotina de milhões de brasileiros. Mas quando esses aparelhos deixam de ser utilizados, o que a maioria faz com eles?
O Brasil é o quinto maior produtor de resíduos eletrônicos do mundo, gerando cerca de 2,4 milhões de toneladas por ano . Esse volume reúne diferentes tipos de equipamentos, que possuem materiais como plástico, vidro e metais, além de componentes que precisam de cuidados específicos durante o descarte.
Diferentemente do lixo comum, o eletrônico não pode simplesmente ser colocado na mesma lixeira . Para que seus materiais sejam reaproveitados, os aparelhos precisam passar por algumas etapas como: triagem, desmontagem e separação. É nesse processo que a economia circular ganha um espaço.
Mas o que é economia circular?

A economia tradicional, o processo costuma seguir uma lógica linear: retirar matérias-primas da natureza, produzir, consumir e descartar . A economia circular propõe uma mudança nesse modelo, buscando manter produtos e materiais em uso pelo maior tempo possível.
Na prática, isso pode acontecer por meio de reparos, reutilização, remanufatura e reciclagem . Em vez de considerar um produto sem uso como o fim da cadeia, a proposta é encontrar outras maneiras de aproveitar os componentes novamente.
Nesse caso, a ideia é importante porque muitos aparelhos possuem materiais que ainda podem ter valor mesmo depois que o equipamento deixa de funcionar.
Como por exemplo, uma placa de circuito, pode conter metais como ouro, prata, cobre e paládio . Já as partes que contêm plástico e vidro podem também ser separadas e utilizadas em outros processos de produção. Dessa maneira, o que seria descartado pode voltar para a cadeia produtiva.
Como a economia circular se aplica ao lixo eletrônico?
A economia circular aplicada aos eletrônicos começa antes mesmo do momento do descarte. O objetivo é pensar no ciclo de vida do produto desde sua fabricação, passando pelo período de uso, até o momento em que ele deixa de ser utilizado.
Quando um aparelho não tem mais conserto ou não será mais usado, seus componentes podem seguir diferentes por outros caminhos. Alguns podem ser reutilizados, outros reciclados ou se possível, determinados materiais podem voltar à fabricação de novos produtos.
O que compõe a maior parte no país?
- Celulares;
- Periféricos e acessórios de informática, como mouses, teclados, cabos e carregadores;
- Televisores;
- Eletroportáteis, como secadores de cabelo e batedeiras;
- Equipamentos de áudio e vídeo;
- Linha branca, como geladeiras, máquinas de lavar e outros eletrodomésticos.
A linha branca não representa a maior quantidade de itens, mas possui um peso significativo por causa do tamanho desses equipamentos.
Por que isso é um problema?
Os produtos eletrônicos possuem uma composição diferente do lixo doméstico comum. Celulares, computadores, televisores e outros aparelhos reúnem diversos materiais e componentes que precisam de uma destinação adequada.
Quando são descartados de forma incorreta, podem causar impactos ambientais e oferecer riscos à saúde . Entre os principais problemas estão:
- Substâncias tóxicas: alguns aparelhos possuem metais como chumbo, mercúrio e cádmio, presentes em determinados componentes, como baterias e placas de circuito;
- Contaminação ambiental: quando o descarte é feito de maneira inadequada, esses materiais podem contaminar o solo e a água, principalmente quando os resíduos ficam expostos ou sofrem processos de decomposição e corrosão;
- Riscos à saúde: a exposição inadequada a determinadas substâncias presentes nos resíduos eletrônicos pode causar problemas à saúde, principalmente quando ocorre de forma contínua e sem proteção;
- Baixa taxa de reciclagem: uma grande parte dos resíduos eletrônicos ainda não recebe a destinação adequada, fazendo com que materiais que poderiam ser reaproveitados sejam perdidos;
- Risco de incêndios: baterias, especialmente as de íons de lítio, podem apresentar risco de superaquecimento e incêndio quando são danificadas, perfuradas, amassadas ou descartadas de maneira incorreta.
Por isso, a reciclagem tem um papel importante dentro da economia circular. Ao separar e tratar corretamente esses materiais, é possível reduzir os riscos do descarte inadequado e ainda recuperar componentes que podem voltar para a cadeia produtiva.
Como funciona a reciclagem de eletrônicos?
O primeiro passo começa com o descarte em um ponto de coleta adequado . Esses locais podem estar presentes em estabelecimentos comerciais, centros de coleta, mercados, shoppings e outros espaços que recebem esse tipo de material.
Depois, os equipamentos são encaminhados para empresas ou cooperativas especializadas. O processo pode variar de acordo com cada instituição, mas algumas etapas são comuns.
- Triagem: os equipamentos são separados de acordo com suas características e categorias, como informática, telefonia e eletrodomésticos.
- Desmontagem: os aparelhos são abertos e seus componentes são separados. Nessa etapa, podem ser identificados materiais como plástico, vidro, placas e metais.
- Trituração: alguns materiais passam por equipamentos que reduzem seu tamanho. Essa etapa não é realizada por todas as empresas.
- Comercialização: depois da separação, os materiais podem ser vendidos para outras empresas que irão utilizá-los em novos processos produtivos.
O objetivo é fazer com que o máximo possível de material tenha uma nova utilidade.
Os materiais recuperados podem ser utilizados em diferentes setores. O vidro de monitores e televisores, por exemplo, pode ser empregado na produção de outros objetos.
Também existe a recuperação de metais presentes em placas de circuito. Ouro , prata, cobre e paládio podem ser extraídos por processos controlados e posteriormente utilizados em novas aplicações.
Dessa maneira, a reciclagem não precisa manter o material dentro da mesma indústria para fazer parte da economia circular. O importante é evitar que ele seja perdido e seja reutilizado.
A atividade também movimenta uma cadeia de trabalho que envolve coleta, transporte, triagem, desmontagem, processamento e comercialização .
Um estudo da Universidade das Nações Unida s apontou que a reciclagem de eletrônicos pode gerar cerca de US$ 14 bilhões (R$ 72,94 bilhões) por ano devido à recuperação de materiais valiosos presentes nos equipamentos.
Segundo dados atribuídos à Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA), a reciclagem de eletrônicos também pode gerar mais empregos do que o envio de resíduos para aterros sanitários.
Outro dado citado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) aponta que a reciclagem de uma tonelada de celulares usados pode evitar a emissão de até 15 toneladas de gases de efeito estufa.
Os números mostram que o reaproveitamento desses materiais não está relacionado apenas à questão ambiental . A atividade também pode movimentar a economia e gerar oportunidades de trabalho.
Como contribuir com a reciclagem?
A reciclagem começa com o descarte, mas algumas atitudes podem evitar que o aparelho chegue rapidamente a essa etapa.
Não acumule se o equipamento ainda funciona, uma alternativa é consertá-lo, reutilizá-lo ou doá-lo. Dessa forma, o produto continua sendo utilizado e seu ciclo de vida é prolongado.
- Remova os dados pessoais: antes de entregar celulares, computadores e outros dispositivos, faça um backup dos arquivos e apague as informações armazenadas no aparelho.
- Separe pilhas e baterias: esses materiais devem ser entregues em coletores específicos e não devem ser descartados junto ao lixo comum.
No fim, a economia circular depende de diferentes etapas e participantes. Empresas precisam pensar em produtos mais duráveis e fáceis de reparar e reciclar, enquanto sistemas de coleta e reciclagem precisam garantir a destinação adequada dos materiais.
Para o consumidor, uma das principais atitudes é simples, não tratar um eletrônico sem uso como lixo comum. Um aparelho que já não serve para uma pessoa ainda pode ter peças e materiais que continuam sendo úteis.
É dessa forma que a reciclagem contribui para manter os recursos em circulação e diminuir o desperdício .
*Estagiária sob supervisão