Vladimir Joelsas Timerman é dos mais controversos gestores de fundos do País. Apresentando-se como guru e defensor de acionistas minoritários, por detrás dessa máscara, esconde um homem violento e misógino, que lança calúnias e que age à margem da lei. O gestor comprou briga com grandes bancos, empresas, grandes investidores e até com ex-sócios, que o acusam de ter se apropriado e levado a uma concorrente direta informações e inteligência da empresa tida em sociedade.

O que Vladimir não conta a seus poucos clientes é que, além de ser alvo de ações de ex-sócios, tem uma trajetória manchada por ter provocado perdas milionárias em operações com compra e venda de ações. O comportamento agressivo, do qual se gaba em suas redes sociais, não se reduz ao ativismo. Vladimir chegou mesmo a responder a uma ação por ter ameaçado gravemente uma mulher no trânsito.

Entre seus pares no mercado de ações, o gestor tem fama de chantagista e de lançar acusações sem provas, para forçar negócios no mercado.  É isto que o leitor vai constatar nas próximas linhas.

Controvérsias

Apesar de gostar de divulgar que a Esh Capital tem apresentado resultados acima de concorrentes, o toque de midas de Vladimir está longe de ser uma unanimidade.  Clientes já perderam muito dinheiro por causa da Esh. É o que mostram processos judiciais. A reportagem teve acesso aos autos do processo nº 1025894-54.2020.8.26.0100, em que Jair Martineli cobra à Esh Capital e ao BNY Mellon Serviços Financeiros cerca de R$ 600 mil aplicados no Fundo Samba BM FIM.

Esses recursos foram aplicados por operação de conta e ordem, em investimento com a Corretora Gradual, que fez resgates antes de sua falência, em 2018. Jair pediu condenação das duas gestoras e uma indenização da ordem de R$ 800 mil. A Esh não foi condenada, mas Martineli nunca mais aplicou R$ 1 em fundos geridos pela turma do Vladimir.

Em 2020, mais uma briga. O fundo de investimento Samba Pi, representado pela gestora Esh Capital, moveu ação contra a PPLA Participations Ltda, o banco BTG Pactual e alguns de seus fundos e a Estre Ambiental S/A. O objetivo do autor era obter uma série de documentos para embasar uma futura ação. Para tanto, alegou a existência de operações fraudulentas, em prejuízo à Esh Capital.

Os alvos dos ataques de Vladimir nesse caso alegaram que a manobra do gestor se trata de “sham litigation” e “fishing expedition”, pois seu fundo já teria todos os elementos de que alegadamente precisava, não havendo utilidade na produção de novas provas. Vladimir, inclusive, gravou, sem autorização, conferência telefônica com representantes da PPLA, o que gerou revolta aos executivos do BTG.

No processo, que tem mais de 5 mil páginas e ainda está em andamento, o BTG Pactual classificou o Samba como um investidor que se faz de “ingênuo e desavisado”, mas que se utiliza da aquisição de valores mobiliários com a finalidade exclusiva de “achacar o controlador da empresa” e “pressionar as deliberações dos administradores”. A reportagem teve acesso ao processo, em que o BTG faz duras acusações à Esh Capital, como a de que  Vladimir tenta “obter vantagem financeira à qual não tem direito”, sendo um “tóxico exemplo de investidor”, que presta um “notório desserviço ao mercado de capitais brasileiro”.

Quem é o samba e o que ela realmente deseja?
Reprodução
Quem é o samba e o que ela realmente deseja?








Segundo o BTG, o modus operandi de Vladimir, adotado contra a PPLA, é percebido em várias operações do gestor no mercado: consiste em usar veículos de comunicação para criar factóides e pressionar as companhias, publicando contestações sem embasamento contra decisões e deliberações dos administradores.

Desde o início, a predisposição ao conflito

A trajetória controversa de Vladimir começa como analista de investimentos em instituições financeiras do país. Hábil com números, ainda jovem, não teve dificuldades para ingressar em grandes grupos financeiros, como o Itaú BBA e o Itaú Unibanco. O fato é que até o Itaú BBA, um dos maiores do país, é alvo da fúria de Vladimir, que move uma ação na Justiça, por danos morais, contra uma das mais respeitadas instituições financeiras das Américas.

Em sua “capivara”, Vladimir coleciona processos e inimigos. No legítimo “faça o que eu mando, mas não faça o que eu faço”, o defensor dos acionistas minoritários foi acusado pelos sócios de violação do dever de lealdade e concorrência desleal. Foi a partir de 2011, que o gestor se tornou réu de 6 ações movidas pela Ático Empreendimentos e Participações a respeito de sua saída da sociedade na Ático Administração de Recursos LTDA.

O fato é que a Ático buscou a condenação de Vladimir porque ele, enquanto sócio da empresa, aceitou uma uma proposta de trabalho de uma concorrente direta e, ainda assim, recusava-se a formalizar sua saída, negando-se a assinar a alteração do contrato social.

Trocas de e-mail de agosto de 2011, juntadas pelos advogados da Ático, demonstram a insatisfação dos sócios com o gestor, que parecia, segundo a acusação, buscar uma vantagem indevida na cisão da sociedade, deixando a Ático sem nada. As mensagens indicam, ainda, irritação com a postura de Vladimir, questionando sua competência e atuação: mais problema do que realização.

Os antigos sócios acusaram Vladimir de deslealdade por ter supostamente levado informações confidenciais e inteligência da Ático para a concorrência. O réu possuía um notebook com acesso a toda a estratégia dos fundos da Ático, carregando-o até mesmo para casa.

Texto reproduz troca de mensagens
Reprodução
Texto reproduz troca de mensagens

A Ático alegou que Vladimir também se manifestou em redes sociais prejudicando a imagem e o bom nome da empresa – o que levou os sócios a demandarem indenizações por danos morais.

No processo, a Ático faz outra grave acusação: Vladimir não tinha registro como gestor de fundos perante a CVM. Segundo o relatado no processo, era Ricardo Junqueira, outro sócio, a pessoa formalmente responsável pela função.

Vladimir tentou, no processo, demonstrar que era o dono de um fundo transferido à Ático e que, com seu trabalho, havia conseguido a multiplicação do patrimônio investido. A empresa não reconhece o gestor como desenvolvedor e nem atribui a ele os resultados positivos conquistados. Chamado Performa, tal fundo teria perdido mais de 50% dos recursos, com retiradas de investidores que não seguiram Vladimir. O sucesso no aumento do capital investido, ocorrido quando o Fundo estava sob gestão da Ático, teria sido resultado do trabalho da equipe comercial da empresa.

Ainda segundo a acusação, o fundo Performa seria um fundo quantitativo e, portanto, gerido automaticamente por algoritmo – automatização, que descompassa com os custos realizados para manutenção da equipe de 4 funcionários para Vladimir.  

Já ali, Vladimir mostrava sua verdadeira face de agressividade e desrespeito a sócios. Isso fica ainda mais claro na lista de contenciosos, em que é acusado de calúnia. Entre os alvos de seus ataques estão Gol, Smilles, Itaú Unibanco, BTG, o grupo Alliar e o grupo Terra Santa Propriedades Agrícolas S/A.

Smiles

A mais ruidosa disputa se deu em 2020, contra a Gol Linhas Aéreas. Vladimir acusou a Gol e o BNDES de atuarem de forma irregular. Em suas redes, Vladimir acusou o BNDES de agir à margem da lei e de favorecer a criminosos.

Acusações foram feitas nas redes sociais
Reprodução
Acusações foram feitas nas redes sociais

A disputa foi parar no tribunal. A Gol requereu explicações do Vladimir, sobre suas manifestações no Twitter a respeito do controle da Smiles Fidelidade S/A. Vladimir desferiu acusações contra a controladora da Smiles e acusou a companhia Gol de prática de crime, além da distribuição velada de “dividendos”.

Ao acusar Vladimir do crime de difamação, a empresa, por sua vez, destacou que o gestor tentava, em seu discursos, “conclamar uma falsa liderança entre outros acionistas minoritários” a fim de “angariar quaquer ilusória popularidade”.

Alliar

Essa estratégia fez outra vítima recentemente: a Alliar Médicos à Frente, adquirida em abril pelo Fundo de Investimento em Participações (FIP) Fonte de Saúde, do  investidor Nelson Tanure, mais um a sofrer com as chantagens do gestor. Por suas condutas durante a negociação de troca de controle da companhia, Vladimir e sua Esh Capital sofreram uma arbitragem do FIP. Além disso, Nelson Tanure ajuizou contra ele uma queixa-crime por calúnia e difamação.

Na ação, Tanure afirma que Vladimir teria se manifestado de forma desairosa pelo Twitter, fazendo com que a companhia perdesse valor de mercado. Mesmo após comunicado do processo, Vladimir dobrou a aposta e as ofensas foram reafirmadas. Além disso, Vladimir imputou ao investidor veterano o crime de insider trading, alegando que Tanure teria se utilizado de informações privilegiadas ainda não publicadas. No processo, Vladimir não apresenta provas das suas acusações.

Dia de fúria

Entre a vasta coleção de processos, um chama a atenção, por ser misógino e pôr em risco a vida de várias pessoas. Tudo aconteceu em 25/07/2021, à plena luz do dia, em uma das mais caras regiões da capital paulista. O que poderia ter sido só uma briga de trânsito, terminou com uma perseguição e um acesso de fúria de Vladimir, que atacou o carro de Giovanna Odas Roche, diante de várias testemunhas.

Segundo Giovanna, o gestor mostrou-se colérico e lhe fechou a passagem na entrada para a Rua Charles Spencer Chaplin. Porém, quando ele intentou descer de seu automóvel, a vítima teria conseguido fugir, arrancando em alta velocidade com receio do que poderia acontecer.

Não satisfeito, Vladimir teria passado a perseguir Giovanna, dirigindo de maneira agressiva e perigosa. O gestor ativista teria ultrapassado o veículo da jovem e fechado a passagem utilizando seu próprio veículo, no qual estavam sua esposa e seus filhos. O que chama a atenção é que mesmo diante dos apelos da esposa e dos filhos, Vladimir desceu do seu BMW 320I Gran Turismo e começou a depredar o carro da modelo.

Carro ficou com traseira amassada
TJSP
Carro ficou com traseira amassada

O ataque de fúria de Vladimir foi filmado e fotografado. As imagens não deixam dúvidas da agressividade do homem contra uma mulher desprotegida. Veja a foto de como ficou o carro da modelo após o ataque.

Carro ficou destruído
Reprodução
Carro ficou destruído

O ataque não parou nem mesmo diante dos apelos da esposa de Vladimir, que do interior do carro do casal, junto com os filhos, grita: “Vai embora! Vai embora!”. O gestor não recuou, nem mesmo diante da intervenção de outros motoristas. Ao final, Giovanna teve de arcar com o prejuízo para consertar seu carro.

Levado à Justiça pra responder pelos danos materiais e morais, Vladimir retrocedeu, reconheceu a culpa. Foi feito um acordo e o gestor teve que arcar com as custas do processo. Mas nada muda o fato de que foi uma ação misógina. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, no Brasil, foram registrados quatro feminicídios por dia nos primeiros seis meses do ano passado.

Dívida Ativa

Mas o que a Justiça não viu foi que o motorista Vladimir é um contumaz transgressor. No nome do gestor, existe uma vasta coleção de multas. Ele tem ao menso 83 multas, de três veículos, que somam mais de R$ 13 mil. Algumas estão vencidas desde 2018. Só a BMW 320I Gran Turismo, que Vladimir usou para perseguir e ameaçar Giovanna, tem 42 multas, sendo 39 delas vencidas. Segundo a legislação em vigor, quem não paga as multas de trânsito, fica sujeito a várias punições:  ausência de emissão do Certificado de Registro e Licenciamento do Veículo (CRVL); apreensão de veículo e aplicação de nova multa; inscrição na dívida ativa e no SPC/Serasa.

A Esh

Vladimir é um dos controladores da Esh Capital Investimentos Ltda. Seus parceiros são Renato Gitelman (administrador de empresas), como diretor responsável pela área de compliance; Octacilio Costa Neto, responsável por backoffice; Sergio Goldman, responsável pela área de gestão e research; e Cauê Ribeiro, como analista research. A empresa não chega a figurar no ranking dos maiores gestores elaborado pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (ANBIMA).

Entre seus pares, Vladimir é tido como destemperado, agressivo e usuário de uma prática heterodoxa: a chantagem. Temerosos da reação do engenheiro, que usas as redes sociais para atacar seus desafetos, alguns gestores de mercado aceitaram falar com a reportagem. Segundo essas pessoas, Vladimir desenvolveu um método: comprar participação acionária em empresas com problemas, e usar informações sensíveis para forçar os gestores a tomarem decisões que lhe sejam favoráveis. Esse método tem gerado muitas ações na Justiça.

Casa de ferreiro, o espeto é de pau. A Esh tem se notabilizado por cobrar transparência máximas das empresas onde investe A empresa enviou documentos eventuais (atas de assembleia, edital para convocação, fato relevante, demonstração contábil, regulamento, prospectos, aviso ao mercado, entre outros) relativos ao ano de 2021, mas ainda não há documentos para o ano de 2022. Ou seja, Vladimir, o arauto da moralidade do mercado de ações, não é transparente com as informações das suas empresas.

Excêntrico Guru

Numa comparação maldosa feita por adversários, Vladimir seria o “João de Deus” do mercado financeiro: aquele que se apresenta como um anjo de candura, mas que no privado atua como um sádico. De forma messiânica e excêntrica, Vladimir costuma usar suas redes sociais para divulgar seus dons. Vale lembrar que o verdadeiro João de Deus era um médium que usava seu poder para violentar mulheres em Goiânia e que acabou preso. Não existem denúncias de atos análogos por parte de Vladimir, mas a construção de um arquétipo de guru traz semelhanças. Veja este post de dezembro do ano passado.

Reprodução de publicação feita no Twitter em dezembro de 2021
Reprodução/Twitter
Reprodução de publicação feita no Twitter em dezembro de 2021


APDIMEC

O mais engraçado é que na construção do arquétipo de herói, do defensor dos fracos, Vladimir assumiu o cargo de presidente da Associação de Proteção e Defesa dos Investidores Minoritários no Mercado de Capitais (APDIMEC), recém-criada (23/11/2021). O que chama a atenção é a sede da Associação, que fica Porto Alegre/RS. Muitos perguntam porque a APIDEMEC está sediada num estado do Sul, se o mercado financeiro tem SP como seu território de negócios.

A pretensa associação conta com 4 membros: Vladimir e outros 3 advogados, todos associados ao Carpena Advogados Associados. Um deles é Cesar Augusto Fagundes Verch, advogado que também o defendeu no processo sobre a agressão à modelo no trânsito.

O endereço do site da associação é de titularidade da Esh Investimentos, que usa o ambiente para publicar suas ações contra a Alliar e a Companhia de Eletricidade da Bahia (Coelba).

Vladimir Joelsas Timerman é recordista em números de reclamações feitas à CVM, entretanto, a Comissão simplesmente arquiva a maior parte dessas reclamações por falta de fundamento. Uma das frases favoritas de Vladimir é “quanto mais agressivo o controlador, mais agressivo eu tenho que ser”. E põe agressivo nisso. Para quem se apresenta como um aplicado gestor de recursos e guru do mercado financeiro, Vladimir tem muitas explicações a dar.

Procurado pela reportagem, Vladimir não atendeu nem retornou nossas ligações.

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