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Para economista, crise política nacional faz com que vejamos a economia por um viés errado (a alta do dólar) e não o processo de desaceleração violento que ficará pior com a China

Um trabalhador da Bolsa de Tóquio monitora os preços das ações em uma tela no pregão japonês
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Um trabalhador da Bolsa de Tóquio monitora os preços das ações em uma tela no pregão japonês

A bolsa de Xangai caiu quase 9% nesta madrugada, enquanto ações despencavam em toda a Ásia. A semana passada foi a pior em anos para bolsas em todo o mundo e esta segunda-feira já tem sido chamada de "negra", por ter sido o pior dia para a bolsa de Xangai desde 2007.

A queda acentuada espalhou pânico nos mercados de ações em todo o mundo e gerou temores de uma nova crise financeira de grandes proporções como a de 2008.

No Brasil, a Bovespa abriu com queda superior a 6% e chegou ao menor patamar em seis anos. Até às 15h, havia apresentado uma leve recuperação, chegando a -1,94%. A cotação do dólar chegou a R$ 3,58 e está atualmente em R$ 3,55.

Entenda os possíveis efeitos do mergulho das bolsas chinesas nos mercados e na economia brasileira, segundo especialistas.

Quão grande é a queda?

O Dow Jones, um dos principais índices do mercado americano, começou o dia com uma queda de mil pontos, a maior de sua história, seguida de uma breve recuperação. Durante o dia, a queda chegou a 4% – o pior índice para a Dow desde novembro de 2011 – e estava em -2% às 15h. O mesmo aconteceu com Nasdaq.

O índice das 100 maiores empresas britânicas, FTSE 100, terminou o dia com uma queda de 4,6%. As principais bolsas europeias também registraram quedas entre 4% e 5% no fim do dia. "Estamos em meio a um real pânico sobre o crescimento, tendo a China como epicentro", disse o comunicado de um analista da JP Morgan obtido pela BBC.

O analista americano Stephen Guilfoyle, da consultoria Deep Value, disse à BBC que os mercados americanos estavam "à beira do pânico, mas ainda não chegaram lá".

Em uma iniciativa incomum, o CEO da gigante de tecnologia Apple, Tim Cook, chegou a enviar um comunicado ao canal de TV americano CNBC para assegurar aos investidores que as ações da empresa não seriam prejudicadas pela movimentação.

No final do dia, a recuperação das bolsas americanas gerou comparações com o "flash crash" de 2010, quando bilhões de dólares foram retirados das maiores empresas do mundo em minutos, mas foram recuperados rapidamente.

Por que a queda aconteceu?

O catalisador da queda chinesa parece ser a ausência de uma resposta do governo durante o último fim de semana, segundo o analista de economia da BBC Duncan Weldon.

Investidores – tanto chineses quanto estrangeiros – acreditavam que Pequim lançaria medidas de estímulo ao mercado em resposta aos índices da última semana. Quedas anteriores receberam respostas rápidas do governo chinês. 

De acordo com Weldon, o fato de o governo não ter anunciado medidas de estímulo agora pode ser interpretado tanto como um mau sinal (de que a China estaria ficando sem ferramentas para responder, o que pode prejudicar a credibilidade de um governo que apostou muitas fichas em seu mercado em crescimento) quanto como um bom sinal (de que o compromisso do governo com reformas de mercado, com menos interferência política, é verdadeiro).

Como fica a situação do Brasil?

Para o economista André Perfeito, da Gradual Investimentos, a recuperação da Bovespa ao longo do dia mostra que pode ter havido um movimento exagerado de venda de ações, puxado pela tensão nas bolsas internacionais.

No entanto, o momento atual pede uma reconfiguração do comércio com o gigante asiático, disse à BBC Brasil. "O que eu vejo com mais preocupação sobre a China é que todos olham para lá como se o país fosse continuar crescendo 10% ao ano. A China não vai mais crescer isso."

"No caso do Brasil, é preciso repensar nossas relações comerciais a longo prazo. Vamos continuar exportando commodities para a China? Não faz mais sentido, a China já absorveu tudo o que tinha que absorver. Agora cabe a nós vender produtos com maior valor adicionado ou diversificar a pauta", afirma.

Perfeito defende que a queda da bolsa chinesa, por si só, não provocará um efeito especial na economia brasileira, que já está em desaceleração. Ele afirma, no entanto, que a maior desvalorização do real em relação ao dólar pode forçar um aumento dos juros no País e desarticular ainda mais a economia doméstica.

"O Brasil já entrou num processo de desaceleração violento, isso [a queda na China] será apenas mais um fator. Mas, por causa de uma crise política aguda, em vez de os economistas brasileiros verem que a desaceleração econômica global vai desacelerar também a nossa economia e segurar os preços, vão enxergar apenas que o dólar está subindo, o que gera mais inflação, e querer aumentar os juros. Estão vendo do jeito errado", opina.

Há motivo para preocupação nas grandes economias ocidentais?

De acordo com Duncan Weldon, o significado econômico do colapso da bolsa chinesa não deve ser exagerado, já que os mercados financeiros chineses ainda são relativamente fechados – o que limita os impactos diretos para além das fronteiras do País.

Por trás desse colapso, no entanto, está uma economia bastante desacelerada. E o efeito disso em outros países pode ser bem mais sério.

Atualmente, os grandes motores estruturais do crescimento das economias emergentes parecem estar desacelerando ou revertendo seu curso. Por isso, seu crescimento deve ser bem mais fraco nos próximos anos.

Com as economias emergentes representando metade da economia global – e responsáveis por cerca de 80% do crescimento global recente –, isso é muito importante.

E com o aumento dos lucros de grandes empresas ocidentais impulsionado pelo crescimento das vendas nos países em desenvolvimento, essa desaceleração deve atingir suas receitas e, consequentemente, as bolsas da Europa e dos Estados Unidos.

Mas Weldon acredita que esse impacto pode ser, pelo menos em parte, amortizado por preços muito mais baixos decommodities (o crescimento mais fraco das economias emergentes pode significar um preço muito menor para o petróleo, o cobre e outras matérias-primas) – o que deve abaixar os preços da gasolina em alguns países, contribuindo para que a renda de algumas famílias seja menos comprometida e permitindo que taxas de juros fiquem baixas durante mais tempo.

Nesta segunda-feira, de fato, o preço do petróleo recuou mais de 4%, para o menor valor em seis anos.

Um 'novo 2008'?

Muitos analistas já falam em um "novo 2008" – ano em que eclodiu a crise financeira internacional –, mas, segundo Duncan Weldon, ainda não é para tanto.

"A desaceleração continuada de um país emergente teria impactos profundos na economia mundial. E terá, obviamente, um grande impacto na qualidade de vida das bilhões de pessoas que vivem nesses países", afirma.

"No resto dos países ocidentais, no entanto, a crise não parece ser um 'novo 2008', e, sim, um processo contínuo de reconfiguração da economia global."

Já André Perfeito acha que existe uma possibilidade de que o mundo entre, em breve, em uma nova grande crise – mas não necessariamente por causa da China.

"Não vejo como ruim essa queda das bolsas chinesas porque havia uma bolha nos mercados de ações lá e é desejável que essa bolha seja desinflada. Eu ficaria mais preocupado se a bolsa chinesa continuasse com esses valores exorbitantes sem nenhum tipo de correção. Faz parte do jogo, é normal", diz.

"Mas acho que a verdadeira bolha não está na China, está no Ocidente. As bolsas de Londres, Frankfurt e Nova York estão em seu ponto máximo e o mundo não está em seu ponto máximo. Há um descolamento entre a realidade econômica e o que está expresso no valor dos ativos."

De acordo com Perfeito, falta coordenação política global para garantir que o dinheiro circulando na esfera financeira tenha propósito e direção, evitando o novo estouro de uma bolha dos mercados de ações, como em 2008.

"O problema maior que temos no mundo é político, não econômico", afirma.



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