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Empresário vê problemas no projeto econômico adotado pelo governo e pede mudanças urgentes para retomar crescimento

Brasil Econômico

A crise econômica e política pela qual passa o Brasil chamou a atenção não só dos próprios brasileiros como virou também assunto de debates no mundo inteiro. Os rumos do País e o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, em análise no Senado Federal, chegaram a ganhar capas de jornais no exterior.

Em entrevista ao Brasil Econômico , o empresário José Antônio de Magalhães Lins explica como o mercado enxerga o atual cenário econômico do Brasil e quais as possíveis saídas para a crise. 

Para o empresário José Antônio de Magalhães Lins, é preciso racionalizar gastos no país
Arquivo pessoal
Para o empresário José Antônio de Magalhães Lins, é preciso racionalizar gastos no país

Brasil Econômico : Estamos vivendo a maior crise fiscal dos últimos 50 anos no Brasil. As contas do governo não fecham. Qual o maior problema?

José Antônio de Magalhães Lins (JAML) : Os números das contas públicas são assustadores. Não há como ficar calmo vendo elas saírem de um superávit primário em 2012, de 3% do PIB, para um déficit de 1% em 2016. Isso é uma barbaridade. Cada ponto percentual nessa conta equivale a R$ 50 bilhões, ou seja, em quatro anos estamos falando de R$ 300 bilhões e sabemos que existem várias despesas do governo fora desse cálculo, o rombo é ainda maior. Cito como exemplo o déficit do BNDES nas operações de crédito subsidiado, em que nossos filhos e netos vão arcar com a diferença entre a Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP) e o custo real do dinheiro. Algo tem que ser feito e já. O rating da dívida brasileira foi rebaixado e está cada vez mais caro para as empresas brasileiras se financiarem.

Brasil Econômico : A dívida pública ainda está sob controle?

JAML : Em primeiro lugar, precisamos definir o conceito moral de dívida pública. Um governo pode fazer uma dívida hoje e deixar a conta para a geração futura, desde que esse endividamento seja feito para construir algo que vá gerar um benefício claro para as gerações futuras que vão pagar a conta. Fazer dívida para construir uma ferrovia, portos e hospitais é perfeitamente ético. Fazer dívida para pagar despesas de custeio de uma máquina inchada é uma excrescência moral.

Brasil Econômico : Mas o governo pouco pode fazer em termos reais. Como conviver com tantos gastos crescentes? Como mexer nos gastos previstos na Constituição? O que se pode fazer?

JAML :  Nossa Constituição foi forjada sob um clima de emoção, logo após o fim do regime militar. O tempo passou e os excessos da carta constitucional hoje aparecem claramente, e não há mágica. Temos que agir urgentemente. A Reforma da Previdência e a desvinculação do salário mínimo das despesas já melhorariam a trajetória de dívida e seria um alívio enorme no nosso cash flow. A extinção de cargos em comissão e das boquinhas teria um efeito simbólico enorme. Já existem os funcionários públicos concursados para tocar a máquina do Estado. Não há necessidade de se colocar 22 mil pessoas a cada vez que se muda de governo.

Brasil Econômico : Pode-se dizer então que essa é uma visão neoliberal, de direita?

JAML : Esse conceito de esquerda e direita deve ser extinto de uma vez por todas. Há muita informação, muitos dados históricos e estatísticas em abundância para vermos o que deu certo e errado em outros países. Vamos copiar o que funcionou nos outros países e em nossa história recente. Não se trata de uma questão ideológica, e sim matemática.

Brasil Econômico : Qual foi o erro do governo em seu ponto de vista?

JAML : O governo errou no diagnóstico e no receituário. Errou ao achar que, em um cenário inflacionário, não se podia fazer ajuste fiscal sob pena de gerar desemprego. O discurso e o debate eram: “vamos optar pelo crescimento”. Veja, alguém pode ser contra o crescimento? Claro que não! Alguém pode ser a favor de desemprego? Claro que não! O que se devia discutir era sobre como combater a inflação, com os inevitáveis custos sociais e econômicos das medidas de ajuste, ou se deveríamos empurrar com a barriga e deixar o ajuste para depois mesmo que com custos bem mais elevados em termos de recessão de desemprego. Optou-se como sempre pela agenda política. Hoje a inflação estourou a meta e quem paga, como sempre, são as famílias de baixa renda. Nosso calendário político, com eleições de dois em dois anos, impede o planejamento de médio prazo e que se tomem as medidas necessárias. A agenda do futuro é totalmente superada pela agenda política. No jogo político, manter o poder não tem preço. A reforma política deveria antes de tudo casar todas as eleições numa só data, a cada quatro ou cinco anos. Assim a agenda política seria em intervalos maiores e se poderia planejar algo. Não há como planejar o Brasil com tanta política por perto.  

Brasil Econômico : O Brasil deveria ter um Banco Central independente?

JAML : Deveria. Não há patrimônio maior para um povo do que uma moeda estável. O Brasil, nos últimos anos, tem tido um BC autônomo, mas estamos longe de termos a segurança necessária. As experiências argentinas e venezuelanas estão aí para mostrar o mal que a agenda pessoal dos políticos pode fazer às gerações futuras. O grande erro do PSDB foi ter perdido a chance de dar a independência ao BC.

Brasil Econômico : Na saída do ministro Joaquim Levy, houve setores do governo que defenderam o aumento do gasto público para estimular a economia. O próprio ex-presidente Lula deu entrevistas defendendo aumento de gastos. Qual sua opinião sobre isso?

JAML : A agenda política tem uma lógica própria e não guarda nenhum compromisso com a realidade e o senso comum. Aumentar os gastos no atual momento, ou seja, imprimir moeda, pisar no acelerador, poderia gerar um falso crescimento econômico e garantir a vitória das eleições em 2018. Seria de novo a agenda política na frente do interesse do país. Não acho que funcionaria e teríamos uma explosão no câmbio e na inflação. Seria a repetição de um erro já cometido no Brasil, na Argentina, Venezuela e em vários países. Uma pena que haja esse tipo de proposta nos dias atuais.  

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