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Companhias que abriram capital projetam aumento de até 97% em remunerações que podem chegar a R$ 110 mil por mês

Setor foi o que mais fechou vagas em 2015
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Setor foi o que mais fechou vagas em 2015

Gigantes da construção civil preveem gastar mais com seus diretores em 2015, pior ano para o emprego formal no setor em mais de uma década. Em alguns casos, os valores reservados para pagar os supersalários, que em 2014 foram suficiente para vencimentos mensais de até R$ 110 mil por mês por pessoa, cresceram mais do que a inflação.

Os dados fazem parte de um levantamento feito pelo iG sobre o quanto as 19 empresas do setor de construção civil da BM&FBovespa pretendem gastar com a remuneração fixa (excluídos bônus e outros prêmios) de suas diretorias. O grupo reúne sete das dez maiores empresas do ramo no Brasil, segundo o ranking ITC de 2014.

Das 19, 16 apresentaram previsões de remuneração para 2014 e 2015. Dessas, 9 elevaram o valor reservado para os supersalários em percentuais que vão de 3% a 97%. Outras cinco reduziram esse montante e duas o mantiveram inalterado. Na maioria dos casos, o valor reservado para os supersalários cresceu mesmo sem um aumento no número de diretores.

Quarta do ranking, a Brookfield, que não lançou nenhum empreendimento imobilário no primeiro trimestre de 2015 (último dado disponível), reservou R$ 6,9 milhões para pagar os vencimentos fixos de seus diretores neste ano.

O valor é 11% maior que os R$ 6,2 milhões previstos para o ano passado e, se dividido igualmente entre o número de membros previstos, representa cerca de R$ 120 mil por mês por diretor, 39% a mais que os R$ 86 mil por mês da previsão para 2014.

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A Brookfield diz que os R$ 6,9 milhões são o limite máximo que será gasto com a diretoria, cujo número de membros pode mudar.  Em 2014, entretanto, a companhia gastou 14% mais que a previsão, tendo dispendido R$ 7,1 milhões em remunerações fixas. Segundo a companhia, essa diferença diz respeito ao pagamento de INSS para os diretores, que aparentemente não foi contabilizado nos valores previstos.

A Rossi, sétima do ranking e que também derrubou os lançamentos a zero de janeiro a março deste ano, prevê gastar R$ 3,7 milhões com os seus quatro diretores neste ano, 9% a mais que os R$ 3,4 milhões previstos para 2014 e 20% a mais que os R$ 3 milhões efetivamente pagos. Em média, a quantia permite o pagamento de supersalários de R$ 76,6 mil por mês em 2015, ante os R$ 70 mil previstos para 2014.

A Adolpho Lindenberg, cujo volume de obras no primeiro trimestre está 12% abaixo daquele que havia no mesmo período de 2014, prevê quase dobrar os gastos com os seus diretores, dos R$ 374,8 mil previstos 2014 para R$ 740 mil em 2015. Os supersalários da companhia, entretanto, continuarão a ser os menores entre todas as analisadas, de cerca de R$ 30,1 mil por mês para cada diretor. 

A Adolpho Lindenberg argumenta que o volume global reservado para pagar os administradores (além dos diretores, há os conselheiros) é idêntico ao de 2014 que não realizou diminuição no seu quadro de colaboradores. Em nota, diz desconhecer o índice de 97% apurado pela reportagem e alega que as previsões são valores máximos, ", sendo provável uma redução". Em 2014, houve aumento.

Os maiores salários individuais serão pagos pela JHSF, que administra shoppings como o Cidade Jardim, em São Paulo. Em média, a remuneração fixa prevista para 2015 permite o pagamento de R$ 121,4 mil por mês para cada diretor, ou 50% a mais que os R$ 81 mil reservados para 2014.

Questionada, a JHSF nega ser uma empresa de construção civil, pois 70% de seus resultados são decorrentes de outras atividades que não a incorporação. Além disso, argumenta que a remuneração individual irá cair na comparação com o que foi efetivamente pago em 2014, quando a companhia teve menos diretores do que o previsto.

MRV: companhia diz que continua a contratar
Divulgação
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"Quando é feita a análise da remuneração individual de cada diretor, percebe-se que houve redução de 6% na comparação de 2015 com 2014. Incluindo a inflação prevista para o ano, de 10%, chega-se a uma queda real de 16% nos vencimentos de cada executivo", diz a JHSF, em nota.

Uma das maiores construtoras do País, a MRV reservou R$ 8,2 milhões para pagar os salários de 9 diretores, 39% a mais do que os R$ 5,9 milhões previstos para 2014. Na média, se tudo correr como o previsto, cada um receberá R$ 75,7 mil por mês, fora bonificações. A investidores a MRV divulga que o número de funcionários em suas obras subiu de 23,7 mil em 2014 para 25,8 mil em 2015.

Pior setor da economia

A desaceleração no setor da construção civil fez dele o pior setor da economia para o emprego formal em 2015, proporcionalmente. Até junho, o setor havia perdido 134 mil vagas, o que significou em uma redução de 4,4% em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo dados do Cadastro Nacional de Empregados e Desempregados (Caged). Esse percentual é o pior desde, pelo menos, 2003.

As empresas de capital aberto, em sua maior parte, não contratam diretamente os seus empregados, diz Antônio Ramalho, presidente do Sintracon-SP, o sindicato que representa os trabalhadores do ramo no Estado de São Paulo. Mas ainda assim, determinam o desempenho do emprego no setor, especialmente em mercados de grande porte como São Paulo.

"Nós dependemos delas. Elas têm uma diretoria e contratam empresas terceirizadas [ para fazer o serviço ]", diz Ramalho, que contrapõe a previsão de supersalários maiores aos reajustes esperados pelos demais trabalhadores do setor.  "Nós tivemos o pior acordo coletivo dos últimos 20 anos. Observamos que quem trabalha mesmo não tem valor", afirma. "Quanto mais crise é melhor para quem tem dinheiro?"

Remunerações podem ser ainda maiores

O levantamento feito pelo iG levou em conta as diretorias pois esses são os departamentos normalmente mais bem remunerados das companhias de capital aberto. O recorte desconsiderou as remunerações variáveis – como bônus e participações em resultados – pois essas últimas são muito afetadas pelo desempenho da companhia. 

"A tendência é que a remuneração fixa seja mais estável, pois não depende de metas", diz Luiz Martha, do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBCG, que faz uma pesquisa anual sobre a remuneração dos diretores e conselheiros). "O que pode alterar é se a empresa extinguir a diretoria ou acontecer algo excepcional."

Obrigadas a apresentar uma previsão também de quanto vão gastar em remuneração variável, as empresas normalmente indicam um limite máximo bastante superior ao que vai ser efetivamente gasto. Martha, do IBGC, não vê problemas na prática.

Outro lado

Gente de Relações com Investidores da Helbor, Ricardo Garcia diz esperar que a remuneração fixa dos diretores em 2015 seja a mesma de 2014, como previu a companhia. "Acho que vai ficar mais ou menos igual ao ano passado. Não vai haver alteração."

A João Fortes, que reduziu a previsão em 11%, diz que a remuneração dos administradores é definida e atualizada com base em pesquisas de mercado que levam em conta as características do cargo, a quantitade e perfil dos ocupantes e a situação do mercado de trabalho específico.

A Cyrela, a Trisul e a Viver informaram ter prestado os dados exigidos por lei à Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Procurada no fim da tarde de sexta-feira (17), a Direcional não comentou as informações da reportagem até a conclusão desta edição. As demais companhias também não comentaram.

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Nota da redação: uma versão anterior desta reportagem informou dados incorretos no gráfico "Quanto custa um diretor"; os dados foram corrigidos.