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Setor estima reajuste de cerca de 9% decorrente da alta da moeda que acumula variação de 30% desde o início do ano

O pãozinho francês, item essencial na mesa do brasileiro, terá um gosto mais salgado a partir do mês que vem. O setor estima reajuste de cerca de 9%, decorrente da alta do dólar. A moeda acumula variação de 30% desde o início do ano. Nesta semana, foram quatro altas seguidas, influenciadas pela instabilidade política. A divisa ultrapassou a barreira dos R$ 3,50 e fechou a semana cotada a R$ 3,51.

Dono de Distribuidora Valdemi Vieira fala sobre a alta do dólar para a compra de bacalhau e baixo movimento de compra na Cadeg
ALEXANDRE VIEIRA/AGÊNCIA O DIA
Dono de Distribuidora Valdemi Vieira fala sobre a alta do dólar para a compra de bacalhau e baixo movimento de compra na Cadeg

O pão é um dos alimentos mais afetados com a oscilação da moeda porque o Brasil não produz muito trigo, por isso é dependente de importação. “A gente ainda tem um pouco de trigo brasileiro nos estoques, mas não vai dar para segurar. Além do aumento do dólar, os fretes e pedágios também subiram.

Infelizmente, vamos acabar repassando para o consumidor”, afirma Fernanda Hipólito, diretorado Sindicato das Indústrias de Panificação e Confeitaria do Rio de Janeiro (Sipc).

A variação vem em um momento em que o brasileiro já está sofrendo com a inflação. Nos últimos 12 meses, a alta acumulada é de 9,56%. Somente o pão francês subiu 9% no período. O aumento dos derivados do trigo é só um entre os vários efeitos da aceleração do dólar na economia brasileira. Produtos que contêm componentes estrangeiros ou são totalmente importados acabam sendo os mais afetados com a desvalorização do real.

Isso sem falar nos turistas que pretendem ir para o exterior, que ficam com os cabelos em pé a cada vez que precisam pisar em uma casa de câmbio. O dólar turismo atingiu seu ápice na quinta-feira, quando algumas casas de câmbio chegaram a negociá-lo a mais de R$ 3,90, nos cartões pré-pagos — em que há cobrança de IOF.

“O indicado nestes casos é ir fazendo a compra no decorrer do tempo e não ficar preso a uma cotação. Hoje temos dólar sendo vendido a R$ 3,80, lá na frente pode ser que ele esteja R$ 4,20”, afirma Paulo Figueiredo, Diretor de Operações da assessoria de investimentos FN Capital.

No Cadeg, clima é de preocupação

A alta da moeda preocupa os comerciantes de um reduto frequentado por chefs e amantes da boa gastronomia no Rio. No Centro de Abastecimento do Estado da Guanabara (Cadeg), famoso por vender importados como vinho e bacalhau a preços amistosos, a desvalorização do real assusta.

Mas um fator deve segurar a variação destes produtos. Como as demandas estão fracas neste ano, os vendedores ainda estão com estoque para ‘queimar’.

“No momento, este aumento não tem impactado, porque os vendedores ainda têm estoque e não estão conseguindo vender”, afirma o comerciante Valdemi Vieira Santos, da distribuidora Casa Tilim.

Com a queda na procura de importados, tem investido em commodities da cesta básica. “São produtos com incentivo fiscal do governo e bem em conta, como o óleo e o arroz”.

Impactos positivos

Entretanto, há um lado positivo nesta dança de moedas. Com o real desvalorizado, a indústria exportadora é alavancada, a produção nacional ganha competitividade e a dívida do país é reduzida. “O país precisa fazer um ajuste no setor externo. Há um déficit de transações correntes de 4,5% do PIB. O Brasil precisa tornar o capital em reais mais atrativo e isso se faz através de desvalorização. Ela não é um problema, é parte da solução do problema”, diz Pedro Paulo Silveira, economista-chefe da TOV corretora.

Ele afirma que a pressão pela inflação é o preço a se pagar para que a economia volte a crescer. “Existe um custo para melhorar o bem-estar. O ajuste provoca desemprego, aumento do sofrimento, e uma das formas de atenuar isso é pela desvalorização cambial, que melhora a parte fiscal”, diz.

Com as fortes oscilações desta semana, analistas já começaram a prever que a moeda norte-americana pode bater nos R$ 4. “Acredito que possa chegar neste valor, mas é uma previsão com base no cenário atual. Hoje, está difícil ocorrer um evento positivo. A gente tem uma guerra entre o Eduardo Cunha (presidente da Câmara) e o PT que não estava prevista lá atrás”, afirma.

Padarias têm que se reinventar

Segundo Fernanda Hipólito, do sindicato da panificação, as padarias estão em um momento de reinvenção diante da queda no consumo. Ela afirma que o tíquete médio nos estabelecimentos do gênero caiu de R$ 15 para R$ 9. “Na economia ruim, as pessoas cortam os supérfluos. As famílias que tinham o hábito de tomar café na padaria estão comendo em casa”, diz.

Uma das soluções encontradas é investir na fabricação de produtos próprios, como pães de forma, em substituição à venda de industrializados, aumentando a margem de lucro.

Outra ideia que vem sendo usada pelos empresários é trocar ingredientes importados por nacionais na sessão de confeitaria e produzir “festivais” utilizando as frutas da estação, que são comercializadas a preços mais competitivos.

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