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Para o ex-presidente, a decisão de rebaixamento da nota do Brasil pela Standard & Poor's "não significa nada" e deveria estimular os países a não fazer o que essas agências querem

Em visita a Buenos Aires, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse, nesta quinta-feira (10), que o rebaixamento da nota do Brasil pela Standard & Poor’s (S&P) é um sinal de que as agências de classificação de risco querem "mais arrocho".

Lula discursou no Congresso Internacional de Responsabilidade Social, diante de integrantes do governo da presidente Cristina Kirchner, acadêmicos e empresários, um dia após a agência tirar do Brasil o grau de investimento, ou seja, o selo de bom pagador, e incluí-lo entre os países de grau especulativo.

"Eles têm facilidade para tomar medidas quando a dor de barriga é na América Latina", disse o petista, ao citar a decisão da S&P, que, segundo ele, "não significa nada" e deveria estimular os países a não fazer o que essas agências querem.

Na Argentina, Lula também participou de ato político com Cristina Kirchner e Daniel Scioli
Instituto Lula
Na Argentina, Lula também participou de ato político com Cristina Kirchner e Daniel Scioli

"Porque, quando eles diminuem (a nota), vem a (queda na) receita, mais arrocho, mais ajuste, mais desemprego, mais corte de gastos, mais não sei o quê. Não vem nunca mais educação, mais profissionalismo, mais investimento. Não vem", afirmou.

Mas, em 2008, durante seu governo, quando o Brasil recebeu o grau de investimento pela S&P, Lula chamou o feito de "vantagem extraordinária neste mundo globalizado".

Nesta quinta, Lula disse ainda que as agências "não têm coragem de diminuir nota de nenhum país" europeu, apesar de "todo mundo saber quantos países da Europa estão quebrados".

A fala ocorreu no segundo e penúltimo dia da visita do ex-presidente, que já incluiu ato político ao lado de Cristina Kirchner e de seu candidato a sua sucessão – o governador da província de Buenos Aires, Daniel Scioli – e palestras em universidades.

No discurso desta quinta, que durou mais de uma hora, Lula afirmou que o momento atual "não é bom em nenhum lugar do mundo" e lembrou que a China já não cresce ao ritmo de mais de 10% anuais como no passado. "A América do Sul não pode temer essa crise econômica. Se não entendermos que essa crise é passageira, corremos o risco de jogar fora todas as conquistas destes (últimos) anos", disse.

Crítica a ajuste

O petista afirmou que, quando assumiu a Presidência, em 2003, o Brasil era um país "sem crédito". E criticou os que defendem "ajuste". "Me assusta que, quando se fala em crise, já falam em ajuste. O ajuste leva ao empobrecimento e à perda de postos de trabalho."

Segundo ele, todos os países que passaram por ajustes, como a Grécia, acabaram com uma maior dívida pública. "Estamos vivendo uma situação criada pelos ricos, que nos colocaram nesta encalacrada", afirmou ao citar a quebra, em 2008, do banco norte-americano Lehman Brothers, estopim da crise financeira mundial à época.

Ajuste fiscal, medida defendida pelo ministro Joaquim Levy, foi duramente criticada por Lula
Agência Senado
Ajuste fiscal, medida defendida pelo ministro Joaquim Levy, foi duramente criticada por Lula

O ex-presidente disse que as coisas no Brasil "deram certo" porque ele, quando foi presidente, "não sabia de tudo". "Quando ganhei a eleição, coloquei os ministros num avião para irmos aos lugares pobres do Brasil. Era importante saberem que não estavam governando só para as agências de rating. Era importante que soubessem que existia outro Brasil, que aparecia nas estatísticas sem rosto. Acho que foi uma das melhores coisas que fizemos."

Em tom de campanha política, afirmou ainda que é a "ascensão social (dos menos favorecidos) que incomoda as outras pessoas". À BBC Brasil, um de seus assessores disse que o ex-presidente vê no país "uma luta de classes" e está se preparando "para voltar em 2018".

Segundo Lula, a inclusão social levou setores da sociedade brasileira a repetir frases como "o aeroporto parece rodoviária", e que alguns consideram crédito estudantil como "gasto" e dinheiro para empresário como "investimento".

Afirmou ainda ter acabado o tempo em que "filho de pedreiro tinha que ser pedreiro", e que não quer "tirar nada de ninguém", mas sim que a filha da empregada sente no mesmo banco escolar que a filha da patroa. "Não pense que a obra está acabada. Está apenas começando", disse.

Menções a Dilma

O petista citou sua sucessora, a presidente Dilma Rousseff, em duas ou três ocasiões. Em uma delas, ao mencionar a criação de escolas técnicas e a possibilidade de pessoas com baixa renda abrirem contas bancárias na Caixa Econômica Federal.

De terno e gravata vermelha e um pouco rouco, Lula falou ainda sobre a relação econômica entre Brasil e Argentina e sobre a relação conflituosa entre Venezuela e Colômbia, pedindo diálogo entre os presidentes Nicolás Maduro, da Venezuela, e Juan Manuel Santos, da Colômbia.

Ele alfinetou seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso (PSDB), ao dizer que o tucano e o então presidente argentino Carlos Menem disputavam para tirar uma foto com o líder dos EUA à época, Bill Clinton, mas que isso não deu resultados positivos.

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