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Método consiste na avaliação de 100 países; cada um deles recebeu notas em nove itens, com indicadores em três áreas diferentes: fatores econômicos, financeiros e sociais

A classificação que agrupa países como "desenvolvidos" e "emergentes" está ultrapassada? E quando um país finalmente deixa de ser emergente?

Para alguns economistas, esta avaliação não é só antiga como é simplista demais. Peter Marber, chefe de investimento para mercados emergentes da consultoria Loomis, Sayles & Company, criou uma nova avaliação, que divide países em 10 grupos diferentes após a análise de uma série de dados.

"Esta classificação (em desenvolvidos e emergentes) não está apenas desatualizada, mas é uma caracterização simplista. O mundo é muito mais segmentado do que preto e branco... Tem vários tons de cinza", disse.

O grupo 10 reúne os países que mais pontuaram. Quanto mais perto do topo, mais desenvolvido o país. O Brasil está na categoria 6, junto com Rússia e África do Sul. Os três países integram o bloco Brics de países emergentes.

Estados Unidos, China e Índia ─ os dois últimos também integrantes do Brics ─ teriam seus próprios grupos, já que, segundo o critério, não podem ser comparados a nenhum outro país.

Veja quem evoluiu ou piorou:

Comparação dos países entre os anos de 2003 e 2013
BBC
Comparação dos países entre os anos de 2003 e 2013








Como funciona?
O método consistiu na avaliação de 100 países, desenvolvidos e emergentes. Cada um desses países recebeu notas em nove itens, que avaliaram diversos indicadores em três áreas diferentes: fatores econômicos, financeiros e sociais.

Para mensurar o desenvolvimento financeiro, avaliaram-se dados referentes à nota de crédito do país, à moeda e ao tamanho do mercado acionário como proporção do Produto Interno Bruto (PIB) ─ para se perceber quão desenvolvido e importante o mercado de ações é.

Na questão econômica, levou-se em conta o tamanho da população, o PIB per capita e competitividade, que incluiu avaliações sobre infraestrutura, mercado de trabalho e produtividade.

Em relação aos indicadores sociais, foram analisados o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que avalia educação, saúde e bem-estar de países; o Índice da Economia do Conhecimento (IEC) do Banco Mundial, e uma mistura de indicadores de liberdades civis e direitos políticos.

Os países foram, então, divididos em 10 "clusters" ─ ou grupos ─ a partir dos resultados desta avaliação. Assim, foram agrupados países estatisticamente parecidos.

Foram analisados dados do final de 2003 e do final de 2013 para que o desempenho dos países fosse comparado.

Quais foram os resultados?
Os países integrantes do grupo 1 foram aqueles que receberam as menores notas ─ ou seja, estão mais sujeitos a riscos ou são menos desenvolvidos. Já os do grupo 10 registraram as melhores avaliações.

Nos dados de 2013, o grupo 10 reuniu 17 países desenvolvidos, entre eles Austrália, França, Alemanha, Japão e Reino Unido. No grupo 1, foram incluídos Bangladesh, Nigéria e Paquistão.

O Brasil ocupou o grupo 6, com Colômbia, Indonésia, Malásia, México, Filipinas, Rússia, África do Sul, Tailândia e Turquia.

Eis as "surpresas": o estudo excluiu cinco economias dos 10 grupos, notadamente as duas maiores. Estados Unidos, China, Índia, Hong Kong e Catar foram considerados "casos únicos", disse Marber, em seus próprios "clusters", por ser impossível compará-los com os demais.

Por que isso? Os Estados Unidos, devido à grande população e riqueza, que não permite que o país seja comparado com nenhum outro, explicou Marber.

A China, devido à grande população. A Índia, também pela grande população, mas, devido às diferenças com a China, os países não podem ser comparados.

Hong Kong, pela combinação de riqueza, desenvolvimento financeiro e pequena população, e o Catar, devido a riqueza e pequena população.

Seriam estas exceções uma deficiência do estudo? "Não", diz Marber. "O que a gente está dizendo é que não há outros países que se pareçam estatisticamente com eles. E, na verdade, este é exatamente o ponto."

"Porque você está tentando dizer: não compare tudo com tudo. Tente comparar semelhantes. E a verdade é que você não pode comparar estatisticamente estes cinco países."

Outra surpresa: Chile, Coreia do Sul e Taiwan, países considerados emergentes, foram classificados no grupo 2, próximos ao grupo mais desenvolvido, e à frente de Portugal e Espanha, por exemplo, tradicionalmente considerados desenvolvidos.

Quais as conclusões?
Na comparação 2003-2013, o estudo conclui que o mundo parece estar "convergindo": os "clusters" de 5 a 10 agruparam 56 países em 2013, e 46 em 2003.

O Brasil, por exemplo, avançou do grupo 4 para o grupo 6, junto com Indonésia, México e Rússia. Chipre, Grécia e Portugal caíram do grupo 9 para o 7 e a Espanha saiu do "cluster" 1 para o 3.

Também caíram Kuwait e Emirados Árabes Unidos, países ricos do Oriente Médio, que passaram do grupo 8 para o 4.

"A crença convencional e o que você vê é bem diferente do que os dados apresentam", afirmou Marber para explicar as "surpresas".

Então, quando um país finalmente emerge? Esta parece uma pergunta sem resposta. "Há uma continuidade de desenvolvimento. É uma corrida sem linha de chegada. Não para", disse Marber.

"Como os países estão se desenvolvendo e para onde eles estão indo é uma incógnita. E o objetivo sempre muda. Então ter uma visão estática de países não faz nenhum sentido."

"E também a visão de que uma vez você chegou lá, você não pode piorar, ou que outros países não podem ser aproximar, também é um erro bobo."

Seria o fim da classificação 'desenvolvido e emergente'?
Classificações sofrem mudanças ao longo dos tempos ─ países emergentes já foram chamados de "em desenvolvimento" ou "terceiro mundo."

A atual avaliação de "desenvolvido" e "emergente" é criticada não só pela simplicidade mas devido aos critérios pelos quais são feitas - um país é considerado "desenvolvido" apenas por questões financeiras, ou índices sociais também devem ser levados em conta?

Ainda é cedo para dizer que o modelo atual será substituído por algum outro, mas já há um movimento para o uso de outras avaliações, disse Marber.

"Há o uso maior em setores do mercado do uso da nota de crédito ─ grau de investimento ou não. O que já uma boa distinção. É uma distinção de qualidade. E se você analisar a metodologia de países é uma abordagem multidimensional."

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