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Empresas líderes de mercado utilizam mecanismos para contornar alta de estoques sem demitir e fuga do consumidor

Whirpool tem tido o apoio do sindicato de Joinville para evitar demissão
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Whirpool tem tido o apoio do sindicato de Joinville para evitar demissão

A indústria de linha branca e marrom está recuando fortemente neste ano, pressionada pela falta de crédito e baixa atividade econômica nacional, além do momento de insegurança com relação ao emprego. Por esse motivo, assim como outros setores industriais, as empresas estão utilizando mecanismos para reduzir a produção e tentar evitar que os estoques cresçam mais sem que o consumidor acompanhe na procura. Só uma coisa não acontece: redução de preço dos produtos.

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Segundo dados da Associação Nacional de Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos (Eletros), houve queda de 11% na comercialização de linha branca (fogões, lavadoras e refrigeradores) no primeiro semestre deste ano (7.431 milhões de unidades) na comparação com o mesmo período de 2014 (8.343 milhões de unidades). Já na linha marrom (TVs), o recuo foi ainda maior, de 39%, ao passar de 7.935 milhões de unidades vendidas no período de 2014 para 4.856 milhões de unidades neste ano. Na linha de televisores, o forte impacto pode ser explicado pelo fato de 2014 ter tido vendas recordes, impulsionado pela Copa do Mundo.

A unidade da Whirlpool de Joinville (SC), que fabrica as linhas brancas da Consul e da Brastemp, entre outras marcas, já concedeu 14 períodos de férias coletivas neste ano, segundo o Sinditherme, sindicato que representa o setor na região.

“Nós do sindicato propomos as férias coletivas para evitar demissões. Todo o mês, quando um produto tem demanda reduzida, para manutenção do emprego, negociamos férias coletivas, o que leva a redução do trabalho e de salário, proporcionalmente”, relata Rofl Decker, presidente do Sinditherme.  

Em fevereiro, toda a unidade, inclusive a área administrativa, teve férias coletivas, de 15 dias. A Whirlpool de Joinville tem 12 linhas, em três turnos, e emprega atualmente 6 mil funcionários, segundo o sindicato.

“Aqui estamos em uma situação muito ruim. Todos os setores que tiveram redução de IPI estão sofrendo hoje. Mas não há redução de preços dos produtos. Nas linhas de produtos classe A, estão subindo o preço porque a matéria-prima também aumentou. Nossa expectativa é de que comece a melhorar tudo em setembro porque o mercado imobiliário local fará muitas entregas. E quem compra casa, monta cozinha”, explica Decker.

Momento econômico não é propício para assumir dívidas

Para Antonio Corrêa de Lacerda, sócio-diretor da ACLacerda Consultores Associados e professor de economia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), o momento negativo é influenciado pelo quadro atual de crescimento da inflação, queda da renda, aumento do desemprego e encarecimento do crédito, que prejudica as vendas em geral. “Especialmente a venda de bens duráveis [caso da linha branca e marrom, entre outros]. Porque esse tipo de venda depende de crédito. Há ainda os fatores subjetivos. Crise de confiança, pois o consumidor pode não se sentir seguro, mesmo empregado, que não venha a ficar desempregado no futuro próximo ou ainda se a sua renda comportará o compromisso assumido com as prestações”, afirma.

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O economista acredita que esse quadro deverá se complicar nos próximos meses. “E antes de melhorar, vai piorar, pois o Banco Central segue elevando os juros, que já são muito altos. O próprio ajuste fiscal em curso é também recessivo por cortar investimentos e gastos governamentais.”

Marcela Kawauti, economista-chefe do SPC Brasil, explica que as pessoas fazem corte no orçamento começando pelos maiores gastos, que demandam pagamentos de longo prazo. “O ajuste sempre começa pelos maiores custos, especialmente quando são bens que não precisamos trocar toda hora. Os produtos de alto valor agregado, quando a economia está bemo bem, troca-se por algo mais novo e moderno. Caso contrário, usamos geladeiras e micro-ondas, TVs enquanto estiverem funcionando”

Marcela explica ainda que o consumidor não se arrisca a pegar crédito para isso porque, devido à alta da inflação, a parcela que cabe no bolso neste mês, pode estourar o orçamento no próximo. “Além disso, o crédito está caro, lojas e financeiras estão emprestando menos, segurando o crédito e não é hora de comprar nada de longo prazo.”

Segundo dados das vendas no varejo, do IBGE, o varejo ampliado (que engloba bens duráveis e semiduráveis, como eletroeletrônicos e linha branca) recuou 7,1%, em maio, enquanto o varejo restrito caiu 2%. “O varejo restrito tem caído menos do que o varejo ampliado. Isso explica o comportamento do consumidor, que mantém a compra de supermercados, por exemplo, mas evita a linha branca e os bens duráveis. Ajustam do maior gasto para o menor”, afirma Marcela.

As maiores quedas em maio no varejo, segundo o IBGE, foram registradas em móveis (que incluem eletrodomésticos e linha branca), com recuo de 10,9%, e veículos (-17,3%).

Demissão, férias coletivas e suspensão de contratos já são realidade

A LG em Taubaté (SP) começou em 27 de julho o quarto período de férias coletivas (20 dias) do ano. Segundo o Sindicato dos Metalúrgicos de Taubaté (Sindmetau), a unidade demitiu 130 trabalhadores na unidade, que fabrica monitores, linha branca e celulares. Procurada, a empresa respondeu por nota que passa por um momento de adequação da produção e da demanda do mercado decorrente da atual situação econômica do País. “A unidade fabril da empresa na cidade de Taubaté concederá férias coletivas para aproximadamente 233 colaboradores, da fábrica de celulares, no período de 27/07 a 15/08. Apesar de todas as adversidades, a LG acredita no potencial econômico do mercado Brasileiro.” A LG confirma as demissões na unidade de negócio, em julho, e informa que abriu um plano de demissão voluntário (PDV).

Na região de Campinas e Hortolândia, também no interior paulista, as marcas Dako e GE (ambas da holding Mabe) estão reduzindo a produção e demitiram recentemente. Segundo Sidalino Júnior, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Campinas (MetalCampinas), a Mabe de Campinas tem atualmente 900 trabalhadores, que trabalham na linha de produção de fogão (Dako e GE). “Houve demissão no primeiro semestre. A unidade produz 4,2 mil peças por dia, abaixo da capacidade de 5 mil. Antes tinha dois turnos e agora só tem um em funcionamento. Em Hortolândia, a linha tem 1,2 mil trabalhadores que produzem geladeiras das marcas da Mabe. A linha produz 2 mil unidades por dia, mas já chegou a produzir 2,8 mil, com dois turnos em funcionamento”, diz Júnior.

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As unidades deram férias coletivas no primeiro semestre e já programam um segundo descanso forçado em setembro, na fábrica de Campinas. “Nesse setor de linha branca estão todas as empresas demitindo. A Mabe, em Hortolândia está em recuperação judicial, e vive uma situação recorrente: falta de matéria-prima por falta de pagamento dos fornecedores. Quem vende quer receber, não é? Nesta semana [de 27 a 31 de julho] ficou tudo parado porque não tinha material. Então mandam os funcionários ficar em casa”, relata o sindicalista.

“Não admitimos lay off aqui na região porque um dos problemas a serem discutidos é o lucro do empresários, não a crise. Tem um problema político no País, que estão transformando numa crise econômica. Tudo que se tentou [redução de IPI, desoneração para os setores, incentivos] não segurou o emprego. Demitem alegando custo e contratam mais barato”, afirma Júnior.

Na região de São Carlos, onde a Electrolux fabrica sua linha branca, o Sindicato dos Metalúrgicos de São Carlos e Região, informou que a empresa tem 2.180 trabalhadores atualmente e que toda unidade tirou férias coletivas de 15 de junho à 15 de julho. “Na Electrolux essas férias já estavam planejadas e foram definidas no calendário aprovado pelos trabalhadores desde o início do ano. Em 2014, a Electrolux aderiu ao lay off [suspensão temporária dos contratos de trabalho], mas os trabalhadores retornaram dois meses antes do programa, pois a produção cresceu”, informou o sindicato em nota.

Zona Franca de Manaus tem atividade normal, diz sindicato

Sidney Malaquias, da diretoria do Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos e Eletroeletrônicos do Amazonas, afirma que "o pior já passou" na região. De janeiro a junho, aponta o sindicato, houve um saldo negativo de 2 mil demitidos na região (15 mil demitidos, menos 13 mil admitidos). "Mas as empresas já estão contratando para o terceiro trimestre. Essa rotatividade é sazonal, não vejo uma diferença para os outros anos. Trabalhamos com produtos sazonais, como ar-condicionado, então, normalmente muitas fábricas param um tempo mesmo. A crise que instalada não afetou a nossa região como as outras, pois é mais política do que econômica. As empresas aqui da Zona Franca de Manaus seguem seu dia a dia em normalidade de produção, não tivemos lay off na Samsung, LG, Midea ou Lenovo. Só no primeiro semestre, o setor faturou US$ 20 bilhões", afirma Malaquias.

O sindicalista explica que houve apenas uma modificação fora da rotina. "A Lenovo tinha 5 mil funcionários na Zona Franca, mas fez a migração de boa parte da produção para São Paulo, por conta da guerra fiscal. Agora tem aqui apenas 1 mil, mas não dá para dizer que fechou as vagas porque elas foram aberta em Itu." 

Em nota, a Lenovo informou que em função das condições macroeconômicas do mercado brasileiro, maior fabricante de PCs do mundo, está balanceando seu portfólio e redefinindo volumes de produção em suas fábricas.

Segundo Malaquias, a LG tem muita rotatividade porque contrata pessoas jovens para a linha. "O funcionário mais novo, custa menos para empresa porque ainda não é especializado, mas isso tem um efeito colateral, pois percebemos que, em sua maioria, esse tipo de trabalhador não têm o compromisso dos mais velhos. Então, observamos que a empresa sofre com o absenteísmo [falta recorrente]. Nas nossas conversas com a empresa sempre indicamos que tenham uma linha de produção mista: com jovens e pessoas mais velhas. Isso equilibra e pode influenciar positivamente os mais novos."

De acordo com o sindicato do Amazonas, apenas a Electrolux fez uso do mecanismo do lay off, para 300 dos cerca de 2,6 mil funcionários, na produção de micro-ondas e ar-condicionado. Neste ano, o lay off durou 90 dias. Os funcionários já retornaram ao trabalho regular.

A Samsung da Amazônia informa que sua operação no País segue de acordo com o calendário anual, sem qualquer interrupção na produção ou alterações nas equipes fora do planejado. A companhia reforça ainda seu compromisso de longo prazo com o Brasil, onde atua desde 1986.

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