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IPCA de julho ficou em 0,62% e acumula alta de 9,56% em 12 meses, a maior desde novembro de 2003; analistas e governo já admitem inflação na casa dos 9% em 2015

Por que os preços sobem? A pergunta é prosaica, mas a resposta rende páginas e páginas de debate econômico.

Os preços podem subir se a demanda por determinado produto aumentar sem que haja uma expansão da oferta. Também se os custos de produção crescerem ou mesmo como resultado de um processo de indexação de contratos - no qual a alta de preços passada impulsiona os preços futuros.

 Segundo dados divulgados pelo IBGE, só em julho, a alta de preços medida pelo IPCA foi de 0,62%, contra 0,79 % de junho e 0,01% do mesmo período do ano passado
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Segundo dados divulgados pelo IBGE, só em julho, a alta de preços medida pelo IPCA foi de 0,62%, contra 0,79 % de junho e 0,01% do mesmo período do ano passado

A recente aceleração da inflação no Brasil é em parte uma combinação de todos esses processos, segundo especialistas consultados pela BBC, mas também sofre influência de outros mais específicos da atual conjuntura econômica e política deles - sendo o principal deles a liberação dos aumentos dos preços administrados, como luz, água e combustíveis, que haviam sido represados no ano passado.

Segundo dados divulgados pelo IBGE nesta sexta-feira, só em julho, a alta de preços medida pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) foi de 0,62%, contra 0,79 % de junho e 0,01% do mesmo período do ano passado.

Assim, a inflação oficial acumulou alta de 9,56% em 12 meses, a maior desde novembro de 2003 - quando o acumulado em 12 meses foi de 11,02%.

Analistas e governo já admitiam uma inflação na casa dos 9% em 2015, o que estourará o teto da meta definido pelo Banco Central, de 4,5%, com limite de tolerância de dois pontos percentuais para cima e para baixo.

Abaixo, confira as quatro razões apontadas por especialistas consultados pela BBC Brasil para explicar a disparada de preços em 2015:

Preços administrados

A alta dos preços administrados, como telefonia, água, energia, combustíveis e transporte público, é a que mais tem puxado a inflação em 2015, segundo economistas.

Em julho, em particular, houve um reajuste de 17% para a tarifa de energia elétrica em São Paulo e de 14%, em Curitiba. Também foram registrados aumentos na conta de água e esgoto em Porto Alegre, Recife, São Paulo, Fortaleza e Campo Grande.

"Os preços livres até estão cedendo, em função do desaquecimento da demanda, mas ainda temos uma pressão grande nos monitorados", explica Thiago Biscuola, economista da RC Consultores.

"A questão é que o governo evitou subir esses preços no ano passado por que era ano eleitoral, mas em algum momento eles precisariam ser repassados ao consumidor."

Segundo o economista, só a tarifa de luz chega a registrar altas de até 70% - em parte em função do regime de chuvas desfavorável, que levou ao uso de energia de termelétricas, mais caro que a de hidrelétricas.

Em 2015, além de o governo ter autorizado reajustes para o setor, também entrou em vigor o chamado sistema de bandeiras tarifárias, nos quais as cores verde, amarela e vermelha determinam patamares diferentes de preços de acordo com as condições de geração de energia no país.

Ou seja, se não chove e os reservatórios ficam vazios, a energia fica mais cara.

Em 2015, além de o governo ter autorizado reajustes para o setor, também entrou em vigor o chamado sistema de bandeiras tarifárias
Agência Brasil
Em 2015, além de o governo ter autorizado reajustes para o setor, também entrou em vigor o chamado sistema de bandeiras tarifárias

Câmbio

O dólar já acumula uma valorização de 21,7% frente ao real neste ano e de 33% nos últimos 12 meses. Só no mês passado, a alta foi de 10%.

Já era de se esperar que essa mudança de patamar tivesse um impacto sobre os produtos importados. Mas, além disso, também parece haver um efeito sobre os preços dos "exportáveis".

"Como os exportadores ganham mais vendendo seus produtos para fora, em geral acabam cobrando um preço um pouco mais alto para mantê-los no mercado interno", diz Biscuola.

"Isso pode ser observado, por exemplo, com os produtos agrícolas. A câmbio torna-se mais um fator de pressão (sobre os preços)", completa o professor e colunista econômico Samy Dana.

Para Paulo Picchetti, especialista em inflação da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o efeito da alta do câmbio sobre os preços de exportáveis poderia ser maior.

"De certa maneira, o repasse desse ajuste está sendo limitado pelo enfraquecimento do mercado interno", explica.

Pressão de custos

As altas da energia e da água têm ampliado os custos da indústria e prestadores de serviço que, quando podem, acabam repassando esses reajustes para os consumidores para manter sua margem de lucro.

"A indústria têxtil, por exemplo, usa muita água, e a energia é um componente importante do custo de todas as indústrias", diz Dana.

Produtores que dependem de máquinas, equipamentos e insumos importados também estão tendo um aumento substancial de seus custos.

"Toda a cadeia acaba tendo de se ajustar e mudar seus preços em função dessa alta dos custos", completa Biscuola.

Gastos do governo e indexação

Para alguns analistas, o fato de o governo ter ampliado seus gastos e adotado uma série de medidas para estimular a economia nos últimos anos teria contribuído para colocar a inflação em trajetória de ascensão.

O problema, segundo eles, é que, apesar de a demanda ter crescido, os investimentos resistiram e a oferta não cresceu na mesma medida.

"Hoje, apesar dos esforços para se promover um ajuste fiscal, as despesas do governo continuam elevadas, como mostram os dados do orçamento do primeiro semestre - e isso está ajudando a segurar a demanda e a inflação em um patamar mais elevado", acredita Biscuola.

"Também temos uma inflação inercial, que vem da indexação dos contratos de aluguel e prestação de serviços, e da cultura brasileira de renegociações salariais. Com isso, o fato de a inflação ter ficado muito perto do limite superior da meta no ano passado contribui para que ela extrapole a meta este ano."

No ano passado, o IPCA ficou em 6,41%. O teto da meta era 6,5%.

"Esses mecanismos de indexação foram criados como uma forma de evitar que a economia se paralisasse em período de inflação alta. O problema é que eles nunca foram totalmente desmontados depois da estabilização do Plano Real", diz Picchetti.

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